sábado, 22 de janeiro de 2011

Vladmir Nabokov – Lolita

Prosseguindo os bônus do mês de Janeiro, apresento-lhes Lolita, que não é Infanto-Juvenil (por isso é um livro bônus, e não titular), mas aborda uma temática muito polêmica para a literatura da época: A sexualidade infantil.

Para quem não conhece, Nabokov é um escritor russo, que abandonou seu país em 1919. Nabokov escrevia principalmente romances e contos, mas também desenvolveu trabalhos de tradução, poesia e biografia. Embora escrevesse geralmente em russo, Lolita foi escrito em língua inglesa.

Acho difícil alguém nunca ter ouvido falar em Lolita, por vários fatores: 1º Existem vários filmes sobre o livro; 2º Popularizaram-se os termos “Lolita” e “ninfeta” na cultura popular, remetendo a questões sexuais; 3º Existe a “versão brasileira” dessa história (Presença de Anita); 4º Lolita é um dos maiores clássicos da literatura universal.

Lolita é um dos livros mais polêmicos da literatura, sendo que, em seu lançamento (primeiro na França e posteriormente nos Estados Unidos) uns o consideravam o melhor livro do ano e outros o definiam como pornografia absurda. Lolita conta a história de Humbert Humbert (mais de 40 anos) e Dolores Haze (13 anos). A narrativa é uma tensa história de obsessão e destruição, escrita com humor, ironia e densidade.
A narrativa começa com um monólogo sobre Lolita “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama” (p.11). O narrador encontra-se na cadeia, e o livro é a história/explicação do crime. Segundo o universo fictício, o personagem-narrador enviou o livro a um editor e morreu pouco tempo depois (embora provavelmente fosse condenado à cadeira elétrica). Após o monólogo de abertura, Humbert prossegue a narrativa explicando alguns pontos de sua vida, como sua infância comum e seu primeiro amor (Annabel), que segundo o narrador, pode ser a causa de seu problema.

Seguem-se a isso, algumas reflexões sobre as menininhas de poder nínfico, que o escritor batiza de “ninfetas” (para quem não sabe, Nabokov cunhou esse termo). Nesse momento percebemos de forma mais  clara como Humbert é um maníaco de tendências pedófilas.
Quero agora expor uma idéia (sic). Entre os limites de idade de nove e catorze anos, virgens há que revelam a certos viajadores enfeitiçados, bastante mais velhos que elas, sua verdadeira natureza – que não é humana, mas nínfica (isto é, diabólica). A essas criaturas singulares proponho dar o nome de ‘ninfetas’. [...] Será que todas as meninas entre esse limite de idade são ninfetas? Claro que não. Se assim fosse, nós que conhecemos o mapa do tesouro, que somos os viajantes solitários, os ninfoleptos, teríamos há (sic) muito enlouquecido. Tampouco a beleza serve como critério; e a vulgaridade, ou pelo menos aquilo que determinados grupos sociais entendem como tal, não é necessariamente incompatível com certas características misteriosas, a graça natural, o charme imponderável, volúvel, insidioso e perturbador que distingue a ninfeta das meninas de sua idade [...] (p.18)
Depois disso, descobrimos mais algumas coisas sobre o senhor Humbert. Ele é um maníaco profissional, tendo freqüentado vários hospícios; faz de tudo para ficar próximo de menininhas; casa-se com uma neurótica (Valéria) e depois se separa. Acontecem algumas outras coisas pequenas, como um relacionamento com uma prostituta francesa (Monique) que provavelmente era menor de idade (embora tenha dito que possuía Dix-huit). Até essa parte, o livro possui um estilo proto-reflexivo e meio galhofeiro. Porém a escrita vai ficando mais tensa a partir do momento em que Humbert conhece a senhorita Haze e sua filha (Dolores, ou Lolita). Humbert se aproxima da menina e a senhorita Haze se apaixona por ele. A obsessão de Humbert é imensa, e ele escreve um minidiário.
Quinta-feira. [...] Durante todo o tempo eu tinha a aguda consciência da proximidade de L. e, enquanto falava e gesticulava na misericordiosa obscuridade, valia-me daqueles gestos invisíveis para tocar sua mão, seu ombro e a pequena bailarina de lã e gaze que ela brincava e que, fazendo piruetas no ar, seguidamente aterrissava no meu colo; por fim, quando já tinha envolvido totalmente minha ardente amiguinha naquela teia de carícias etéreas, atrevi-me a roçar os dedos pela lanugem arrepiada de sua perna nua, e ri de minhas próprias piadas, e tremi, e ocultei meus tremores, e uma ou duas vezes meus lábios velozes puderam sentir o calor de seus cabelos [...] (p.47)
Se você chegou até aqui, provavelmente está com os neurônios explodindo. Muitos pensamentos são incitados pelo narrador, e as descrições são riquíssimas e incômodas em algumas partes, e seus raciocínios sempre são muito racionais.

Muita coisa aconteceu após (e vou tentar acelerar, pois essa resenha já está muito longa e eu ainda estou no início do livro), Haze manda a filha estudar em um colégio interno extremamente longe e manda uma carta de amor para o Sr Humbert, que o deixa frustrado, mas após pensar um pouco (com Lolita na cabeça), decide casar-se. Possui as esperanças de dopar a mãe e a filha e manter relações sexuais com Lolita, e ao recorrer aos dotes de sua mulher, imagina que é Lolita. Um detalhe importante: Haze mãe odeia Haze filha, o que Humbert percebe tardiamente, e a Sra. Haze decide mandar Lolita para mais longe ainda e permanentemente. Algumas passagens do texto durante esse período de casamento são curiosas também, como essa:
A besteira [enquete de uma revista vagabunda] cobria vários anos e a mãezinha devia preencher um tipo de inventário a cada aniversário de seu rebento. No décimo segundo de Lô, no dia 1º de janeiro de 1947, Charlotte Haze, née Becker, havia sublinhado os seguintes dez adjetivos entre os quarenta disponíveis sob a rubrica ‘A personalidade de seu filho’: Agitada, agressiva, argumentadora, desatenta, desconfiada, impaciente, inquisitiva, irritadiça, negativista (sublinhado duas vezes) e teimosa. Havia ignorado os trinta outros adjetivos, dentre os quais constavam alegre, ativa, cooperativa e assim por diante. [...] Com uma brutalidade que, em outras ocasiões, nunca transparecia no temperamento suave de minha amorosa esposa, ela atacava e enxotava os pequenos pertences de Lô [...]. Mal sabia a boa senhora que certa manhã, [...] eu a traí com uma das soquetes de Lolita. (p.83)
Humbert planeja então o assassinato de sua mulher, mas não consegue realizá-lo, pois ainda não é um assassino. Como o destino é uma coisa miserável, a Sra. Haze acha o diário de Humbert e fica horrorizada com o que lê, foge dele e acaba morrendo atropelada. Após o enterro, Humbert corre ao encontro de sua amada, tira-a do colégio sem informar a morte da mãe e ruma para um hospital inexistente, hospedando-se antes em um motel chamado “Caçadores Encantados”, onde pretende dopá-la.

Por azar (de Humbert), o remédio que levara era falso, e acabou não tendo sucesso em dopar Lolita, mas para sua sorte, a própria menina possui a iniciativa, e por questão de travessura resolve “brincar” com Humbert, o que aprendeu no acampamento. Vou omitir aqui alguns detalhes para não ser desagradável. Aí começa a viagem de ambos pelos quatro cantos dos EUA, e acaba a primeira parte do livro.

Na segunda parte, o romance muda completamente de direção, de estilo e de tom. A narração vai ficando cada vez mais melancólica e obsessiva. Muita coisa acontece nessa parte, mas não vou me ater à maior parte dos acontecimentos. Um ponto que pode vir a ser negativo na leitura (não para mim) é o excesso de frases em francês no livro, e essas frases são ainda mais frequentes na segunda parte.

Depois de muito viajar, Humbert decide parar e se estabelecer em um lugar fixo, e escolhe Beardsley. Matricula sua Lô em uma escola local (que possui uma filosofia educacional bizarra (p.180) e uma prática tradicional), e a única pessoa que possui contato regular com ambos é no profº Gaston. Nesse momento a obsessão atinge pontos mais críticos, e Dolores é privada de muitas coisas no ambiente escolar, incluindo a prática teatral, mas depois de uma conversa com a diretora, Humbert acaba permitindo o teatro.
‘[...] por que o senhor se opõe tão fortemente a que ela [Dolores] tenha todos os divertimentos naturais de uma menina normal.’
‘A senhora se refere a diversões sexuais?’, perguntei em tom jovial [...].
‘[...] Sob os auspícios da escola Beardsley, o teatro, as danças e outras atividades naturais não podem ser consideradas, do ponto de vista técnico, como diversões sexuais, embora as meninas se encontrem com meninos, se é a isso que o senhor objeta.’
‘Muito bem [...] A senhora ganhou. Ela pode participar de tal peça. Desde que os papéis masculinos sejam desempenhados por meninas.’ (p.199-200)
Esse fragmento mostra um pouco da obsessão de Humbert. Nesse tempo há uma passagem interessante, que resolvi botar abaixo para dar uma descontraída antes de chegar às partes mais tensas da obra. De qualquer forma, é uma passagem importante (metafórica), embora isolada não pareça.
Como o leitor pode imaginar, naquela altura minhas faculdades se encontravam gravemente comprometidas e, um ou dois lances depois, quando era a vez de Gaston jogar, reparei, através do nevoeiro de minha angústia, que ele podia tomar minha rainha; ele reparou também, mas, pensando que podia se tratar de uma armadilha de seu ardiloso adversário, deteve-se por um bom minuto, bufando e resfolegando, e sacudiu as bochechas, e até me lançou alguns olhares furtivos, e mais uma vez avançou hesitantemente os dedos rechonchudos em forma de penca, recuando em seguida – doido para pegar aquela suculenta rainha e não ousando fazê-lo –, até que  de repente arremeteu contra ela (quem sabe isso não o terá estimulado a cometer outras audácias posteriores?), e tive de gastar uma hora de esforços enfadonhos para conseguir um empate. Ele virou o resto do conhaque e finalmente saiu com aquele seu passo arrastado, muito satisfeito com o resultado (mon pauvre ami, je ne vous ai jamais revu et quoiqu’il y ait bien peu de chance que vous voyiez mon livre, permettez-moi de vous dire que jê vous serre la main bien cordialement, et que toutes mês fillettes vous saluent).
Como já está quase na hora do meu rango, vou acelerar mais um pouco a narrativa (evitando também tirar a graça da leitura). Lolita desiste da peça, e Humbert e Lolita fogem da cidade com medo de serem pegos, mas são perseguidos. Nesse momento, Dolores fica cada vez mais evasiva e estranha, enquanto Humbert cada vez mais neurótico. Lolita foge de Humbert com quem estava seguindo eles. (Acho que acelerei demais, mas já foi)

A narrativa entra em outro patamar: a perseguição. Humbert passa anos buscando Lolita sem a encontrar, e nesse meio tempo casa-se com Rita, uma mulher com o cérebro do tamanho de uma azeitona (segundo o próprio autor: “Comparadas a ela [Rita], Valechka era um Schlegel e Charlotte um Hegel” (p.262)). Rita sabe das intenções de Humbert e aprova-as. O “heroi” pega a arma do primeiro marido da Sra. Haze (pai de Lolita) e espera matar com ela o homem que tirou sua Lolita. Rita é uma personagem hilária e se mete em algumas confusões (como sugerir jogar roleta-russa com uma semi-automática, quase atirando em Humbert). Apesar de sua estupidez, Rita não é só hilária, como também é profunda e melancólica. Teve vários maridos e sempre foi abandonada, e sabe que será por Humbert, o que a deixa triste. Humbert encontra pistas de Lolita, abandonando Rita em seguida, e a encontra.

Humbert conversa com Lolita, e descobre que está casada e vivendo com outro jovem, que não mata porque não era o mesmo que roubou Lolita. Descobre o nome do seqüestrador (Quilty) e tenta, sem sucesso, convencer Dolores a voltar a viver como antigamente. Parte rumo à casa de Quilty, e assassina-o, não sem antes uma cena dramática. O livro termina com algumas reflexões do narrador.

Minha resenha pode ter parecido um pouco grande, mas não chega perto de mostrar os vários acontecimentos e características do livro. A obra em si é muito densa, rica e prazerosa de ler. Lolita não é só um clássico, mas um dos melhores livros que já li, embora tardiamente. Todas as bibliotecas de todas as casas deveriam possuir um exemplar de Lolita, e todas as pessoas deveriam ler esse livro. Essa é uma obra que provoca, incita, causa mal estar, mas da qual não conseguimos parar de ler. É uma pena não poder falar muito da tradução pois, minha preguiça intelectual não me permitiu ler o original inglês, entretanto, Jorio Dauster escreveu esse livro em um português excelente, o que me faz acreditar que é uma excelente tradução. Com louvor, ganha a nota mais alta que já dei nesse blog.

Esse livro é bônus do DL, e foi feito em decorrência do tema de Janeiro. Clique aqui para ver a página de Janeiro.

Nota do Elaphar: 10

Edição Lida:
NABOKOV, Vladmir. Lolita. Trad: Jorio Dauster. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003, 319p. (Biblioteca O GLOBO, Vol.1). © da tradução: Companhia das Letras.

5 comentários:

  1. Obrigado pela visita.

    Curti bastante seus blogs.

    E Lolita efetivamente é nota dez, ainda mais por ter sido escrito sem ser na língua materna do autor. O cara era um gênio.

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  2. Obrigado pela visita.

    De fato, só quem conhece algo de línguas sabe a "quase" impossibilidade de se criar uma obra criativa em uma língua não materna. Os que conseguem essa proeza (como Beckett, Coetzee e Nabokov por exemplo) já merecem uma nota 10 só por isso.

    Além disso, Lolita é um livro Genial.

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  3. Possuo este livro desde o lançamento desta edição e nunca o li, agora com sua resenha vou tirá-lo da estante e lê-lo. Parabéns pelo blog literário, ele é diferente da maioria e isto mostra a sua personalidade e determinação.

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  4. Válido lembrar que a versão brasileira, Presença de Anita, é anterior ao livro do Nabokov. Mas Lolita é Lolita, claro.

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  5. Kauê, Lolita é de 1955, Presença de Anita é de 2001

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