quarta-feira, 8 de junho de 2011

Lição de Botânica - Machado de Assis

Quando escolhi minhas leituras para o Desafio Literário do mês de Junho, pensei primeiramente nas obras que ainda não li dos maiores autores "clássicos": Eurípedes, Shakespeare e Machado. Resolvi não ler Eurípedes por dois motivos: 1º não sei se tenho ainda "ouvido" para a tragédia grega, e 2º minha edição de Eurípedes é uma vergonha, e sua edição não devia nem ser comentada. Então ainda me resta Shakespeare, Machado e outros que me der vontade de ler no caminho.

Machado de Assis é sem sombra de dúvidas o maior nome de nossas letras, e, apesar de ter escrito em praticamente todos os gêneros literários conhecidos (do romance ao libreto de ópera, da crônica à tradução), é basicamente conhecido pela tríade Romance, Conto e Crônica. Se na resenha de Ocidentais tentei mostrar a poesia desse grande escritor, procuro agora mostrar outra parte de sua obra relegada ao esquecimento: o teatro.

Toda grande nação possui um grande escritor do gênero teatral, ou é isso que a história literária nos diz. A grécia possui Sófocles e Eurípedes, a Inglaterra possui seu Shakespeare, a Alemanha seu Hofmannsthal e seu Goethe (além dos libretistas, como Wagner), portugal seu Gil Vicente e seu Camões. Apesar de muitas vezes a arte dramatúrgica ser considerada de segunda importância (até pelos próprios escritores), o teatro é uma das mais magníficas formas da literatura. O Brasil, lastimavelmente, não possui uma tradição teatral histórica. O teatro brasileiro surge muito tardiamente, influenciado fortemente pelo teatro francês. Até mesmo o Shakespeare que era representado em nossa terra no século XIX era um Shakespeare afrancesado (baseado em imitações neoclássicas de Dulcis), e não o Shakespeare elisabetano.

Assim como em outros países, no Brasil grandes escritores escreveram também para teatro (como José de Alencar e Machado de Assis). A obra teatral do grande mestre Machado é julgada geralmente inferior ao restante de sua obra, e não posso dizer que isso não é verdade, mas também não é culpa unicamente do escritor: todos os dramaturgos brasileiros desse período sofriam do mesmo mal, ou a peça era ruim ou não era "encenável".

A obra teatral de Machado de Assis, como afirmou Quintino Bocaiuva, é mais para ser lida do que para ser encenada. Lição de Botânica não foge à essa máxima, apesar de ser, dentre as peças de Machado, a mais "encenável" (embora seria muito mais sem graça do que no papel). Lição de Botânica conta a história de três moças (Dona Leonor (irmã mais velha), Dona Helena (irmã mais moça, viúva) e Dona Cecília (sobrinha)), o Barão Segismundo de Kernoberg (sueco, botânico) e Henrique (sobrinho do Barão, não aparece na peça).

Cecília e Henrique possuem um "rolo" (se é que existia isso na época, mas é o que me parece), e o Barão, amante da ciência, quer que toda a família das moças se afaste, já que casamento não combina com a ciência. O Barão faz o pedido à D. Leonor (o pedido de afastamento), e acaba esquecendo um livro na casa das moças. Cecília fica triste, e Helena têm um plano para o Barão cancelar sua decisão. Ao buscar o livro Helena procura falar sobre seu interesse em botânica, e o Barão, interessado, lhe propõe dar algumas Lições de Botânica. Daí aparece o diálogo central e mais incisivo da narrativa:
D. HELENA - Só uma coisa lhe acho inaceitável.
BARÃO - Que é?
D. HELENA - A teoria de que o amor e a ciência são incompatíveis.
BARÃO - Oh! isso...
D. HELENA - Dá-se o espírito à ciência e o coração ao amor. São territórios diferentes, ainda que limítrofes.
BARÃO - Um acaba por anexar o outro.
D. HELENA - Não creio.
BARÃO - O casamento é uma bela coisa, mas o que faz bem a uns, pode fazer mal a outros. Sabe que Mafoma não permite o uso do vinho aos seus sectários. Que fazem os turcos? Extraem o suco de uma planta, da família das papaveráceas, bebem-no, e ficam alegres. Esse licor, se nós o bebêssemos, matar-nos-ia. O casamento, para nós, é o vinho turco.
D. HELENA (erguendo os ombros) -Comparação não é argumento. Demais, houve e há sábios casados.
BARÃO - Que seriam mais sábios se não fossem casados.
D. HELENA - Não fale assim. A esposa fortifica a alma do sábio. Deve ser um quadro delicioso para o homem que despende as suas horas na investigação da natureza, faze-lo ao lado da mulher que o ampara e anima, testemunha de seus esforços, sócia de suas alegrias, atenta, dedicada, amorosa. Será vaidade de sexo? Pode ser, mas eu creio que o melhor premio do mérito é o sorriso da mulher amada. O aplauso público é mais ruidoso, mas muito menos tocante que a aprovação doméstica.
BARÃO (depois de um instante de hesitação e luta) - Falemos da nossa lição.
D. HELENA - Amanhã, se minha tia consentir. (Levanta-se). Até amanhã, não?
BARÃO - Hoje mesmo, se o ordenar.
 Se você leu esse diálogo até o fim já sabe tudo o que vai acontecer. Helena aparece para a lição, o Barão fica confuso, cancela a lição, vai à casa de D. Leonor pedir a mão de Cecília para seu filho e a de Helena para si próprio. Previsível, chato e cliché. O livro termina com a fala de Helena (de gosto discutível): "Não se admire tanto, titia; tudo isto é botânica aplicada.".

A sensação que tive ao ler o livro: se eu tivesse lido só esse fragmento aí em cima saberia toda a história e não teria perdido nada (ou seja, li o livro inteiro em vão). Esse é o tipo de texto que só se mantém vivo por ser de um grande escritor (nesse caso: Machado de Assis), mas é uma obra que não vale a pena retirar do esquecimento, não acrescenta em nada a obra do grande mestre. Ah, e o livro têm umas duas referências diretas ao teatro francês (Musset) e uma certa semelhança com as primeiras comédias de Shakespeare. De resto, não recomendo nem um pouco, mas se tiveres vontade de ler, o livro é pequeno mesmo.

Esse livro faz parte do Desafio Literário do mês de Junho. Para conferir a lista do desafio clique aqui. O livro é fácil de ser encontrado, costando em qualquer edição da Obra Completa de Machado ou de Obras Teatrais. Também está disponível gratuitamente em uma infinidade de páginas na internet, já que o texto está em Domínio Público.

Nota do Elaphar: 7,8

Edição Lida:
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Lição de Botânica. in: Obra Completa. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Disponível em: http://machado.mec.gov.br/images/stories/html/teatro/matt10.htm .

7 comentários:

  1. Desconhecia as obras teatrais do Machado. Mesmo não ousando muito, Machado escreve como poucos. E a linguagem desse trechinho aí é bem poderosa. Porque não pode ser encenada? Não a vejo pouco representável. Mas como não entendo patavinas de teatro mesmo...posso estar dizendo besteiras.

    Abs

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  2. O maior problema da Obra Teatral do mestre Machado é que em poucos momentos podemos ver passagens com todo o vigor do conciso estilo machadiano (como é o caso do trecho que transcrevi, que além de resumir toda a obra é seu momento máximo). Em geral há falta de vigor na dramaturgia de Machado de Assis.

    Quanto à encenabilidade, Lição de Botânica é justamente a mais "encenável" peça machadiana que eu conheço. A não encenabilidade se aplica mais à outras obras (como Os Deuses de Casaca ou Tu, Só Tu por Amor).

    Além disso, devemos também considerar como o teatro brasileiro funcionava à época (mal), o que redime de certa forma Machado e outros escritores do período (como Alencar). A literatura brasileira evoluiu muito no final do século XIX, mas a dramaturgia demorou mais tempo... não é a toa que o primeiro Shakespeare elisabetano só surgiria no Brasil em 1933 na tradução de Tristão Cunha.

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  3. Elaphar, aprendi mais um pouco sobre Machado de Assis, autor de quem gosto muito, embora dele só tenha lido "Memórias Póstumas de Brás Cubas".
    Estou adorando esse desafio, pq aprendo e descubro acima de tudo! :)
    Parabéns pela resenha e obrigada por nos apresentar Machado escrevendo teatro!
    Abraço!

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  4. Fui a Helena em uma peça de encerramento de ano letivo em 1967 no Colégio São Marcos, que tinha teatro como atividade educativa. A professora se chamava Aída e até hoje guardo essa experiência com muito carinho. Esse colégio ficava na Praça São Salvador, no Rio de Janeiro e hoje não existe mais. A professora gostou tanto do meu desempenho, que quis me levar para o Tablado, mas minha mãe não deixou. Só Deus sabe o que estaria reservado para mim.

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