domingo, 6 de março de 2011

A Morte em Veneza - Thomas Mann

Demorei para postar essa resenha por apenas um motivo: não queria ser o primeiro do DL a postar... Acho que já falei o suficiente de Thomas Mann no post anterior, então, acho que posso me ater ao livro somente.

Morte em Veneza é considerada uma das obras primas de Mann, e alguns consideram o melhor livro escrito em alemão. É fácil dizer o motivo: o livro é impressionante. Mann descreve as emoções e sentimentos dos personagens de uma forma única. A história do livro, apesar de aparentemente simples, revela-se sublime. Há no livro uma infinidade de detalhes, entretanto, nenhum deles pode ser retirado da narrativa. Tudo na obra é essencial.

O livro conta a história do artista Gustav Aschenbach (ou Von Aschenbach), que decide tirar férias em Veneza, onde encontra um jovem polonês (Tadzio, diminutivo de Tadeus) belo, por quem se apaixona. Ao final do livro (como o próprio nome sugere), Aschenbach encontra sua morte. A Morte em Veneza é, sobretudo, um protesto em favor da beleza, do amor à beleza. Thomas Mann faz em seu livro, assim como muitos escritores de língua alemã (como Rilke, Goethe, Schiller e Hölderlin), um tratado sobre a filosofia da arte, assim como sobre a natureza do belo.

A caracteristica mais marcante do livro é a sinestesia. Os sentidos estão todos jogados no livro, correspondem, brigam, matizam-se. A obra, alem de textual, é extremamente visual, nos permitindo VER o que acontece de forma singular, além de ser uma obra muito musical, nos fazendo OUVIR o que se passa, as vozes, o movimento do mar. Os sabores e os cheiros também são fortíssimos na obra, mas não superam a musicalidade e visualidade.
O sol queimava-lhe o rosto e as mãos, o ar salino fortalecia-lhe o sentimento; e, assim como antes aplicava de imediato numa obra todo o descanso que lhe proporcionava o sono, a alimentação ou a natureza, assim deixou agora tudo o que o sol, a ociosidade e o ar marinho lhe davam em cotidiano fortalecimento consumir-se, magnânimo e desgovernado, em êxtase e sentimento. [...] O maravilhoso acontecimento [o primeiro clarão do dia] enchia de veneração sua alma enlevada pelo sono. Ainda o céu, a terra e o mar estavam envolvidos na fantástica, vítrea palidez da madrugada; ainda pairava uma estrela apagada no espaço. Mas vinha um sopro, uma notícia alada de residências inatingíveis, de que Eros se erguia do lado de seu esposo, e então aparecia aquele primeiro doce enrubrescer da faixa mais distante do céu e do mar, anunciando o sensualizar da criação. (p.139)
Além da sinestesia da obra, A Morte em Veneza é cheia de pequenos detalhes e reflexões que são importantíssimas, que misteriosamente criam um livro complexo e denso, porém, divertido de se ler. É importante notar na obra a relevância que o ambiente (cenário) tem para o sentido do texto. Há também no livro uma incessante busca pela descoberta da auto-identidade do heroi, que é conflitante. Por um lado, o heroi é moral, por outro ele ama o que é belo, que aparece na figura de um garoto polonês (lembre-se que isso é Homossexualidade e Pedofilia, que eram inadmissíveis na decada de 20).

Muito interessante como o desfecho da obra é formulado. A narrativa termina quando Aschenbach e Tadzio estão prestes a se separar. A morte é apenas um prolongamento de um único período (o último do livro): "E, ainda no mesmo dia, um mundo respeitosamente comovido recebeu a notícia de sua morte". A morte surge em A Morte em Veneza como resolução de todos os conflitos internos e obstáculos de sua pequena epopeia, como a salvação para o dilema do amor ao belo e da separação. Lembra-me Aquiles, para o qual a morte significou a imortalidade. Aschenbach morreu amando o belo, sendo um homem moral, e sem separar-se de seu afeto. É o fim de sua descoberta identitária e de tudo o que o afligia.

Por fim, segue uma passagem do livro, profunda em sua simplicidade, que gostei muito e desejo compartilhar.
A felicidade do literato é o pensamento que é todo sentimento; é o sentimento que consegue tornar-se todo pensamento. Um pensamento palpitante como este, um sentimento tão exato, pertencia e obedecia ao solitário, naquela ocasião: isto é, que a natureza estremece de prazer quando o espírito se curva em adoração perante a beleza. Repentinamente desejou escrever. Na verdade, Eros ama a ociosidade, assim dizem, e só é criado para isto. [...] O assunto lhe era familiar, lhe era experiência; seu desejo de deixá-lo acender-se na luz de sua palavra tornou-se irresistível. E, na verdade, seu anseio era trabalhar na presença de Tadzio, e, escrevendo, adotar a figura do menino como modelo, deixar seu estilo seguir as linhas deste corpo que lhe parecia divino, levar sua beleza para o espiritual, como outrora a águia carregara o pastor troiano para o éter. Nunca sentira mais doce o prazer da palavra, nunca soubera que Eros estava assim na palavra, como nas horas perigosas e deliciosas, durante as quais, sentado em frente à rude mesa sobre o toldo, ne presença de seu ídolo e a música de sua voz nos ouvidos, formava uma pequena dissertação, de acordo com a beleza de Tadzio - aquela página e meia de escolhida prosa, cuja integridade, nobreza e ondulante tensão de sentimento dentro em pouco exaltaria a admiração de muitos. Por certo é bom que o mundo só conheça as belas obras sem conhecer suas origens e condições de formação, pois o conhecimento das fontes que serviram de inspiração ao artista muitas vezes o desconcertaria, desalentaria e assim anularia os efeitos do que é excelente. Estranhas horas! Estranha fadiga enervante! Estranha comunicação criadora do espírito com um corpo! Quando Aschenbach guardou seu trabalho e deixou a praia, sentiu-se esgotado, desconcertado mesmo, como se a sua consciência lhe fizesse queixas depois de uma digressão. (p.137)
 Essa resenha faz parte do Desafio Literário. Para conferir a minha lista do desafio clique aqui. Para conferir a lista de Março Clique aqui. Atualmente, Morte em Veneza é publicado pela Nova Fronteira, e é de fácil acesso em livrarias. A edição da Abril só é encontrada em sebos.

Nota do Elaphar: 9,8

Edição Lida:
MANN, Thomas. Tônio Kroeger & A Morte em Veneza. Trad: Maria Deling. São Paulo: Abril Cultural, 1979, 170p

7 comentários:

  1. Báh Elaphar como tuas resenhas são inspiradoras, elas tem uma profundidade e contextualização que enriquecem o texto, eu particularmente sempre fico com vontade de ler os livros que tu resenhas justamente por conta deste olhar apurado sobre as obras. Morte em veneza será lido em breve, tenho ele e nunca dei uma chance, mas depois de teu texto é impossível ficar indiferente.
    estrelinhas coloridas...

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  2. Concordo com a Mi Muller. Você escreve muito bem. E desperta em quem lê sua resenha a curiosidade em conhecer a obra.
    Fica claro o quanto se envolveu com a história.
    Abs, RÊ

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  3. Obrigado Mi Müller e Rê. É bom receber críticas positivas (e logo depois do primeiro feedback negativo do blog), que me dão forças para continuar a escrever.
    Procuro compartilhar minha experiência de leitura de forma bem livre (diferente dos chatíssimos artigos e comunicações que escrevo com frequência). O livro é genial! Recomendo.

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  4. deve ser tão triste essa história.

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  5. Visitar o blog e ler as suas resenhas é, de fato, uma experiência enriquecedora. O livro em questão parece ser um tesouro da narrativa universal. Fui acometida de uma vontade imensa de mergulhar nessa viagem sinestésica. =D

    Bjs

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  6. Eu conhecia o livro mas nao sabia muito bem da historia. Sua resenha foi muito esclarecedora, parabens!!!! Vou anotar na minha lista. Beijos

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  7. Roberta, Vivi e Larissa - Anotem mesmo esse livro. Se eu tivesse que fazer uma lista com os 20 livros que uma pessoa não pode deixar de ler, decerto A Morte em Veneza estaria entre eles (Assim como Laços de Família, Memórias Póstumas, Lolita e outros).

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