segunda-feira, 9 de maio de 2011

Clarissa - Érico Veríssimo

Érico Veríssimo é um caso incomum na história das nossas letras. É um dos escritores brasileiros mais populares (junto com Jorge Amado) e é considerado um dos grandes escritores de nossa literatura, entretanto, com ressalvas. A maioria dos críticos considera tanto Érico quanto Jorge como membros do cânone mas pouco se estuda a obra desses escritores. Érico Veríssimo portanto, acaba pertencendo a um "segundo cânone".

Clarissa é o romance de estreia do escritor e foi publicado em 1933. O romance retrata a sociedade de Porto Alegre da primeira metade do século XX através dos olhos de Clarissa, uma mocinha que para muitos vai parecer encantadora. Clarissa vive na pensão da "tia Eufrasina" onde mora muitos personagens singulares. Apesar da riqueza dos personagens, alguns estão apenas como ornamentação e não têm muita importância na história. Outros entretanto são fundamentais para a composição do grande mosaico social que Érico Versíssimo buscou pintar nesse livro. Sim, pintar, pois as imagens visuais são muito marcantes na obra, diferente das imagens musicais que não conseguiram ser interessantes.

Um personagem (além de Clarissa) possui uma importância superior: Amaro. O livro começa e termina com Amaro, e a narrativa se volta para esse personagem inúmeras vezes. Apesar do próprio autor confessar que não fez um bom trabalho com Amaro, gosto desse personagem.

A linguagem da narrativa é bem saborosa, o que torna fácil a leitura de um único fôlego. A técnica de Érico Veríssimo é um caso a se estudar, pois a forma como o escritor crusa e mistura os discursos é impressionante, e nos dá apenas duas possibilidades: 1ª o escritor tem uma técnica de línguagem apuradíssimo ou 2ª não possui técnica nenhuma. A forma pouco ortodoxa (no sentido linguístico) de guiar a narrativa nos deixa a pensar se é obra de um gênio ou um louco, ou os dois.

De um modo ou de outro, algumas partes do livro nos mostra alguns defeitos de construção na narrativa, como por exemplo o artigo definido antes do nome próprio que as vezes é usado na narrativa em um momento que esse artigo pode ser facilmente confundido com preposição (ex: "diz a Belinha -, sabe quanto gastamos de vela, o mês passado, no armazém" p.178), em alguns casos atrapalha a leitura e faz-nos ter um raciocínio errado. Apesar de um problema ou outro desses, o livro é magnífico.

A produção editorial da Companhia das Letras é muito bom, em papél pólem e uma capa simples mas bonita, mesmo na edição de bolso. Como bônus posto aqui um trechinho que me agradou.
- Seu Amaro, o senhor nunca teve mesmo uma revelação, por pequena que fosse? Nunca lhe aconteceu nada de sobrenatural: um aviso, uma voz em sonho, uma graça qualquer do altíssimo?
Amaro tem nos lábios um sorriso amargo:
- Um dia - diz - entrei numa igreja...
- Protestante? - interrompe Gamaliel, sôfrego.
- Não me lembro... uma igreja...
- Orou, pediu fé a Deus?
- Não...
- Então o que foi fazer lá?
- Fiz como o meu poeta - explica Amaro, mostrando-lhe o livro que tem na mão -, fui a uma igreja porque o seu silêncio e a sua sombra fresca são propícios ao sono e à leitura...
- E então? Veio a revelação?
Amaro sacode a cabeça.
- Não. Veio um cavalheiro que era sacristão ou coisa que o valha... Aproximou-se de mim e disse: "O senhor desculpe, mas aqui não é sala de leitura..."
 Nota do Elaphar: 9,5

Edição Lida:
VERÍSSIMO, Érico. Clarissa. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, 214p.

Um comentário:

  1. esse resumo foi bem interessante e explicativo

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