quinta-feira, 14 de julho de 2011

Um Erro Emocional - Cristovão Tezza

Desculpem novamente a demora... os trabalhos da UFPA estão me tirando todo o tempo que tinha livre para falar de literatura à toa. Esse livro (que comprei no início do ano) me foi indicado por uma amiga que possui um gosto literário muito parecido com o meu (com algumas pequenas divergências), o que já era uma pre-disposição para eu gostar do livro.

Existe uma temática recorrente na literatura brasileira contemporânea, que é a problemática da vida atual em relação ao passado, as diferenças entre o cotidiano atual e as lembranças (nem sempre felizes) e traumas passados. Nessa temática inclui-se o livro Tempos Férteis de Beatriz Moreira Lima e também este, só que de formas bastante diferentes.

Cristovão Tezza é um dos escritores novos mais renomados da atualidade, com um sucesso incomum de venda e de crítica especializada (desconsidero a crítica jornalística e midiática por, na maioria das vezes, não valer nada). Seu livro "O Filho Eterno" ganhou uma série de prêmios importantes como o Jabuti, o Portugal Telecom e o da APCA. "Um Erro Emocional" é o livro mais recente do escritor.

Antes de falar do livro propriamente dito, me permitam mais uma divagação sobre a técnica do Fluxo de Consciência (técnica muito usada nesse livro). Muitos pensam que essa técnica é bem recente ou vanguardista, mas na verdade é um recurso estilístico bem velho (ao que me consta, usado pela primeira vez por Laurence Sterne). Acho particularmente interessante como um recurso que era considerado "Erudito" ou "Intrincado" passou a ser tão popular e apreciado por muitos leitores que não possuem a mínima proficiencia de leitura (compreensão e interpretação de um texto literário). Para confirmar basta ver o número de livros utilizando essa técnica atualmente, e a popularidade de escritores do cânone que usam e abusam desse recurso (como Clarice Lispector). Um Erro Emocional é basicamente composto sobre o fluxo de conciência dos personagens, mas há características marcantes que não o fazem um livro vulgar.

"Cometi um erro emocional", assim inicia-se o livro, em uma situação absurda e gratúita o protagonista do livro (um escritor chamado Paulo Donetti) entra na casa da protagonista (Beatriz, e fan nº1 do escritor) confessando o seu erro (emocional) e sua paixão pela personagem. A partir desse acontecimento, a narrativa se desenvolve entre um copo de vinho e outro (e eu um breve momento um chá).

Mais importante do que o que é dito e o que é feito, é o que não é dito, o que deveria ser feito, o que poderá vir a ser feito e o que aconteceu. A narrativa está incluinda em um processo temporal complexo, onde pretérito perfeito e presente ligam-se intimamente, além da presença do mais-que-perfeito e do futuro do pretérito. Definitivamente, esse não é um livro que se possa definir em algumas poucas palavras que cabem nessa resenha, portanto, acho que encerro aqui, recomendando seriamente a leitura desse livro, tanto por sua qualidade técnica, por sua profundidade psicológica e pela agradabilidade da leitura.

Esse livro é bônus do desafio literário do mês de Julho.

Nota do Elaphar: 9,2

Edição Lida:
TEZZA, Cristovão. Um Erro Emocional. Rio de Janeiro: Record, 2010, 191p.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Tempos Férteis - Beatriz Moreira Lima

O DL desse mês é sobre novos autores, e se há uma pequena lacuna na minha biblioteca, é justamente o de novos escritores nacionais... por sorte a maioria dos livros que tenho de novos autores não foi lida, o que me permitiu uma certa possibilidade de escolher (vou fazer uma leitura geral dessa estante). Li esse livro no primeiro dia do mês, mas como estava com muita preguiça e trabalhos para fazer nesses dias, só agora resenhei... e pretendo fazer uma resenha rápida.

Muito se diz a respeito de criticar obras de autores "amadores" e como essa critica deve ser diferente da de autores "clássicos". No fundo, não concordo que devemos avaliar diferentemente (nesse sentido), e que, se por um lado há escritores de evolução lenta (como o grande Machado), há também escritores precoces (como Álvares de Azevedo) e escritores que escreveram mal durante toda a vida (muitos por aí)...

É muito dificil criticar (no sentido de criar juizos críticos, e não falar mal simplesmente) uma obra que não se aprecia. Também não tenho o talento de José Veríssimo de simplesmente dizer que tal obra e tal escritor é tão ruim que não mereça ser estudado. Mas no fundo, não gostei do livro, e esses são os meus motivos:

- Personagens pobres (recortes de personalidades, visando um espelhamento ou aversão imediatas por parte do leitor)
- Quase auxência de tensão psicológica
- Episódios clichés
- Estrutura convencional
- Previsibilidade narrativa
- Falta de profundidade nos (diversos) temas abordados
- Normalização X Desregulação estilística das vozes
- etc...

Em compensação, alguns pontos positivos podem ser notados, como o fato de todos os personagens serem (diferentemente) preconceituosos, sem muitas vezes se dar conta disso.

A história é simples, pouco elaborada, e na maioria das vezes sem graça em todas as acepções da palavra. Conta a história de uma mulher separada, cheia de problemas dos mais variados tipos, desde financeiros, familiares (problemas com a mãe, que na maioria das vezes é um psicologismo raso), afetivos... a mulher trabalha como vendedora, mas tem outra formação e outro sonho. Vemos vários recortes em sua personalidade e comportamento, na maioria das vezes buscando um espelhamento. Os outros personagens são ainda menos interessantes (principalmente pela linguagem) e variados. Ao final da narrativa a protagonista consegue recuperar o seu verdadeiro amor (Otávio, o ex-marido) e consegue iniciar na realização de seu sonho proficional. Happy Ending.

É muito bizzarro o modo como são retratadas as mulheres no livro (e o livro foi escrito por uma). Os episódios muitas vezes desafiam o bom gosto, mas algumas pequenas coisas podem chamar atenção, como uma parte do "livro no livro", onde a personagem lê um livro raso tendo consciência da "rasidão" do livro e da leitura, reflexão bastante diferente (e não tão magnífica) quanto a propiciada em A Volta do Parafuso. Temos outras coisinhas legais no livro, mas em geral é um livro que não valeria a pena ser lido. Não valeria nem mesmo os 5 R$ que paguei por ele, num queimão de estoque da 7 Letras no JALLA 2010 em Niterói.

Esse livro faz parte do Desafio Literário do mês de Junho. Para conferir a lista do desafio clique aqui.

Nota do Elaphar: 7,0

Edição Lida:
LIMA, Beatriz Moreira. Tempos Férteis. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008, 234p.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Melhores do Semestre

Meu ritmo de postagem está muito fraco esses dias, mas isso é devido meu ritmo de leitura estar bastante intenso.

Vejamos agora os 5 melhores livros lidos (ou  relidos) no semestre por categorias:

Romance
- Lolita - Vladmir Nabokov (Biblioteca Folha) - Trad: Jório Dauster. Lido em Janeiro
- O Estrangeiro - Albert Camus (Record) - Trad: Valerie Rumjanek. Lido em Feveireiro
- O Tetraneto del Rei - Haroldo Maranhão. Lido em Abril.
- O Mestre e a Margarida - Bulgakov. Lido em Maio

Novela
- A Mulher Desiludida - Simone de Beauvoir (Nova Fronteira). Lido em Janeiro
- Tônio Kroeger & Morte em Veneza - Thomas Mann. Lido em Março
- A Volta do Parafuso - Henry James (Hedra). Lido em Maio.
- O Processo - Kafka. Relido em Maio
- O Homem de Areia - E.T.A.Hoffmann. Relido em Maio

Conto
- Memórias do Quintal - Alfredo Garcia (Paka-Tatu). Lido em Janeiro
- A Legião Estrangeira - Clarice Lispector. Lido em Fevereiro
- Papéis Avulsos - Machado de Assis. Relido em Março
- Histórias sem data - Machado de Assis. Relido em Abril

Poesia
- Melhores Poesias de Sousândrade - Seleção de Adriano Espíndola. Lido em Março
- Cromos - B.Lopes. Lido em Abril.
- Melhores Poesias de Mário Faustino - Seleção de Benedito Nunes. Lido em Abril.
- Ocidentais - Machado de Assis. Lido em Maio
- 33 Esperimentos e uma Suite - Sérgio Wax. Lido em Maio

Tradução
- Sonetos de Shakespeare: Faça você mesmo (Objetiva) - Org: Jorge Furtado. Lido em Janeiro
- Eneida - Virgílio (Jackson) - Trad: Odorico Mendes. Lido em Março
- 45 Sonetos de Shakespeare - Trad: Péricles Eugênio. Relido em Abril
- A Batalha de Maldon - Trad: Glauco Roberti. Lido em Maio
- Meus Poemas... dos Outros - Trad: Heitor P. Fróes. Lido em Maio

Não-ficção*
- Diário da Ilha - Lindanor Celina (CEJUP) . Lido em Fevereiro
- Beethoven - Richard Wagner (Jorge Zahar). Lido em Feveireiro
- Cartas ao Jovem Poeta - Rilke (L&PM) - Relido em Abril

Outros**
- Livro de Juízes (bíblico). Lido em Março
- 2 Epístolas aos Coríntios - Paulo de Tarso - Relido em Abril
- Fausto - Goethe - Trad: Feliciano de Castilho. Lido em Maio

* Não inclui livros teoricos (científicos ou didáticos).
** Inclui obras dramaturgicas, religiosas e livros de autoria e ficcionalidade dúbias. Não inclui livros parcialmente lidos.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Fausto - Goethe (Tradução de F. de Castilho)

Pintura de Eugène Delacroix
Estava quase pensando que já havia lido tudo o que havia de bom no genero teatral, mas sempre um texto novo pode nos trazer grandes surpresas. Goethe dispensa comentários: é o nome mais famoso da literatura alemã e um milagre na história da literatura, um dos poucos escritores que são geniais em todos os gêneros que escreve (no caso de Goethe os gêneros épico, lírico, dramático, novelístico, satírico, didático, epistolar e científico). A obra Fausto é de longe seu mais famoso trabalho, ao lado dos Sofrimentos do Jovem Werter, Wilhelm Meister e alguns poemas superfamosos como O Aprendiz de Feiticeiro (Der Zauberlehrling), O Erlkönig e a Dança Macabra (Totentanz).

O mito de Fausto é bastante recorrente na literatura (principalmente em língua alemã), e se baseia em uma figura histórica. Fausto era um sábio que pouco se sabe sobre sua vida, e mitologicamente crê-se que Fausto fizera um pacto com o demônio. Marlowe foi o primeiro a representa-lo em um texto de qualidade literária, mas no romantismo alemão centenas de escritores escreveram sua versão do mito. Mais recentemente temos a versão de Fernando Pessoa (Fausto, uma tragédia Subjetiva) e a versão de Thomas Mann (Doktor Faustus). Sem sombra de dúvidas, o Fausto goethiano é o mais famoso, e foi base para inúmeras adaptações (como a abertura de Wagner, a ópera francesa e o episódio do Chapolin Colorado).

Fausto é uma tragédia, contendo todos os elementos para ser considerada como tal, mas muito se critica quanto a obra Fausto ser ou não ser teatral. Em primeiro lugar há um "Prólogo do Autor", onde o autor fala sobre si e a obra, em seguida vem um "Prólogo no Palco" bastante metalinguístico, onde o Poeta, o Empresário e o "Gracioso" (Lustige Person, ou seja, bobo, palhaço) discutem sobre a criação e apresentação da peça. Além desses dois elementos fora do comum (que não são muito próprios do teatro), há um Intermezzo tão fragmentário e estranho (a lá Sousândrade) que sua encenabilidade é questionável. Desconsiderando esses elementos, a peça é absurdamente enorme para um texto teatral (a primeira parte da tragédia tem mais de 300 páginas), as instruções dramáticas parecem que foram escritas para ser lidas e não encenadas, e Fausto possui algumas cenas que fariam a cena da "Imolação dos Deuses" (de Götterdämmerung de Wagner) parecer uma peça escolar. Soma-se a tudo isso a dificuldade de compreender o texto, mas vamos por partes...

O livro começa com um soberbo prefácio de Otto Maria Carpeaux (a minha edição da Jackson Editores), que ajuda a esclarecer muitos pontos da obra que podem parecer obscuros, além de mostrar as absurdas diferenças entre "Fausto", uma tragédia" e "Fausto, segunda parte da tragédia". Lastimavelmente o livro não contém a "segunda parte" (que é uma obra autônoma), já que Castilho não a empreendeu traduzi-la. A esplicação de Castilho é simples: "extravagâncias absurdas [da segunda parte] são muito mais repugnantes ao bom senso". É importante notar que Castilho não entendia uma frase de alemão ao traduzir o Fausto, e portanto, traduziu por interposição, o que em poesia não é totalmente recriminável.

A obra começa no já citado "Prólogo no Palco", e segue para um "Prólogo no Céu" (que castilho considera já como início da peça [Quadro I]). Um coro de Anjos canta, quando o demônio (Mefistófeles) conversa com o Senhor, que lhe pede informações sobre o Fausto. Aí Mefistófeles resolve propor um desafio ao Senhor, que é prontamente aceito.
      MEFISTÓFELES
Quer Vossa Majestade uma apostinha?
Verá se também este se não perde,
uma vez que me deixe encaminhá-lo.
      O SENHOR
Deixo, enquanto for vivo. Onde há cobiças,
é natural o errar.
     MEFISTÓFELES
                              Muito obrigado.
Pois co’os vivos também é que me eu quero;
com defuntos embirro; o meu regalo
é tentar caras rechonchudas, frescas;
sou como o gato: de murganho morto
não faço caso; o meu divertimento
é correr e arpoar aos que me fogem.
     O SENHOR
Como queiras. Permito-te que o tentes.
Se lograres caçá-lo desbaptiza-o,
e inferna-o muito embora. Mas, corrido
fiques tu in æternum, se confessas
que o bom, dado que errar às vezes possa,
nunca nos sai da estrada, a recta, a nossa.
     MEFISTÓFELES
Bom. Não lhe há-de tardar o desengano,
Ganhei tão certo a aposta, como é certo
chamar-me eu Mefistófeles. Se eu vingo
na empresa, a palma do triunfo é minha.
Há-de se regalar de comer terra,
como a tia serpente.
 Depois parte para o inicio da tragédia propriamente dita, com um famoso monólogo de Fausto. Segundo Carpeaux, os jovens decoram passagens inteiras dos monólogos do Fausto na alemanha.
      FAUSTO (dessocegado, sentado numa poltrona de sola e pregaria de cobre, com a cabeça fincada nas mãos, e os cotovelos na mesa de estudo, na qual derrama luz frouxa um candeeiro aceso.)
Ao cabo de escrutar co’o mais ansioso estudo
filosofia, e foro, e medicina, e tudo
até a teologia... encontro-me qual dantes;
em nada me risquei do rol dos ignorantes.
Mestre em artes me chamo; inculco-me Doutor;
e em dez anos vai já que, intrépido impostor,
aí trago em roda viva um bando de crendeiros,
meus alunos... de nada, e ignaros verdadeiros.
O que só liquidei depois de tanta lida,
foi que a humana inciência é lei nunca infringida.
Que frenesi! Sei mais, sei mais, isso é verdade,
do que toda essa récua inchada de vaidade:
lentes e bachareis, padres e escrevedores.
Já me não fazem mossa escrúpulos, terrores
de diabos e inferno, atribulados sonhos
e martírio sem fim dos ânimos bisonhos.
[...]
Percebe-se que o Fausto de Goethe é inquieto, não quer saber muito, mas sim TUDO, missão fadada ao fracasso. Desde o início da narrativa me identifiquei muito com o personagem, entretanto, essa identificação vai se estinguindo no decorrer da narrativa (ainda bem). Segue-se uma bizarra cena onde Fausto conversa com um Espírito. Entra Wagner, sai o espírito. Wagner é um outro tipo de sábio, aquele que tanto Fausto quanto Goethe deploravam. Depois de mais um monólogo de Fausto, o protagonista tenta suicídio, mas ao ouvir sons da igreja ao lado (que não aparece no palco) desiste da ideia por conta dos sons lhe trazerem lembranças.

As próximas passagens são entre Fausto e Wagner numa rua (com um pequeno prólogo dos passantes), aí é que podemos compreender as diferenças de filosofia e objetivos dos dois personagens. Posteriormente, mais um monólogo de Fausto (é, ele fala mais sosinho que o Hamlet de Shakespeare), que está acompanhado de um cachorro. Nesse monólogo há a outra passagem famosa de Fausto, onde o personagem transforma o "No princípio era o verbo" ("Im Anfang war das Wort!") das escrituras em "No princípio era o Ato" ("Im Anfang war die Tat!", para Castilho Ação). O cachorro começa a metamorfosear-se (atrapalhando o monólogo) para enfim transformar-se em Mefistófeles. Segue-se o primeiro dos muitos diálogos entre Mefistófeles e Fausto.

É extremamente interessante a caracterização que Goethe dá ao diabo. Mefistófeles é bastante esperto, mas não aparenta. Mefistófeles é irônico, seco, até certo ponto cheio de graça. Depois de alguns diálogos, Mefistófeles fará uma proposta à Fausto: Fausto será jovem e o Mefistófeles o servirá na terra, porém, se Fausto ficar satisfeito Fausto deverá servir Mefistófeles no inferno.
    MEFISTÓFELES
                                        Então já pode
no pacto conchavar-se. O que eu lhe afirmo
é que estes dias que passarmos juntos
lhe hão-de por minhas artes dar tais gostos
quais os não teve alguém.
     FAUSTO
                                         Pobre diabo,
que hás-de tu dar-me? O espírito de um homem
como eu sou, foi jamais compreensível
aos da tua relé? Tens iguarias
que não matam a fome; oiro que fulge,
mas que igual ao mercúrio, escapa aos dedos;
jogo em que é certa a perda; uma beldade
que até nos braços meus soltando arrulhos,
já está piscando o olho ao meu vizinho;
pompas de glória, um fumo!
                                             O que eu preciso,
se o tens, são frutos a pender de copa
sempre frondosa, e que antes de apanhados
não tenham já por dentro o podre e os vermes.
      MEFISTÓFELES
Bem; tudo isso há-de ter; conte comigo
Desde agora, amiguinho, à rédea solta.
Folgar e mais folgar! Leva de escrúpulos!
Tudo quanto bem sabe, é permitido.
       FAUSTO
Se eu me acosto jamais em fofa cama,
contente e em paz, que nesse instante eu morra!
Se uma só vez com falsas louvaminhas
chegares por tal arte a alucinar-me
que eu me agrade a mim próprio; se valeres
a cativar-me com deleites frívolos,
súbito a luz da vida se me apague.
Vá! queres apostar?
      MEFISTÓFELES
                                   Se quero! Aposto.
       FAUSTO
Aperto mais: Se me chegar momento
a que eu diga: «Demora-te! És formoso»
então aos teus grilhões entrego os pulsos;
então a morte aceito; os sinos dobrem;
já livre estás de mim. Dessa hora avante,
quede o relógio! Caiam-lhe os ponteiros!
Acabou-se-me o tempo.
        MEFISTÓFELES
                                        Olhe o que afirma,
que entre nós outros nada esquece.
         FAUSTO
                                                         Embora!
Não me obriguei de leve. O que eu padeço
não é escravidão? Ser logo servo
de outro ou de ti, que monta?
      MEFISTÓFELES
                                                Às suas ordens,
desde já. Tem a nata dos serventes
para este bródio de barrete fora,
meu querido Doutor!
                                  Mais uma nica.
Há morrer e viver. É bom primeiro
pôr o preto no branco: um tudo-nada;
duas regritas só.
      FAUSTO
                            Que é! Papeladas
até no inferno, rábula! Bem mostras
entender pouco do que seja um homem.
[...]
Aqui surge a figura do pacto com o demônio assinado com sangue, tão copiado por muitos outros textos. Segue-se uma cena onde Mefistófeles fala a um rapazola que busca o conhecimento científico. É interessante o desprezo que Mefistófeles tem pelas ciências e pelo "progresso". Apenas agora começa a aventura de Fausto e Mefistófeles.

A primeira parada da dupla é em um bar de jovens. Fausto fica horrorizado com a "brutidade" dos jovens no bar e Mefistófeles prega uma peça nos jovens (não tão bizarra quanto as peças que o diabo de O Mestre e a Margarida prega nos habitantes de Moscou, mas ainda assim levemente divertida). Fico imaginando alguem representando essa cena, e como fazer a gota do líquido que os jovens bebem à voro transformar-se em chama do inferno e depois minguar. Claro, não é tão difícil de representar quanto a próxima cena, onde Fausto irá beber um líquido de onde sai labaredas.

A próxima cena é na casa de uma bruxa. Mefistófeles levará Fausto para beber uma poção, que fará o protagonista se apaixonar por Margarida (que aparecerá mais a frente). Essa cena é interessantíssima em cada parte e aspécto.
     FAUSTO
Mas porque há-de ser logo a preferida
a tal mondonga velha? Não podias
preparar-me tu próprio a beberagem?
     MEFISTÓFELES
Belo divertimento! Eu preferia
gastar o tempo em construir mil pontes.
Para arranjar os filtros desta casta
quer-se, além do saber, paciência e muita,
e atenção de anos largos; só co’o tempo
é que se alcança o fermentar completo
do líquido eficaz. Pois a quantia
d’ingredientes raríssimos! É certo
que o diabo é quem os sabe, e ensina tudo;
mas lá para os estar manipulando
é que não tem pachorra.
 Além dessa passagem, há muitas outras bem legais nessa mesma cena. A bruxa entra e não reconhece o diabo, que fica irado. Mefistófeles não quer ser chamado de Satanás pois esse nome "anda há já muito entre outros mil escritos/no volumoso ról das fábulas e mitos". A bruxa prepara a poção a fala expressões incompreensíveis (que lembra um pouco as Bruxas de Macbeth).
     A FEITICEIRA (empurra Fausto para dentro do círculo; e põe-se a ler no livro,
declamando com grande ênfase
)
Agora me explico,
Do um, dez fareis;
o dois deixareis;
o três uguareis;
e já sondes rico.
Lançar quatro fora.
Dos cinco e dos seis,
sete e oito fareis.
São estas as leis,
e andai-vos embora.
E os nove são um;
e os dez são nenhum.
E tenho acabada,
segundo cumpria,
toda a tabuada
da feitiçaria.
     FAUSTO (a Mefistófeles)
Ela estará com febre? A modo que extravaga.
     MEFISTÓFELES
Ai! de pouco se admira. Inda por ora a saga
do intróito não passou; e todo o calhamaço
vai no mesmo teor. [...]
     A FEITICEIRA (continuando)
A potência da ciência
que anda oculta em névoa escura,
só revela a sua essência
ao mortal que a não procura.
     FAUSTO
Que absurdo nos diz ela? A tantos disparates
já se me oira a cabeça; oitenta mil orates
não doidejavam mais.
 Depois de beber a poção (e um grito mudo de triunfo de Mefistófeles: "Que tal!/Coa dose que tomou, qualquer mulher que aviste/vai julgá-la outra Helena./ Ah sábio, alfim caiste!"), Fausto avista Margarida e por ela se apaixona. Fausto exige a Megistófeles a presença de Margarida e o demônio usa-se de retórica para fazer Fausto de bobo. Segue-se um quadro no quarto de Margarida, onde Mefistófeles esconde uma caixa de Jóias. Margarida chega no quarto e canta aquele que é um dos poemas mais famosos de Goethe em língua portuguesa, com 7 traduções diferentes até onde minhas pesquisas foram efetivas. A Canção do Rei de Tule, que também é uma ária da ópera francesa Fausto. Esse poema já havia sido publicado em outro livro de Goethe, e é republicado em Fausto. Isso também contribui para aumentar a aparência de que Fausto é um grande recorte e colagem da produção de Goethe em mais de 30 anos (que demorou compondo essa obra). Eis a canção na tradução de Castilho:
Reinava em Tule algum dia
um bom Rei tão fino amante,
que até morrer foi constante
à dama com quem vivia.

À hora do passamento
deixou-lhe ela um vaso d’oiro,
que foi do Real tesoiro
o mais falado ornamento.

Punham-lho sempre na mesa;
só por aquele bebia;
e o choro que então vertia
causava a todo tristeza.

Vendo o seu termo chegado,
repartiu pelos herdeiros
os bens, té aos derradeiros,
excepto o vaso adorado.

Foi isto em jantar de mágoas
que El-Rei deu à fidalguia,
em torre herdada que havia
ao rés das marinhas águas.

Como El-Rei houve bebido
o seu último conforto,
co’o braço já quase morto
levanta o vaso querido,

e por não deixá-lo ao mundo,
da janela ao mar o atira.
Ondeia o vaso, revira,
enche-se, e desce ao profundo.

No mesmo triste momento
em que o vaso se abismava,
o Rei seus olhos cerrava,
soltando o último alento.
 E aqui em uma versão um pouco mais decente, feita por Antero de Quental:
Era uma vez um bom rei
Em Tule, essa ilha distante,
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de oiro de lei.

Era um copo de oiro fino
Todo lavrado a primor;
Se fosse o cálix divino
Não lhe tinha mais amor.

Seus tristes olhos leais
Não tinham outra alegria:
E só por ele bebia
Nos seus banquetes reais.

Chegada a hora da morte
Põs-se o rei a meditar
Grandezas da sua sorte,
Seus reinos à beira-mar.

Deixava um rico tesoiro,
Palácios, vilas, cidades;
De nada tinha saudades,
A não ser do copo de oiro.

No castelo da devesa,
Naquelas salas sem fim,
Mandou armar uma mesa
Para o último festim.

Convidou sem mais tardar
Os seus fiéis cavaleiros,
Para os brindes derradeiros
No castelo à beira-mar.

Então, vazando-a de um trago,
E com entranhada mágoa,
Pôs nas ondas o olhar vago
E atirou a taça à água.

Viu-a boiar suspendida,
'Té que as ondas a levaram
Os olhos se lhe toldaram,
E não bebeu mais na vida!
E a minha tradução ruim para o primeiro verso (seguida do "original em parênteses"):
Em Tule vivia um rei (Es war ein König in Thule)
Que, fiel, a sua dama (Gar treu bis an das Grab)
Uma taça de ouro em lei (Dem sterbend seine Buhle)
Deixou-lhe na eterna cama. (Einen goldnen Becher gab.)
Tá legal, chega de poesia lírica. Me desculpem as divagações, é que sou tão fã de poesia que me deixei levar... Voltando ao drama...

Pulando uma série de episódios menos importantes (mas nunca sem importância, mas como isso é uma resenha não posso falar de todos os inúmeros episódios de Fausto), Mefistófeles arruma uma maneira de aproximar Margarida e Fausto, aproveitando a morte do marido de Marta (amiga de Margarida), pretendendo usar Fausto como testemunha da morte (apesar de nenhum dos dois terem estado no local da morte, não duvido de Mefistófeles, afinal, de morte ele entende). Há entre Fausto e Mefistófeles um diálogo que ainda está muito atual:
     FAUSTO
É previdente a mulherzinha;
mas então claro está que antes da coisa,
temos de ir ver em Pádua a sepultura.
     MEFISTÓFELES
Santa simplicidade! O que é preciso,
é jurar que se viu,
     FAUSTO
                                Se não me alvitras
coisa melhor, gorado está o ajuste.
    MEFISTÓFELES
Beatíssimo varão! Gosto do escrúpulo.
Pois nunca nunca, em toda a sua vida,
deu testemunho falso?
                                    Que de vezes
não haverá, com magistral entono,
coração firme e intrépido semblante,
declarado o que é Deus! aberto o arcano
do mundo e das míriades dos entes
que o povoam! do homem, co’o sem conto
de afectos, de paixões, de pensamentos,
que n’alma e coração lhe tumultuam!
Meta, bem dentro, a mão na consciência,
e diga-me se tinha dessas coisas.
mais noção que da morte do Espadinha?
     FAUSTO
És, foste, e hás-de ser sempre um mentiroso,
e um sofista de marca.
     MEFISTÓFELES
                                       É isso: ápodos,
porque antevejo o que o Doutor não pesca:
que amanhã, por exemplo, o escrupuloso
há-de enganar, jurando-lhe mil honras,
e amores mil, a pobre Margarida.
     FAUSTO
E a-la-fé que não minto em protestar-lhos.
[...]
Seque-se a conquista de Margarida. Mefistófeles também conquista Marta, o que não dá em nada e nem é falado na obra. Há um interessante diálogo sobre religiosidade, que, longe de ser puro apologismo ou sofisma é deveras interessante. Há um afastamente de algum tempo (o tempo da diegese da peça é algo muito dificil de se tira) entre Fausto e Margarida. É uma das partes de maior lirismo amoroso da obra. Os dois se reencontram e planejam cosumar o amor. Margarida conversa com outra amiga sobre isso, e a amiga repreende. Aí sai mais uma passagem que ainda se mantém bem atual e bem coerente com a cultura brasileira:
MARGARIDA, ()
(Tomando também da fonte o seu cântaro, e partindo-se com ele para casa, em direcção diversa da de Luisinha)
Também eu no meu tempo, em vendo moça errada,
logo a punha por monstro: a língua era uma espada,
e feita eu própria ré de atroz descaridade
benzia-me, e ficava impando de vaidade!...
E hoje... incursa no mesmo!!
(Após alguns momentos)
                                              Oh! Deus! mas quem podia
livrar-se de um prazer, que as pedras fundiria?
[...]
 Segue-se mais um poema de Goethe que não pertencia à fausto, e logo depois o monólogo de Valentim (irmão de Margarida, e não, não me esqueci de falar sobre ele, Valentim só aparece agora e só depois ele é apresentado como irmão de Margarida, sim, a leitura de Fausto é meio confusa), seguido do confronto entre Fausto (ajudado por Mefistófeles) e Valentim, que culmina na morte do segundo. A próxima cena é uma sombria cena naa Igreja, no funeral de Valentim, com a presença de espíritos.

As ultimas cenas são as mais estranhas da dramaturgia. Primeira é uma mistura caótica de personagens aparecendo e agindo como num baile. A outra cena é tão mais estranha está fora e dentro da peça (Áureas Núpcias de Oberon e Titânia - Intermezzo). E vocês pensavam que a poética ultrafragmentária surgiu apenas no modernismo? Essa passagem me lembra as decidas ao inferno do Guesa de Sousândrade.

E por fim, depois de um diálogo entre Fausto e Mefistófeles, Fausto entra na prisão para buscar a sua amada que foi presa por matar a mãe e o filho depois de enlouquecer (e não, também não esqueci de falar sobre isso). Essa cena é sombria e sublime. Termina com a dicotomia entre a condenação e a salvação. Termina a obra mas não a história de Fausto. O livro termina com um gostinho de quero-mais, entretanto, todos sabem que a "Segunda Parte da Tragédia" nada tem de ligação com a primeira, mas é uma série de mais outras passagens de incompreensível conexão definitiva para o nosso pensamento.

Fausto é uma Obra Prima e tem motivos para estar no cânone e influenciando o pensamento até os dias de hoje. Uma obra magnífica, embora difícil. A tradução de Castilho deixa muito a desejar no quesito "lirismo". O estilo de Castilho é falso, plástico, granítico. Há na tradução de Castilho algumas passagens magníficas, mas outras são tão de mal gosto que não merecem nem ao menos ser comentadas. Apesar de ser uma obra dramática, presta mais ao papel de ser "lida como teatro" do que "encenada como teatro". A nota do livro só é mais baixa pois analiso o livro como um todo (de produção gráfica, prefácio, conteúdo à tradução), e a tradução de Castilho deixou a desejar um pouco.

Esse livro é um livro bônus do Desafio Literário do mês de Junho. A tradução de Castilho pode ser adquirida gratúitamente no site do Domínio Público ou da Universidade de Aveiro. O livro pode ser achado facilmente em sebos e livrarias, em outras traduções. Há pelo menos 5 traduções integrais da primeira parte do Fausto em português (sem incluir uma do Fausto Zero [Urfaust] pela Christine Röhrig).

Nota do Elaphar: 9,6

Edição Lida:
GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto. Prefácio de Otto Maria Carpeaux. Trad: António Feliciano de Castilho. São Paulo: W. M. Jackson, 1960, 323p. XXXVp. (Clássicos Jackson, v.15)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Obras Literárias de Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha

Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha é considerado o primeiro poeta do norte do Brasil. Nascido no Pará (em uma região que hoje pertence ao estado do Amazonas), foi um poeta do Neoclassismo brasileiro (ou Arcadismo) que teve sua obra publicada apenas parcialmente e postumamente. Seu filho publicou o que sobrou da obra de Tenreiro Aranha (depois de uma série de acontecimentos que destruiu parte da obra do poeta) apenas bem depois da morte do escritor, e posteriormente, o estado do Pará republicou as Obras Literárias do escritor, onde encontra-se a poesia e teatro de Tenreiro Aranha.

Poesia de Tenreiro Aranha
A poesia de Tenreiro Aranha não é surpreendente, assim como não é surpreendente toda a poesia brasileira árcade. Tenreiro Aranha é um imitador dos clássicos, especialmente de Píndaro.

De píndaro Tenreiro tira a "forma" da maioria de suas odes (algumas intituladas "Ode Pindárica"), que são pindáricas de forma e conteúdo. Vê-se também a poesia laudatória de Píndaro também nos sonetos do poeta paraense, que na maioria das vezes são para louvar uma obra ou uma personalidade (política, militar ou religiosa). Seus melhores poemas são os sonetos, já que Tenreiro Aranha não tem muita habilidade com poemas muito longos (geralmente são cansativos em demasia).

Apesar de compor muitos poemas para "puxar o saco" de personalidades, alguns de seus versos possuem merecimento, assim como a maioria de seus poemas não laudatórios são belas poesias. Interessante é que, apesar de Árcade, em algumas ocasiões seu metro é um pouco irregular (principalmente nos acentos), mas essas irregularidades não são comuns. Eis dois poemas que exemplificam a poesia lírica de Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha:
Soneto
(Em louvor a Casa para depósito de pólvora construída em uma das margens do rio Aurá)
Do sacro Olímpo os deuses superiores,
Vendo já terminada a empresa clara
Que ao Aurá dá valor, e à nós ampara,
Lhe dão justos, magníficos louvores:

Juno louva a grandeza e seus primores,
Minerva admira a estrutura rara,
E Marte ali depósito prepara
De instrumento fatal de seus furores:

A mesma branda Vênus, e o Cupido
Se alegram (quem tal crera!) e para vê-la
Lindos ranchos já sei que vem trazido.

Só Jove não aplaude obra tão bela,
Por que já do seu raio retorcido
O Pará se não teme, depois dela.
Soneto
(A um passarinho, quando o Autor sofria vexações)
Passarinho, que logras docemente
Os prazeres da amável inocência,
Livre de que a culpada consciência
Te aflija, como aflige ao delinquente.

Fácil sustento, e sempre mui decente
Vestido te fornece a Providência;
Sem futuros prever, tua existência
É feliz, limitando-se ao presente.

Não assim, ai de mim! Porque sofrendo
A fome, a sede, o frio, a enfermidade,
Sinto também do crime um peso horrendo.

Dos homens me rodeia a iniquidade,
A calúnia me oprime; e, ao fim tremendo,
Me assusta uma espantosa eternidade.
Teatro de Tenreiro Aranha
O teatro de Tenreiro Aranha é, decerto, muito mais interessante que sua poesia (mas não "melhor" necessariamente).

É importante lembrar que o "Teatro Brasileiro" só irá surgir muitos anos após a morte de Tenreiro Aranha (em 25/09/1811), e ainda assim, as condições para a realização de uma apresentação teatral minimamente "aceitável" só irá aparecer no Auge da "Era da Borracha" (a belle époque amazônica). Apesar disso, várias apresentações teatrais "populares" (para não dizer de qualidade apresentativa duvidosa à la teatro elisabetano) aconteciam, seja no teatro municipal como nas ruas ou próximo aos rios.

Tenreiro Aranha (na verdade seu filho) foi o primeiro que publicou algumas dessas obras teatrais. O teatro de Tenreiro Aranha é bastante primitivo, usa de poucos recursos cênicos (nada de cenários elaborados ou grandes ações, é basicamente apenas declamação de poesia), e possui uma inconstância interessante: alguns momentos uma boa apresentação lírica, outras vezes cansativo, mas quase sempre ininteligível teatralmente.

Assim como sua poesia, seu teatro é basicamente laudatório. Um exemplo é essa cena da "peça" Os Pastores do Amazonas, que procura enaltecer o nascimento da neta do Rei do Brasil (assim como o aniversário do rei):
(Fragmento da 2ª Cena)
[...]
    ELISA
Salve Breno..
    BRENO
Adeus, prezada Elisa,
Dize-me, acaso foram tuas vozes
Sempre doces, mas hoje mais suaves,
As que, soando neste bosque umbroso,
Suspenderam os Zéfiros, e foram
Despertar meus sentidos, que em sossego
À sombra do arvoredo repousavam?
Dize, amável Serrana; e se tu foste,
Contínua a cantar, que dos raminhos
Já pendem para ouvir-te os passarinhos.
    ELISA
Não, Breno, eu não fui, nem sei quem fosse
D’entre nossos Serranos, que pudesse
Cantar tão digna e tão suavemente.
O mesmo assombro, que essa voz te causa,
Também sentido, venho diligente
A causa examinar. Em nossos campos,
Repara, meu Breno, neste dia,
É tal a amenidade, que parece
Que a mesma natureza alegre vejo.
Tudo prazer respira, os ares puros,
Os velhos troncos com viçosas flores,
Os doces passarinhos gorjeando,
Tudo, tudo denota neste dia
Não sei que novo gosto.
    BRENO
                  Sim, Elisa,
Os Deuses nos protegem certamente,
E nossos ledos e ditosos campos
Hoje parecem deles Habitados
    CORO (dentro)
Do largo Amazonas,
Felizes pastores,
Soltai doces vozes,
Ornai-vos de flores;

Fazei memorável
Tão ditoso dia,
Celebrando o Nome
Da Excelsa Maria

Nele dois presentes
O Céu nos envia;
Celebrai o Nome
Da Excelsa Maria
 Além d'Os Pastores do Amazonas, há outras duas peças dramáticas de Tenreiro Aranha no mesmo livro: "Drama Pela Fundação da Casa Para Depósito de Pólvora no Rio Aurá" e "A Felicidade do Brasil", ambos em um só ato.

O "Drama Pela Fundação da Casa Para Depósito de Pólvora no Rio Aurá" é uma peça de apenas três personagens praticamente sem ação cênica (apenas declamação), onde o Gênio Tutelar do Pará conversa com uma Ninfa do Amazonas e o Aurá. É um texto bastante simples com um ou outro verso de valor, mas a maior parte do texto é cansativo e repetitivo.

"A Felicidade do Brasil" é um drama bem interessante, com uma representação cênica bem mais elaborada, com atores indo e vindo de dentro e fora da platéia, terminando com os atores escrevendo mensagens em pilares que se erguem. A temática é ufanista. O motivo da composição foi o aniversário do Principe Regente do Brasil, e a peça foi encenada no dia 13 de Maio de 1808. É uma obra que possui algum valor, retirando-se os longos períodos de enaltecimento do Príncipe:
   GÊNIO DO BRASIL
                                   Ninfa bela,
Inda não sabes tudo; eu tenho ainda
A revelar-te novas, grandes coisas:
Saberás pois que neste mesmo Dia,
Dia brilhante memoravel, fausto,
Para bem do Brasil, e para glória
Dos humanos, do mundo inteiro digo,
Nesceu esse bom Príncipe adorado,
Que por Senhor, e Pai tu reconheces;
Hoje renova alegre o Sol luzente
O seu Aniversário majestoso;
 Apesar de todas as deficiências (e elas são muitas), a obra de Tenreiro Aranha possui alguns momentos de grande lirismo, seja na poesia lírica, seja na teatral. Podemos também justificar algumas deficiências devido o problema estrutural do teatro e da literatura brasileira da época.

Esse livro (ou parte dele) é um livro bônus do Desafio Literário do mês de Junho. Não é um livro fácil de ser encontrado (pois está esgotado a muito tempo). Pode ser conseguido com maior facilidade em sebos ou em alguma biblioteca.

Nota do Elaphar: 8,1

Edição Lida:
TENREIRO ARANHA, Bento de Figueiredo. Obras Literárias de Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha. Belém: SECULT; FCPTN, 1989, 171p. (Lendo o Pará, v.1)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Lição de Botânica - Machado de Assis

Quando escolhi minhas leituras para o Desafio Literário do mês de Junho, pensei primeiramente nas obras que ainda não li dos maiores autores "clássicos": Eurípedes, Shakespeare e Machado. Resolvi não ler Eurípedes por dois motivos: 1º não sei se tenho ainda "ouvido" para a tragédia grega, e 2º minha edição de Eurípedes é uma vergonha, e sua edição não devia nem ser comentada. Então ainda me resta Shakespeare, Machado e outros que me der vontade de ler no caminho.

Machado de Assis é sem sombra de dúvidas o maior nome de nossas letras, e, apesar de ter escrito em praticamente todos os gêneros literários conhecidos (do romance ao libreto de ópera, da crônica à tradução), é basicamente conhecido pela tríade Romance, Conto e Crônica. Se na resenha de Ocidentais tentei mostrar a poesia desse grande escritor, procuro agora mostrar outra parte de sua obra relegada ao esquecimento: o teatro.

Toda grande nação possui um grande escritor do gênero teatral, ou é isso que a história literária nos diz. A grécia possui Sófocles e Eurípedes, a Inglaterra possui seu Shakespeare, a Alemanha seu Hofmannsthal e seu Goethe (além dos libretistas, como Wagner), portugal seu Gil Vicente e seu Camões. Apesar de muitas vezes a arte dramatúrgica ser considerada de segunda importância (até pelos próprios escritores), o teatro é uma das mais magníficas formas da literatura. O Brasil, lastimavelmente, não possui uma tradição teatral histórica. O teatro brasileiro surge muito tardiamente, influenciado fortemente pelo teatro francês. Até mesmo o Shakespeare que era representado em nossa terra no século XIX era um Shakespeare afrancesado (baseado em imitações neoclássicas de Dulcis), e não o Shakespeare elisabetano.

Assim como em outros países, no Brasil grandes escritores escreveram também para teatro (como José de Alencar e Machado de Assis). A obra teatral do grande mestre Machado é julgada geralmente inferior ao restante de sua obra, e não posso dizer que isso não é verdade, mas também não é culpa unicamente do escritor: todos os dramaturgos brasileiros desse período sofriam do mesmo mal, ou a peça era ruim ou não era "encenável".

A obra teatral de Machado de Assis, como afirmou Quintino Bocaiuva, é mais para ser lida do que para ser encenada. Lição de Botânica não foge à essa máxima, apesar de ser, dentre as peças de Machado, a mais "encenável" (embora seria muito mais sem graça do que no papel). Lição de Botânica conta a história de três moças (Dona Leonor (irmã mais velha), Dona Helena (irmã mais moça, viúva) e Dona Cecília (sobrinha)), o Barão Segismundo de Kernoberg (sueco, botânico) e Henrique (sobrinho do Barão, não aparece na peça).

Cecília e Henrique possuem um "rolo" (se é que existia isso na época, mas é o que me parece), e o Barão, amante da ciência, quer que toda a família das moças se afaste, já que casamento não combina com a ciência. O Barão faz o pedido à D. Leonor (o pedido de afastamento), e acaba esquecendo um livro na casa das moças. Cecília fica triste, e Helena têm um plano para o Barão cancelar sua decisão. Ao buscar o livro Helena procura falar sobre seu interesse em botânica, e o Barão, interessado, lhe propõe dar algumas Lições de Botânica. Daí aparece o diálogo central e mais incisivo da narrativa:
D. HELENA - Só uma coisa lhe acho inaceitável.
BARÃO - Que é?
D. HELENA - A teoria de que o amor e a ciência são incompatíveis.
BARÃO - Oh! isso...
D. HELENA - Dá-se o espírito à ciência e o coração ao amor. São territórios diferentes, ainda que limítrofes.
BARÃO - Um acaba por anexar o outro.
D. HELENA - Não creio.
BARÃO - O casamento é uma bela coisa, mas o que faz bem a uns, pode fazer mal a outros. Sabe que Mafoma não permite o uso do vinho aos seus sectários. Que fazem os turcos? Extraem o suco de uma planta, da família das papaveráceas, bebem-no, e ficam alegres. Esse licor, se nós o bebêssemos, matar-nos-ia. O casamento, para nós, é o vinho turco.
D. HELENA (erguendo os ombros) -Comparação não é argumento. Demais, houve e há sábios casados.
BARÃO - Que seriam mais sábios se não fossem casados.
D. HELENA - Não fale assim. A esposa fortifica a alma do sábio. Deve ser um quadro delicioso para o homem que despende as suas horas na investigação da natureza, faze-lo ao lado da mulher que o ampara e anima, testemunha de seus esforços, sócia de suas alegrias, atenta, dedicada, amorosa. Será vaidade de sexo? Pode ser, mas eu creio que o melhor premio do mérito é o sorriso da mulher amada. O aplauso público é mais ruidoso, mas muito menos tocante que a aprovação doméstica.
BARÃO (depois de um instante de hesitação e luta) - Falemos da nossa lição.
D. HELENA - Amanhã, se minha tia consentir. (Levanta-se). Até amanhã, não?
BARÃO - Hoje mesmo, se o ordenar.
 Se você leu esse diálogo até o fim já sabe tudo o que vai acontecer. Helena aparece para a lição, o Barão fica confuso, cancela a lição, vai à casa de D. Leonor pedir a mão de Cecília para seu filho e a de Helena para si próprio. Previsível, chato e cliché. O livro termina com a fala de Helena (de gosto discutível): "Não se admire tanto, titia; tudo isto é botânica aplicada.".

A sensação que tive ao ler o livro: se eu tivesse lido só esse fragmento aí em cima saberia toda a história e não teria perdido nada (ou seja, li o livro inteiro em vão). Esse é o tipo de texto que só se mantém vivo por ser de um grande escritor (nesse caso: Machado de Assis), mas é uma obra que não vale a pena retirar do esquecimento, não acrescenta em nada a obra do grande mestre. Ah, e o livro têm umas duas referências diretas ao teatro francês (Musset) e uma certa semelhança com as primeiras comédias de Shakespeare. De resto, não recomendo nem um pouco, mas se tiveres vontade de ler, o livro é pequeno mesmo.

Esse livro faz parte do Desafio Literário do mês de Junho. Para conferir a lista do desafio clique aqui. O livro é fácil de ser encontrado, costando em qualquer edição da Obra Completa de Machado ou de Obras Teatrais. Também está disponível gratuitamente em uma infinidade de páginas na internet, já que o texto está em Domínio Público.

Nota do Elaphar: 7,8

Edição Lida:
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Lição de Botânica. in: Obra Completa. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Disponível em: http://machado.mec.gov.br/images/stories/html/teatro/matt10.htm .

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A Volta do Parafuso - Henry James

Henry James é considerado por muitos um dos maiores escritores norte-americanos, merecendo apreço de outros grandes escritores como Josef Conrad, e considera-se que suas obras estão carregadas de fundo psicológico. A Volta do Parafuso (ou Os Inocentes) é um de seus livros mais famosos, contando até com uma famosa adaptação cinematográfica.

O livro inicia-se com uma narração de história sombria numa velha casa no Natal, onde um dos amigos de Douglas (um dos narradores do livro) contou uma história onde uma aparição surgia para uma criança. Os que ouviram a história ficaram estarrecidos, mas Douglas lembrou de outra história "horrível demais". O nome do livro provém de uma expressão usual (Another turn of screw) que significa aumentar a tensão, sofrimento, dor e etc... Se uma história horrível é mais horrível ainda com a presença de uma criança, o que diria de duas? Esse é um ponto chave da narrativa: duas crianças, dois adultos, duas aparições e duas voltas.

Antes de falar um pouco mais do duplo, a narrativa possui 3 narradores, um que narra a noite de Natal e comportamento do amogo Douglas, depois o próprio Douglas narra o como ele conseguiu o manuscrito e dá um prólogo da narrativa, depois Douglas lê a narrativa de um manuscrito escrito pela protagonista da história, e terceira narradora. Além de não termos uma narração direta, a narrativa é complexa, profunda e que não se reduz à um único caminho, o que torna dificil (e praticamente impossível) "fechar" uma análise profunda da obra sem cometer o pecado da omissão, e, por outro lado, uma análise superficial demais é (além de impraticavel) um assassinato ao livro, que já ataca os leitores vulgares e superficiais no primeiro capítulo. Também vou tentar evitar spoilers o máximo possível, mas de qualquer modo, o desfecho da história não é mais importante (e interessante) que seu desenrolar.

A narração é magnificamente complexa e ao mesmo tempo saborosa de se ler. Apesar de, a princípio, achar-mos as crianças "plastificadas", percebemos a importância disso para o próprio desenrolar da obra. O clima sombrio que James constrói, além dos "labirintos" da narrativa nos guiam por diversos caminhos de leitura. Se você acha uma discussão inacabada o tradicional "Capitu traiu ou não traiu Bentinho?", o que dirá de uma narrativa onde tudo é dúvida? A visão é uma dúvida, as aparições, as crianças, a loucura, enfim... tudo.

Apesar de ser apenas um livro, em A Volta do Parafuso dois outros textos se fazem presente (e eu se fosse vocês procuraria lê-los o mais rápido possível): O Homem de Areia (Der Sandmann) de E.T.A.Hoffmann e o poema O Erlkönig (Der Erlkönig, também conhecido como Rei dos Elfos) de J.W. von Goethe. O Homem de Areia é um livro bem fácil de encontrar por ser um "clássico" do Romantismo Alemão, embora deve-se ter cuidado com as adaptações infanto-juvenis do livro, já que elas tiram todo o clima absurdo, sombrio e violento do livro. Para quem lê inglês ou francês, o Erlkönig é um dos poemas alemãos mais traduzidos. Para os monolíngues as únicas opções legíveis do Erlkönig são as traduções portuguesas (que podem incomodar os brasileiros devido aos "a ver", "rebento" e etc...) e a tradução anotada que fiz recentemente (e pode ser conferida clicando aqui), as outras traduções que podem ser achadas na internet não são minimamente legíveis.

Há relações óbvias com o enredo de O Erlkönig (a aparição à uma criança, o adulto tentando proteger, a morte e etc...), o que me leva a crer que a referência inicial à uma história horrorosa é uma referência ao Erlkönig. Para além das referências óbvias, ambos os textos são polissêmicos ao extremo: o que é realidade? o que é loucura? quem vê demais? quem não vê? seria doença?. A visão é outro ponto chave da narrativa, e me remete diretamente ao Homem de Areia, onde a narrativa se baseia na dúvida, no ver e não ver (no Homem de Areia o órgão da visão também é fundamental: o Homem de Areia joga areia nos olhos, a boneca robô têm seus olhos arrancados e etc..) e isso é chave importante nas três narrativas (isso considerando o poema de Goethe como narrativa).

Além da visão e dúvida (e por consequência a loucura), outro tema chave da narrativa é o duplo. Uma análise mais superficial nos dá uma rápida visão de que A Volta do Parafuso é um Erlkönig duplicado, mas não é somente isso, pois além de dois adultos, duas aparições e duas crianças, os fantasmas aparecem duas vezes em cada lugar (na torre, no lago, na escada e etc...), a preceptora vê seu patrão apenas duas vezes, o Peter Quint (uma das aparições) pode ser compreendido como uma duplicação da imagem do patrão, assim como a segunda aparição uma duplicação da imagem da preceptora (além do fato de haver duas preceptoras), e poderia ficar citando imagens duplicadas durante horas a fio. Essa duplicação também aparece de forma marcante no Homem de Areia na imagem (ou na possíbilidade) do ser duplo (der Doppelgänger). Seria Coppola um Doppelgänger de Coppelius? Da mesma forma que as aparições seriam duplicatas dos adultos?

As comparações que faço não são arbitrárias. A concepção dos três livros se assemelha, assim como seus temas e simbolos. Além disso, Goethe é uma influência incontestável (diretamente ou não, intencionalmente ou não) em praticamente tudo o que se fez depois dele, e Hoffmann é a base fundamental da narrativa sombria (em alemão Schauerliteratur), e influenciou diretamente um sem número de obras, particularmente em obras de língua inglesa. Apesar das obras anteriores nos ajudarem a compreender a gênese e significado de muitos símbolos e palavras-chave da narrativa de James, A Volta do Parafuso não se fecha apenas nisso, e a superficialidade (não intencional) de quem se aventura a escrever sobre esse romance é inevitável. Por conta de todo o jogo narrativo e interpretativo do texto, além do prazer que a leitura me ofereceu (crédito não só do autor, mas também da edição e tradução. Parabéns Hedra, Marcos Maffei e Marcelo Pen), esse livro merece (junto com Lolita de Nabokov) a nota máxima dada por esse humilde blog.

Nota do Elaphar: 10

Edição Lida:
JAMES, Henry. A Volta do Parafuso. Trad: Marcos Maffei. Introdução de Marcelo Pen. São Paulo: Hedra, 2010, 182p.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sonetos de Shakespeare (Trad: Milton Lins)

Essa edição e tradução dos Sonetos de Shakespeare é incrível e singular (e isso não foi um elogio). Esse livro foi uma grande polêmica em 2010 quando o escritor pernambucano recebeu a premiação da ABL pelas traduções do 4ºVolume de Pequenas Traduções de Grandes Poetas (depois para o conjunto da obra do escritor). O livro virou polêmica porque vários tradutores questionaram a qualidade das traduções do autor, e não foi qualquer tradutor invejoso não, foi ninguém menos que Denise Bottmann, Ivo Barroso e Jório Dauster.

Como sou fã incondicional dos Sonetos, logo busquei essa edição tão polêmica para ler e analisar. Afinal, é Shakespeare e não pode ser ruim certo? ... errado!

A capa e protetor de capa são belíssimos, uma produção ímpar, que somando-se ao corte da página e outros detalhes gráficos é um grande ponto forte dessa edição... mas ao ler o prefácio... vem minha primeira decepção. Milton Lins ao descrever a gênese dos poemas nem ao menos se preocupa com as informações que dá. Afirma categoricamente um posicionamento de difícil verificação como se fosse a única verdade sobre a história dos sonetos e do autor. Faz uma análise completamente incoerente da poética Shakespeariana, onde aponta que "[n]a leitura [dos sonetos] muitas vezes encontramos conclusões incongruentes ou sem sentido" (o que de certa forma, se aplica a ESSA tradução). O tradutor não deixa muito claro a sua proposta de tradução, que é feita ora em decassílabos ora em dodecassílabos com censura, sem explicação lógica de o que o faz traduzir soneto X em 10 sílabas e soneto Y em 12. O tradutor também afirma que logra em acrescentar ou subtrair ideias do "original", e é isso que vamos ver agora. Nem vou me dar ao trabalho de comentar o prefácio de Mário Marcio.

Ao chegar na primeira página com os sonetos traduzidos já vislumbramos um grande defeito: uma quadra aparece em português, seguida de uma quadra em inglês e outra em português. Essa disposição atrapalha muito a leitura, principalmente se o leitor não ler o texto em inglês. E logo no primeiro soneto já vislumbramos os problemas que vão perseguir todo o livro: o nonsense das traduções tanto se comparadas ao texto em inglês quanto se olhadas separadamente. Os dois primeiros versos do primeiro soneto são aceitáveis (Extenda-se a linhagem exemplar,/E que não morra a rosa da beleza), mas o terceiro verso visivelmente é criado unicamente para compor a rima ("Ao passo que o mais sábio não somar") que além de não fazer sentido nenhum, não tenho a menor ideia de onde ele tirou o texto fonte (por certo não é de: "But as the riper should by time decrease").

Não vou ser completamente injusto com Milton Lins, em um momento ou outro consigo vislumbrar um ou outro verso bem feito (como é o caso do dístico final do soneto III: "Mas se quiseres nunca ser lembrado/Morre solteiro - e morrerás dobrado"). Mas sejamos também realistas, nessa tradução encontramos muito mais equívocos, escolhas infelizes, erros de interpretação e outros dejetos do que uma boa tradução ou um bom poema.

Percebemos no decorrer da leitura que:
1 - O tradutor não possui muita intimidade com a língua inglesa:
          When I consider every thing that grows
          Quando eu considerar o que mais cresce (Soneto XV)
          As, to behold desert a beggar born,
          E mantenho deserto um pobre renascido, (Soneto LXVI)
2 - O tradutor não diferencia o inglês renascentista do inglês do sec XXI
         And that unfair wich farly doth exel:
         E o insatisfeito que também o excede. (Soneto V)
3 - O tradutor se preocupa unicamente com a rima e metro e nem liga para as palavras e imagens do poema inglês:
          Upon thy side against myself I'll fight
          Do teu lado e contrário, vou bater, (Soneto LXXXVIII)
          But mutual render, only me for thee
          E, em mútua entrega entre nós dois, se cobre. (Soneto CXXV)
4 - O tradutor não sabe o que é um péssimo verso:
          Sweet love, renew thy force; be it not said,
          Thy edge should blunter be than apetite,
          Amor, renova a força, e não a intriga;
          O fio é cego como a tua fome, (Soneto LVI)
5 - O tradutor usava algum alucinógeno ao verter alguns versos:
          Were 't aught to me I bore the canopy,
          Se tirar nota zero, eu furo o céu (Soneto CXXV)
          Let me not the marriage of true minds
          Ao casório não vou dos homens sabichões, (Soneto CXVI)
          Grant if thou wilt thou art belov'd of many,
          Teu talento é menor em teu visor, (Soneto X)

Alguma das escolhas do tradutor percebemos de pronto onde foi o erro, mas em outras não consigo imaginar de onde saiu a solução. Ah, e as citações de cima não foram escolhidas a dedo, mas sim aleatoriamente (já que estou com o livro ao lado).

Em geral não recomendo traduções completas de um livro de poesia. Em geral um livro de poesia que foi traduzido integralmente possui qualidades inferiores à outro que contenha apenas os poemas preferidos de um tradutor. Tradução de poesia significa muito mais do que conhecer a língua de partida e a lingua de chegada (principalmente essa) e compor poesia; traduzir poesia implica dedicação e identificação com os poemas. Isso pode ser percebido facilmente, por exemplo, ao comparar As Flores do Mal em tradução de Guilherme de Almeida (apenas alguns poemas) com a de Ignacio Moitta (integral). Com Shakespeare não é diferente, e eu recomendaria muito mais uma edição parcial (como a de Péricles Eugênio, Ivo Barroso, Bárbara Heliodora) do que uma integral (como a de Jerónimo de Aquino, Vasco Graça Moura entre outros).

Entretanto, se você quiser de fato ler TODOS os sonetos de Shakespeare na íntegra e não é fluente em inglês (mesmo se fosse, Shakespeare ainda é difícil), posso garantir que essa edição NÃO é recomendada. Poeticamente e tradutoriamente falando essa edição é demasiadamente falha. Entretanto, se você quiser mostrar a importância de uma boa tradução em uma aula ou para amigos, esse é um bom livro para servir de exemplo. De resto, vai a tradicional comparação entre um poema desse livro e dos outros que já foram resenhados:
É melhor ser um vil que um vil bem estimado;
Sem mais o ser, terás censuras por ter sido.
Justo o prazer perdido, assim então julgado
- Por sentimento, não; por algo deduzido.
Como algum falso olhar, por que outras sugestões
Em dar o seu apoio ao meu sangue convém?
Com o meu frágil pensar, são fracos espiões,
Que em suas decisões do mal mudam num bem?
Enfim, sou o que sou; e eles têm seu nível;
Por minhas confusões, as suas são contadas;
Eu fico em minha reta e eles no impossível;
Minhas ações no seu pensar não são mostradas.
    Ao menos no geral parâmetro de fera, -
    A humanidade é má, e na maldade impera
                      (Soneto nº 121 por Milton Lins, p.121)
A vileza é melhor que só a aparência dela,
Quando sua ausência é tida em conta de vileza.
A virtude se esvai, no meio onde se assela
De vil quem quer que tenha essa moral riqueza.
Por que o adulterado olhar dos outros há de
Meter-se a incentivar-me o gênio divertido,
Ou os meus fracos, se são mais fracos, em verdade,
Meus juízes, que acham mau quando por bom hei tido?
Não! não! Eu sou o que sou. Esses que se nivelam
Com os meus abusos os seus próprios reconhecem.
Estou certo e eles, pois, errados se revelam.
E ao seu pensar jamais minhas ações aquiescem.
    A menos que se negue uma feição humana,
    O mal é que governa os homens e os irmana.
                      (Soneto nº 121 por Jerónimo de Aquino, p.41)
É melhor ser mau do que por mau ser tido
Quando, não sendo, paga-se por ser
Perde o vil prazer de mau ter sido
Quem mal não sente e mau é dado a ver
Por acaso os normais, de olhos opacos,
Notariam brilho em meus excessos?
A fraqueza apontada pelos fracos
Que mal terminam onde eu bem começo?
Não. Sou o que sou. Se me condenam,
É pelos crimes dos quais são suspeitos
O que eu construo reto eles empenam
Em mentes tortas não cabem meus feitos
    A menos que o demônio imponha a crença
    De que todos são maus e que a maldade vença.
                      (Soneto nº 121 por Jorge Furtado, p.111)
Melhor ser mesmo vil do que por vil ser tido,
Quando não ser recebe a acusação de ser,
E o gozo, embora justo, fica assim perdido
Ante a condenação de alheio parecer!
Por que é que os outros, tendo o olhar adulterado,
Viriam me inflluir no sangue sensual?
Quanto espião, do que meu erro mais errado,
Em tudo o que acho bom entende ver o mal!
Oh não! eu sou o que sou; e aqueles que imperspícuos
Censuram meu deslize, apontam seu pecado;
Posso ser reto, já que tantos são oblíquos;
Nem por mentes de lama eu devo ser julgado,
    A menos que este mal sustentem ser verdade:
    A humanidade é má, e exulta na maldade.
                      (Soneto nº 121 por Péricles Eugênio)

Nota do Elaphar: WTF

Edição Lida:
SHAKESPEARE, William. Sonetos de Shakespeare. Trad: Milton Lins. Recife: S/E, 2005, XVp. + 154p.

domingo, 22 de maio de 2011

O Livreiro de Cabul - Åsne Seierstad

Mais um livro do desafio literário desse mês, e a resenha da vez é o grande Best Seller da escritora norueguesa Åsne Seierstad.

Segundo a autora, durante sua estadia no afeganistão (a escritora era correspondente de guerra em 2002, enquanto o afeganistão estava na moda) conheceu um livreiro (pseudônimo Sultan Khan) e decidiu escrever um livro sobre sua vida, então morou com a família dos Khan durante 3 meses.

Ao ler o livro, cheguei a conclusão de que metade do que foi escrito no livro é inferência da autora. Por quê? Åsne não compreendia bem o dialeto persa falado por metade da famíla, então só podia se comunicar com parte das pessoas, mas todas as personagens do livro tem sua psicologia (com medos, pensamentos, vontades e etc...) extremamente descrita. Outra coisa muito interessante, é que todas as mulheres do livro têm pensamentos ocidentalizados de sua própria cultura, o que me faz pensar que são pensamentos, na maior parte das vezes, da autora.

Outra coisa que me chamou muita atenção no livro é: "os membros da família Khan falaram o que não deveriam", o que provavelmente deveria causar problemas caso um membro da família ou conhecido lesse o livro, e que coincidência: o livro causou problemas. O livreiro Shah Muhammad Rais tentou processar a autora e escreveu um livro em resposta chamado "Eu Sou o Livreiro de Cabul" (publicado em nossas terras pela Bertrand Editora). De qualquer modo, a quantidade de ficção desses livros é tão grande que nenhum dos dois pode ser considerado a rigor um "retrato da vida afegã" (como é cafona essa frase).

Cabul não é tão diferente do Brasil como podemos pensar. Uma das maiores diferenças entre nosso país e o Afeganistão é a guerra que destruiu quase completamente o país. Muitos episódios do livro poderiam ter acontecido aqui (e acontecem), como o caso da mendiga menor de idade que é abusada por um livreiro amigo do filho de Sultan. A outra grande diferença é quanto ao tratamento às mulheres, que é justamente o que mais é retratado no livro.

Nota do Elaphar: 8,5

terça-feira, 17 de maio de 2011

Lançamentos recentes e futuros

A PIANISTA - ELFRIEDE JELINEK
Elfriede Jelinek ganhou em 2004 o Prêmio Nobel e essa premiação gerou uma grande polêmica. Por um lado, muitos críticos e escritores aprovaram a atitude, enquanto outros consideravam que Jelinek não possui talento para essa premiação. Amada e odiada, a escritora escreveu uma série de peças de teatro e livros que foram proibidos ou criticados violentamente. Pela primeira vez o Brasil ganha uma tradução de um livro dessa escritora; o único texto de Jelinek publicado aqui anteriormente foi o conto "Paula" traduzido por Marcelo Backes, que prefacia essa edição. Lançado no final de março pelo selo Tordesilhas e com tradução de Luis Krausz, o leitor brasileiro tem em mãos um romance violento e sublime. É o livro que mais estava aguardando para esse ano.

TUDO O QUE TENHO LEVO COMIGO - HERTA MÜLLER
Outra grande escritora de língua alemã que ganhou o Nobel de Literatura (em 2009), Herta Müller pelo menos tem mais sorte que Jelinek: teve dois livros traduzidos no Brasil (Depressões por Ingrid Ani Assmann e O Compromisso por Lya Luft) além de um conto (A Canção de Marchar por Marcelo Backes), e mais dois livros em Portugal. Pela Companhia das Letras ganhamos esse mês mais uma grande obra (a mais recente) que é Tudo o que Tenho Levo Comigo, que retrata as dificuldades dos teuto-romenos no período pós-nazismo na Alemanha Oriental e Romênia. Esse livro foi traduzido por Carola Saavedra, que também traduziu em 2010 o Tintentod (Morte de Tinta), que é outro livro que estou interessado em ler.

A CONDESSA SANGRENTA - ALEJANDRA PIZARNIK
Lançado junto de A Pianista de Jelinek, A Condessa Sangrenta é um romance psicológico sobre a condessa húngara Báthory. Não sou muito fã da literatura espanófona (exceto Neruda), mas esse título me chamou atenção, apesar de levemente cliché.

CAFÉ CENTRAL - JOÃO DE JESUS PAES LOUREIRO
Paes Loureiro é professor de estética e arte da UFPA. É poeta, ensaísta e crítico literário com nome já consolidado. É um dos mais famosos e traduzidos escritores paraenses da atualidade, com inúmeras traduções para o francês, inglês e alemão. Muitos de seus livros de poesia já foram premiados. Apesar de famoso como poeta e dramaturgo, Café Central é o primeiro romance do escritor o que me dá boas espectativas. Muitos poetas paraenses já me surpreenderam ao escrever ficção e espero que esse livro me surpreenda também. Café Central será lançado no dia 26 deste mês.

BEOWULF - WELWYN WILTON KATZ
Não possuimos em português uma boa edição e tradução do clássico anglo-saxão Beowulf, e na falta deste, a Edições SM lançou a criação Beowulf de Welwyn Wilton Katz com tradução de Marcos Bagno. Ideal para quem quer conhecer um pouco da história.*

SENHORITA CHRISTINA - MIRCEA ELIADE
A editora Alaúde está promentendo com o seu novo selo Tordesilhas. Mircea Eliade foi um grande escritor romeno que é muito pouco conhecido no Brasil. Como adoro conhecer literaturas de outros países (quanto mais difíceis de achar melhor), quando for lançado serei o primeiro a comprar, mesmo não sabendo do que o romance trata.

A CRUZADA DAS CRIANÇAS & VIDAS IMAGINÁRIAS - MARCEL SCHWOB
Um grande lançamento da editora Hedra, esse livro contém duas narrativas do escritor francês Marcel Schwob. São duas estórias bastantes diferentes entre si, mas têm em comum o fato de serem narrativas com muitas vozes, compostas de relatos e diferentes visões, além de ambas passarem-se em um tempo passado. A mesma editora também lançou recentemente O Livro de Monelle do mesmo autor. Como muitos livros da editora, contém um ensaio crítico.

NAS MONTANHAS DA LOUCURA - H. P. LOVECRAFT
Mais um lançamento da Hedra, e do grande clássico popular H.P. Lovecraft. Toda nova edição de Lovecraft é bem vinda, desse ecritor que é tão popular em outras línguas mas geralmente detestado em inglês. Muitos criticam a técnica narrativa de Lovecraft, mas, querendo ou não, ele é um dos principais inspiradores do gênero Horror, seja nos livros, filmes e jogos (principalmente o RPG). Nas Montanhas da Loucura é considerado por muitos a melhor novela do escritor, e essa edição contém várias notas do próprio autor além de uma carta sobre a transição do gênero horror para a Sci-fi. O tradutor já é conhecido (Guilherme da Silva Braga), e traduziu, entre outros, Conrad e Verlaine.


E com esses títulos encerro alguns dos lançamentos recentes que me chamaram atenção.

* 28/05/11 - Ivo Barroso alertou o fato de haver uma ótima tradução em verso desse livro feita por Erick Ramalho, ganhadora do Jabuti, edição essa atualmente esgotada.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Ocidentais - Machado de Assis


Machado de Assis é, indiscutivelmente, um dos maiores nomes da literatura brasileira. Foi também um dos escritores mais completos, escrevendo em praticamente todos os gêneros: conto, romance, crônica, novela, teatro, libretto de ópera, critica literária, poesia, tradução, carta, discurso e textos jornalísticos. Apesar do tamanho da obra do mestre, seus textos são apreciados muito desigualmente hoje em dia; após a tríade Romance, Conto e Crônica, as outras obras de Machado ou não são nem conhecidas ou são consideradas de baixa qualidade em comparação à suas grandes obras (apesar do teatro ser um problema nacional naquela época).

Ocidentais é o último livro de poesias de Machado de Assis (lançado em seu volume de poesia completa) e também sofre o mesmo preconceito (pelas pessoas que ao menos sabem que Machado de Assis escreveu poesia). Apesar disso, algumas pessoas defendem ferrenhamente a habilidade poética superior de machado, como Câmara Jr. (um dos fundadores da linguística brasileira) que afirmava ser um absurdo não reconhecer a habilidade poética de Machado, ou José Veríssimo que afirmava que "Machado de Assis [...] desde o princípio se distinguira pela arte excelente dos seus versos" e que "[os poemas de Crisálidas] pressagiam o poeta perfeito das Ocidentais". Apesar dos esforços de Câmara Jr. e Veríssimo consagrou-se a ideia de que Machado de Assis é um mal poeta, o que o relegou ao abandono. É sobre o Machado poeta que vamos ver agora.

O nome Ocidentais não é por acaso, Machado queria mostrar as várias faces da poesia (canônica) ocidental, ou melhor, "as ocidentais", já que as diferenças entre as épocas e as nações são muitas. Há em Ocidentais quatro traduções bastante representativas e que influenciaram gerações e gerações de poetas e leitores: O Corvo de Poe (via Baudelaire), o solilóquio de Hamlet To be or not to be de Shakespeare, Os Animais Iscados da Peste de La Fontaine e o Canto XXV do Inferno de Dante. Apesar de traduções, esses quatro poemas são machadianos. Como exemplo temos "Eu, caindo de sono e exausto de fadiga, /Ao pé de muita lauda antiga,  / De uma velha doutrina, agora morta," que é uma dicção extremamente machadiana para "while I pondered, weak and weary / Over many a quaint and curious volume of forgotten lore —". A única tradução onde encontro o poeta "original" e não Machado é o famoso solilóquio hamletiano, mas isso se dá mais pela proximidade entre Machado e Shakespeare que pelo apagamento do tradutor.

Além da tradução de grandes ícones da literatura (Dante, Shakespeare, La Fontaine e Poe), há também poemas do próprio Machado para grandes poetas e pensadores. Nesse grupo se enquadram os poemas: Antônio José, Espinosa, Gonçalves Crespo, Alencar, Camões (4 sonetos), 1802-1885 (sobre os grandes inspirações e poetas da literatura) e José de Anchieta. Esse tipo de poesia era (e ainda é) muito comum, embora Machado não a soube manejar. A maior parte dessas poesias são enfadonhas e de baixo valor.

Mas o livro não se resume em textos dedicados e traduzidos. Os outros poemas do livro (difíceis de classificar) são da mais alta qualidade. Há ao menos dois poemas que são bastante famosos: Círculo Vicioso e Soneto de Natal. Apesar de famosos, muitos não sabem que foram escritas por Machado. Para conferir as poesias, vide bônus.

Esses outros poemas são extremamente variáveis de temática, estilo e influência. Alguns são levemente filosóficos (como o "Círculo Vicioso"), outros de temática clássica (como o quase parnasiano "O Desfecho"). Há também influencias romanticas e naturalistas (como "Mundo Interior" e "Uma Criatura") mas sem nunca chegar a tornar-se poema romântico e/ou naturalista ou qualquer outra escola. É terrível o fato de ainda se estudar no ensino médio Machado como romântico (1ª fase) e realista (2ª fase). Machado escreve suas Ocidentais fora do tempo e do espaço geográfico, misturando os estilos e influências. Ocidentais está em Domínio Público e pode ser lido, baixado e distribuído gratuitamente. Para ver o livro online clique aqui.

Nota do Elaphar: 9,5

Edição Lida:
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Ocidentais. Ministério da Educação. Texto-Fonte: Obra Completa, Machado de Assis, vol. III, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. Publicado Originalmente em: Poesias Completas, Rio de Janeiro: Garnier, 1901. <http://machado.mec.gov.br/images/stories/html/poesia/maps05.htm>

BÔNUS
CÍRCULO VICIOSO

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
"Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

"Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

"Mísera! tivesse eu aquela enorme, àquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

"Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"
SONETO DE NATAL

Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno,—
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca.
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
O DESFECHO

Prometeu sacudiu os braços manietados
E súplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.

Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilião,
Uns cingidos de luz, outros ensangüentados...
Súbito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a água em cima os olhos espantados.

Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.

Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;
Acabara o suplício e acabara o homem.
TO BE OR NOT TO BE (SHAKESPEARE)

E mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já lutando
Extenso mar vencer de acerbos males?
Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas,
Que as angústias extingue e à carne a herança
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por ele.
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe?
Ai, eis a dúvida. Ao perpétuo sono,
Quando o lodo mortal despido houvermos,
Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre.
Essa a razão que os lutuosos dias
Alonga do infortúnio. Quem do tempo
Sofrer quisera ultrajes e castigos,
Injúrias da opressão, baldões do orgulho,
Do mal prezado amor choradas mágoas,
Das leis a inércia, dos mandões a afronta,
E o vão desdém que de rasteiras almas
O paciente mérito recebe,
Quem, se na ponta da despida lâmina
Lhe acenara o descanso? Quem ao peso
De uma vida de enfados e misérias
Quereria gemer, se não sentira
Terror de alguma não sabida cousa
Que aguarda o homem para lá da morte,
Esse eterno país misterioso
Donde um viajor sequer há regressado?
Este só pensamento enleia o homem;
Este nos leva a suportar as dores
Já sabidas de nós, em vez de abrirmos
Caminho aos males que o futuro esconde;
E a todos acovarda a consciência.
Assim da reflexão à luz mortiça
A viva cor da decisão desmaia;
E o firme, essencial cometimento,
Que esta idéia abalou, desvia o curso,
Perde-se, até de ação perder o nome.
1802-1885

Um dia, celebrando o gênio e a eterna vida,
Vitor Hugo escreveu numa página forte
Estes nomes que vão galgando a eterna morte,
Isaías, a voz de bronze, alma saída
Da coxa de Davi; Ésquilo que a Orestes
E a Prometeu, que sofre as vinganças celestes
Deu a nota imortal que abala e persuade,
E transmite o terror, como excita a piedade.
Homero, que cantou a cólera potente
De Aquiles, e colheu as lágrimas troianas
Para glória maior da sua amada gente,
E com ele Virgílio e as graças virgilianas;
Juvenal que marcou com ferro em brasa o ombro
Dos tiranos, e o velho e grave florentino,
Que mergulha no abismo, e caminha no assombro,
Baixa humano ao inferno e regressa divino;
Logo após Calderón, e logo após Cervantes;
Voltaire, que mofava, e Rabelais que ria;
E, para coroar esses nomes vibrantes,
Shakespeare, que resume a universal poesia.

E agora que ele aí vai, galgando a eterna morte,
Pega a História da pena e na página forte,
Para continuar a série interrompida,
Escreve o nome dele, e dá-lhe a eterna vida.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Clarissa - Érico Veríssimo

Érico Veríssimo é um caso incomum na história das nossas letras. É um dos escritores brasileiros mais populares (junto com Jorge Amado) e é considerado um dos grandes escritores de nossa literatura, entretanto, com ressalvas. A maioria dos críticos considera tanto Érico quanto Jorge como membros do cânone mas pouco se estuda a obra desses escritores. Érico Veríssimo portanto, acaba pertencendo a um "segundo cânone".

Clarissa é o romance de estreia do escritor e foi publicado em 1933. O romance retrata a sociedade de Porto Alegre da primeira metade do século XX através dos olhos de Clarissa, uma mocinha que para muitos vai parecer encantadora. Clarissa vive na pensão da "tia Eufrasina" onde mora muitos personagens singulares. Apesar da riqueza dos personagens, alguns estão apenas como ornamentação e não têm muita importância na história. Outros entretanto são fundamentais para a composição do grande mosaico social que Érico Versíssimo buscou pintar nesse livro. Sim, pintar, pois as imagens visuais são muito marcantes na obra, diferente das imagens musicais que não conseguiram ser interessantes.

Um personagem (além de Clarissa) possui uma importância superior: Amaro. O livro começa e termina com Amaro, e a narrativa se volta para esse personagem inúmeras vezes. Apesar do próprio autor confessar que não fez um bom trabalho com Amaro, gosto desse personagem.

A linguagem da narrativa é bem saborosa, o que torna fácil a leitura de um único fôlego. A técnica de Érico Veríssimo é um caso a se estudar, pois a forma como o escritor crusa e mistura os discursos é impressionante, e nos dá apenas duas possibilidades: 1ª o escritor tem uma técnica de línguagem apuradíssimo ou 2ª não possui técnica nenhuma. A forma pouco ortodoxa (no sentido linguístico) de guiar a narrativa nos deixa a pensar se é obra de um gênio ou um louco, ou os dois.

De um modo ou de outro, algumas partes do livro nos mostra alguns defeitos de construção na narrativa, como por exemplo o artigo definido antes do nome próprio que as vezes é usado na narrativa em um momento que esse artigo pode ser facilmente confundido com preposição (ex: "diz a Belinha -, sabe quanto gastamos de vela, o mês passado, no armazém" p.178), em alguns casos atrapalha a leitura e faz-nos ter um raciocínio errado. Apesar de um problema ou outro desses, o livro é magnífico.

A produção editorial da Companhia das Letras é muito bom, em papél pólem e uma capa simples mas bonita, mesmo na edição de bolso. Como bônus posto aqui um trechinho que me agradou.
- Seu Amaro, o senhor nunca teve mesmo uma revelação, por pequena que fosse? Nunca lhe aconteceu nada de sobrenatural: um aviso, uma voz em sonho, uma graça qualquer do altíssimo?
Amaro tem nos lábios um sorriso amargo:
- Um dia - diz - entrei numa igreja...
- Protestante? - interrompe Gamaliel, sôfrego.
- Não me lembro... uma igreja...
- Orou, pediu fé a Deus?
- Não...
- Então o que foi fazer lá?
- Fiz como o meu poeta - explica Amaro, mostrando-lhe o livro que tem na mão -, fui a uma igreja porque o seu silêncio e a sua sombra fresca são propícios ao sono e à leitura...
- E então? Veio a revelação?
Amaro sacode a cabeça.
- Não. Veio um cavalheiro que era sacristão ou coisa que o valha... Aproximou-se de mim e disse: "O senhor desculpe, mas aqui não é sala de leitura..."
 Nota do Elaphar: 9,5

Edição Lida:
VERÍSSIMO, Érico. Clarissa. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, 214p.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Papéis - Sultana Levy

Sultana Levy foi uma escritora paraense que morreu nos Estados Unidos. Apesar de viver muitos anos no exterior, nunca abandonou a nacionalidade brasileira. Publicou muito em jornais e revistas literárias do brasil e seus livros são ambientados em seu país natal.

Papéis é um conjunto de crônicas literárias, biográficas, jornalísticas e palestras, se é que podemos chamar alguns de seus textos de crônica, já que alguns são muito grandes e mais parecem ensaios. As temáticas são muito variadas, então vou falar de cada uma individualmente.

O primeiro texto é uma crônica/ensaio biográfico de Antônio José da Silva, "O Judeu", um importante dramaturgo português (não interessa se ele nasceu ou não no Brasil. Era português e pronto!). Sultana conta a história da vida do escritor e acaba relacionando biografia com obra. O mesmo é feito no segundo texto, porem agora fala sobre Goya, biografia e obra.

O terceiro texto fala sobre a amizade de Cézanne e Zola, como um influenciou a obra do outro e o fim dessa amizade. O maior problema dessa crônica é o "aportuguesamento" dos nomes (Paul e Émile para Paulo e Emílio). Em seguida vem um interessante texto sobre Machado de Assis, embora sem profundidade.

Ainda sobre biografias, Sultana escreve sobre dois personagens da Inconfidência Mineira (Tiradentes e Gonzaga) nos dois textos a seguir. Não deve-se levar muito a sério os dois textos, e juntos formam os que menos gostei do livro, tanto por seu valor literário quanto histórico. A outra crônica é uma belíssima crônica literária, seguida de um ensaio artístico muito interessante sobre a questão da fé e da arte.

O 9º texto é a transcrição de uma palestra sobre a imigração judaica no Brasil; palestra também é o 11º, onde Sultana fala sobre grandes mulheres. O 10º e o Último texto também são cronicas literárias muito boas. o 12º fala sobre uma personalidade da guerra do Paraguai que foi retratada em A Retirada da Laguna.

Não posso fazer uma análise muito profunda sobre os textos de Levy por um motivo bem simples: os textos são rasos e sem profundidade. Apesar de haver muitas informações contidas neles, os textos carecem de credibilidade. Apenas 4 ou 5 textos são literariamente belos. Enfim, a escritora não ultiliza todo o seu potencial no gênero crõnica, apesar de escrever bons romances, pelo que pude conferir. Para piorar, a edição é ruim, sem arte de capa e sem nada na contracapa, sem orelhas, péssimo papel e diagramação, além de uma revisão ruim, cheia de erros em letras (c ou é no lugar de e, r no lugar de n entre outros).

Esse livro faz parte do desafio literário no mês de maio. Para conferir a lista do desafio clique aqui.

Nota do Elaphar: 7,9

Edição Lida:
LEVY, Sultana. Papéis. Belém: Grafisa, 1999, 221p.
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