segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Memórias de Adriano - Marguerite Yourcenar

Vive la France! É por puro acaso que vou resenhar uma série de livros de escritores franceses em uma quantidade curtíssima de tempo (se bem que... Camus é argeliano e Yourcenar é belga...), dois do Desafio Literário e três outros que já tenho a resenha preparada. Os livros são os seguintes: Memórias de Adriano de Margarite Yourcenar, O Estrangeiro de Albert Camus, Resistência de Agnès Humbert, A Mulher Desiludida de Simone de Beauvoir e A Pequena Fadette de George Sand. Juro que não foi de propósito. Não tenho uma preferência especial por franceses. De qualquer forma, vou ter que correr muito para conseguir botar tudo isso ainda em Fevereiro.

Sobre a autora: Marguerite Yourcenar é uma escritora belga que têm uma paixão pelas letras clássicas. Aprendeu latim aos 8 anos e grago aos 12. Foi eleita em 1980 para a Academia Francesa de Letras, sendo a primeira mulher a assumir uma cadeira nessa instituição. O que no final das contas, não faz a menor diferença. Sua obra não será melhor ou pior se for da Academia ou não.

O livro Memórias de Adriano não é, a rigor, um livro de memórias. É literatura, entretanto, embasada biograficamente e em um tom memorialístico. O livro é um relato em primeira pessoa do imperador romano Adriano. Mme Yourcenar apaga-se e escreve a história de adriano sob o ponto de vista do próprio imperador.

Achei, a princípio, extranha a escolha da autora por escrever sobre (e como) um dos imperadores romanos mais desconhecidos. A única coisa que eu sabia sobre Adriano era que ele lutava pela paz, e, paradoxalmente, varreu a Judéia do mapa. Entretanto, após a leitura do livro, consigo compreender a como a escritora foi feliz.

A parte mais interessante da vida do imperador são os pormenores de sua vida pessoal, mais do que grandes acontecimentos (no sentido histórico). Aí podemos perceber como a criação desse livro é uma tarefa de pesquisa e criatividade infinita, pois, trata-se de uma recriação com base em tudo o que é conhecido da época. Ao final do livro aparece bem esclarecido o que é factual do livro (com todas as referências) e o que é criação ou leve alteração do que se conhece, e o porque de estar no livro. Apesar de todo esse rigor técnico e biográfico, o livro não é um tratado histórico da época, e sim um texto belo e rico em narrativas e poeticidade.

Há nesse livro uma série de acontecimentos, desde a infância de Adriano até sua terrível doença. Muito acontece, e há o reinado de Nerva e Trajano antes de seu reinado, e há uma série de conflitos, campanhas, intrigas e costumes da época representados no livro. Alguns episódios chamam muito a atenção, como o da morte de Trajano, do tratado de paz com os Partos e a vida e morte de Antínoo. Mais interessante que qualquer episódio do livro é, por certo, o pensamento de Adriano, quanto aos costumes, pessoas e casos. Isso é o maior charme do livro.

Essa obra monumental é rica, interessante e bela, entretanto, sua maior qualidade é também seu maior defeito. Por ser "monumental" e "vasta", acaba cansando algumas vezes (não muito, devido a beleza e por ser uma narrativa rica), e isso acaba atrapalhando um pouco. A linguagem não chega a ser difícil, mas também não é uma linguagem básica de um Dan Brown, Meyer ou Paulo Coelho; é uma linguagem bem trabalhada e sofisticada. O número extenso de personagens e cenários obriga-nos, algumas vezes, a retroceder no texto ou consultar alguma nota (para quem tem o hábito de ler tomando nota), entretanto, a linguágem do texto nos obriga (com prazer) a voltar no tempo. A tradução de Marthe Calderaro torna esse livro um excelente livro em língua portuguesa; trabalho de uma tradutora apaixonada pelo ofício e pela obra. A produção gráfica da Nova Fronteira não deixa a desejar, o que é uma grande qualidade dessa editora como um todo. A ultima dica é: leia esse livro com calma e criticidade, mas também com paixão.

Essa resenha faz parte do Desafio Literário. Para conferir a minha lista do desafio clique aqui. Para conferir a lista de Fevereiro Clique aqui. É extremamente fácil achar esse livro em qualquer livraria ou sebo, além de estar disponível em duas coleções: 40 livros da Nova Fronteira e Coleção Folha da Folha de São Paulo.

Nota do Elaphar: 9,0

Edição Lida:
YOURCENAR, Marguerite. Memórias de Adriano. 5ª Ed. Trad: Martha Calderaro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, 334p. (Coleção Grandes Romances)

4 comentários:

  1. A julgar pela sua apreciação, me parece uma grande obra. Principalmente quando envolve histórias que, de alguma maneira, têm conexão com episódios bíblicos. São temas que me interessam bastante. Ótima escolha!

    Beijos

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  2. Que resenha mais apaixonada, muito bom ler um texto no qual saltam aos olhos a paixão que o livro despertou no leitor. Não conhecia este livro, nem a autora e foi muito bom ter este primeiro contato com eles através de teus olhos, parabéns!
    estrelinhas coloridas...

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  3. vc poderia fazer uma resenha do livro de madame yourcenar A OBRA EM NEGRO? sou fascinada pelos livros dessa autora, meio por amar historia antiga e meio que no livro a obra em negro as unicas coisas que diferem dos nossos dias atuais são o lugar e o seculo, por que todo o preconceito e toda mixordia humana, e os homens declarando deter o poder do proprio deus em suas mãos levando milhoes de basbaques a manter essa industria patetica e torpe das religioes, ainda em nosso seculo pagamos indulgencias que o senhor lutero um dia condenou...
    queria um comentario seu
    meu email: fazendosocial@hotmail.com
    patricia

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