terça-feira, 19 de outubro de 2010

Luís Fernando Veríssimo - Clube dos Anjos

"Si recte calculum ponas, ubique naufragium est" - Petronius
Conheço Luís Fernando Veríssimo de longa data, e admiro muito seu trabalho como cronista, até citei um livro seu aqui e disse que ele é o melhor cronista de humor brasileiro. O que eu até um tempo não sabia era de sua qualidade como romancista.

O livro "O Clube dos Anjos" da coleção "Plenos Pecados" (coleção que pertencem os livros: "A Casa dos Budas Ditosos" e "O Voo da Rainha"), é um tributo à gula, o pecado mais pleno de todos, pois a visão acaba, o sexo acaba, mas a fome sempre continua (palavra de Ramos).

A narrativa começa falando sobre Lucídio, um personagem chave da narrativa, que é descrito como assassino, e o crime como real e não fictício. Há uma interessante teoria sobre os crimes reais e fictícios aí, que apesar de teoria é divertida (característica de Veríssimo). Começa-se a descrição do crime, e após isso a descrição do clube (as vítimas). Os personagens nesse livro são todos muito esquisitos e caricaturados. Os membros do Clube dos Anjos são todos "outsiders" de sua sociedade. A personalidade de cada um é hilária e a forma que se comportam é bizarra (é impressão minha ou eu tenho usado muito essa palavra no blog ultimamente?). De todos os personagens do livro, o que eu mais gosto é o Samuel, o que mais detesta todos e o que mais os ama, o que morre por último mas o que já estava morto desde o início, o mais erudito e mais ignorante. Samuel é um paradoxo.

Outros personagens do Clube são André, Pedro, Paulo, Ramos (a narrativa já começa com esse personagem morto, mas recapitula sua participação no grupo, já que é um personagem chave), o narrador Daniel e outros. É interessante a metafísica e os assuntos sérios presentes no livro ao mesmo tempo do humor. A erudição está acompanhado do popular, desde citações em latim e comidas francesas (como o Canard à l'orange), até o picadinho com ovo e ofensas baratas.

É interessante a presença da fome e do prazer na comida, sendo que todos a comem, mesmo sabendo que estava envenenada e quem iria morrer em cada cerimônia (tá legal, o primeiro não sabia, mas não se aplica aos outros), mas nenhum resiste ao pecado da Gula, e todos vão sucumbindo um a um, exceto o narrador (até o momento da narrativa), que está escrevendo a história bêbado de vinho em uma máquina. É interessante a reflexão quanto à morte certa e entregar-se ao veneno, e é muito interessante a vida decadente de cada um, que explica (em parte) o motivo dessa eutanásia orgiástica.

O final da obra é engraçada e ao mesmo tempo interessante. Nos deixa pensar o que acontecerá com Daniel, Lucídio e o possível negócio? (é melhor eu não falar mais nada, risco de SPOILER).

O que é mais importante desse livro é que junta a diversão com o conhecimento, e mesmo com os repentes de erudição dos personagens, tudo é explicado (desde as frases em latim quanto as citações) no próprio texto, sem ter de consultar as terríveis notas de rodapé. Entretanto, há alguns pontos fracos e desnecessários no livro, o que afasta ele um pouco do excelente, mas não quero citá-los pois há muita coisa boa nesse livro que ofusca seus defeitos. É um livro que recomendo, que lhe obrigará a pensar e refletir... e você adorará isso.

Ah, já ia esquecendo! Se quiser saber o que significa aquela frase lá em cima (abaixo da capa do livro), compre o livro, ele explica (como se não existisse o google).

Nota do Elaphar: 8,7

Edição Lida:
VERÍSSIMO, Luís Fernando. O Clube dos Anjos. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998, 130p. (Coleção Plenos Pecados)

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