Mais uma leitura para o Desafio Literário de 2012, e o tema desse mês é Escritor Oriental. ... Alguns devem estar se perguntando porque diabos escolhi uma antologia de contos húngaros como literatura Oriental se, como todos devem saber, a Hungria fica no centro da Europa,. ao lado da Áustria e outros países como a Romênia e Ucrânia. Lógico que não perguntei para a equipe do DL a validade de minha escolha (descaso esse que me faz pensar que um dia ainda vou ser expulso do desafio...), e agora vou explicá-la.
Questões como orientalidade vs ocidentalidade são muito defíceis de por um ponto final. Na resenha passada mostrei um desses problemas, mais próprio da poesia, que é a multiplicidade de vozes resultante de um processo tradutório. Outros problemas podem aparecer, no caso de um artista nascer em um lugar mas ser artisticamente de outro (como o caso do húngaro Lizst, que nem ao menos sabia falar a língua de seu país, ou no caso da nossa Clarice Lispector, ou no caso do poeta português Carlos de Oliveira, nascido em Belém), ou ainda mais grave é do autor possuir a influência de dois lugares distintos (como Nabokov, Beckett, ou Eliot) ou até mesmo pertencer ora a um lugar, oura a outro (como o Vieira português e o Vieira brasileiro, ou o Stephan Zweig austríaco e o Zweig brasileiro, ou o Rilke alemão e o Rilke francês... etc...). O que tenho percebudo nas resenhas desse desafio é uma série de escritores nascidos em países do extremo oriente (principalmente Japão), mas que pertenceram de fato (socielmente, espiritualmente, linguísticamente e, por quê não, literariamente) a outro país, geralmente de lingua inglesa. Nacionalidade envolve muito mais que lugar de nascimento, não fosse assim não teríamos escritores alemães e austríacos nascidos em Praga ou na Romênia ou escritores brasileiros nascidos na Ucrânia.
Agora, o que tem a Hungria de oriental? Tudo e nada! Para que a escolha possa ser compreendida, deve-se tomar algumas lições de história, genética e linguísticas, e como estou meio sem tempo, vou resumir ao máximo. Todos devem conhecer as histórias dos Hunos, que foram um povo oriental (da região que corresponde a China e Mongólia) que fez o maior estrago no ocidente na Era Romana. Os magiares vieram junto com os hunos, e se estabeleceram no lugar (alguns Húngaros acreditam que os magiares são descendentes dos próprios hunos). Portanto, o povo magiar é um povo geneticamente oriental, e a língua húngara, apesar do alfabeto latino, é, como se é de esperar, também uma língua oriental, da família de línguas uralicas. Se considerarmos a teoria linguística das línguas uralo-altaicas, o húngaro é do mesmo tronco das línguas turca, japonesa, coreana e das diferentes línguas da mongólia (daí o fato de que em húnguaro o sobrenome é dito antes do prenome, no caso do tradutor seria Rónai Pál ['honai 'pa:l], abrasileirado para Paulo Rónai). Portanto, os Húngaros são etnicamente e linguísticamente provenientes da Asia, porém deslocados ao centro europeu onde possuem um sério conflito identitário entre oriente e ocidente. Por um lado tentam preservar a sua cultura, por outro a aspiração ocidental. Conhecer a cultura, a história e a literatura da Hungria é conhecer o cerne do problema Ocidente/Oriente.
E convenhamos, a história da Hungria é uma das mais poéticas do mundo: povo oriental vivendo em meio a uma cultura estranha, cristanizada à força, esmagada politicamente pela Áustria, posteriormente pela Alemanha e supostamente libertada pela URSS, o que fez uma série de chagas nesse povo. Diga-se de passagem, alguns dos melhores contos desse livro relatam direta ou indiretamente o conflito identitário entre ocidente e oriente, ou os conflitos políticos e incoerência social.
O número de contos nesse livro é bem grande (30), tanto quanto as variedades de temática e estilo, o que torna muito difícil falar sobre todos eles. Ainda assim vou tentar ao menos escrever uma linha sobre cada conto. Os autores estão em ordem cronológica de nascimento, e é curioso que os últimos escritores morreram praticamente todos no mesmo período (1944-1945), no final da ocupação nazista.
O primeiro escritor é um representante do romantismo literário, e seu conto (Divertimento Forçado) é interessante por mostrar a pretenção da nobreza húngara ao ocidentalismo, já que o barão (personagem principal) mistura locuções francesas e abusa de galicismos no seu discuraso, e apesar disso, acaba entrando em contato com um ambiênte completamente húngaro, diferentemente do ambiente nobre que era mais propriamente parisiense ou vienense. Provavelmente o autor não tinha em mente esse conflito ocidente/oriente como ponto importante da sua obra, diferente de Ady Endre, que é bem posterior, que em seu conto intitulado Chabachef, O assassino relata um homem que é dois, um Ocidental parisiense e um Oriental tradicional, sendo que um desses homens faz coisas que o outro jamais sonharia; é uma narrativa que todos deveriam ler.
Os dois contos de Mikszáth Kálmán são de ordem cômica e irônica, mas demonstram um grande conhecimento do interior dos seres humanos. O primeiro conto é uma resposta à teoria literária (não sei por que quase todo escritor odeia os críticos literários), enquanto o segundo é uma divertida história tragicômica de um médico tentando convencer um paciente a amputar seu braço para sobreviver; pode parecer frívolo, mas a narrativa é muito divertida, profunda e bem construída. Gárdonyi Géza aparece na antologia com dois contos bastante diferentes, um mais mítico-alegórico, o outrocom uma carga de significado maior, e ambos bem diferentes, aparentemente, do que seria o estilo normal do escritor em seus romances históricos O Homem Invisível e Estrelas de Eger. Szomory Desö é talvez o mais ocidental da coletânea, mas não o único, e é um tanto tagarela; seu conto definitivamente não me cativou.
Heltai Jenö é um escritor alegre e também um tanto sombrio, que viveu muitos anos. Apesar dos dois contos dele serem bons (particularmente o A Morte e o Médico), não chega a ser um escritor genial, além de sua personalidade ser fraca; é muito francês, e infelismente, inferior à muitos franceses também. Ady Endre é dos maiores escritores húngaros, e seu conto, como já foi dito, merece grande destaque por retratar com genialidade o conflito oriente/ocidente dentro da sociedade húngara. Krudy Gyula é uma grata surpresa nesse livro, seu conto Uma das Histórias do Soldado Raso Harras Rudolf é incrível, e um anacronismo moderno que deveria colocar esse entre as pérolas da contística mundial; é talvez o melhor conto da coletânea.
Os dois escritores que se seguem (Molnár Ferenc e Móricz Zsigmond) mostram mais profundamente o homem húngaro, particularmente o despossuído. Zsigmond é o melhor dos dois, e seus 3 contos são obras primas, de um naturalismo moderado e bem estruturado. Bárbaros figura entre os melhores contos do livro. Podemos compreender muito da cultura do país por estes contos, e essa cultura nos parece muito antiquada, ao nosso olhar ocidental, o que mostra um grande atraso da chegada do mundo "capitalista ocidental" em algumas regiões da hungria, que mais parecem feudos medievais, ao mesmo tempo que as grandes cidades parecem uma nova Viena.
Bíró Lajos é um escritor original e interessante, mas seu conto fica meio apagado em relação a outros do livro. Kaffka Margit é a única mulher do livro, e ainda por cima descendente de tchecos. Seu conto fala da pobresa melancólica, sem perspectivas, enquanto o humorista Kosztolányi Desö já é bem mais otimista, apesar de sarcástico e irônico, e aparece com cinco contos na antologia, todos eles aparentemente sem um foco na narrativa, mas na em uma ideia ou concelho, quase uma coda em seus contos. Destaque para Auréola Cinzenta e Aventura Búlgara.
Szép Ernö é dito como intraduzível, e o próprio tradutor diz que escolheu um conto que não é dos melhores de sua produção em respeito à "impossibilidade" de verter outros. Apesar de tudo, seu conto Murglics mostra-se de qualidade.
Karinthy Friges é escritor alegre, outro humorista, e até satirista, e seus três contos se mostram muito agradáveis de se ler. Molnár Ákos tem como biografia uma das histórias mais comoventes do livro, mas seu conto é um tanto alegre (apesar de que não deveriamos rir) e, junto de Pap Károly (também morto no ódio nazista) escrevem dois dos contos mais bem realizados do livro (Um Almoço e Música, respectivamente). Mais do que a qualidade literária, a temática dos interesses e opressão, além de exploração em diferentes esferas, são os temas dos dois contos, sendo o primeiro uma narrativa do chefe em relação aos empregados, que devido uma incompreensão é quase anedótico, e o segundo mostra a exploração familiar, que faz um pai querer, sem sucesso, vender o filho por álcool. Os dois contos através do riso da situação mostram graves incoerências e atrocidades da sociedade. Ambos figuram entre os melhores contos. Mesmo valor social possui o conto de Gelléri Andor Endre, que poderia muito bem ser escrito no Brasil sem problemas.
Os dois contistas e contos que faltam (O Criminoso de Márai Sándor e Madelon, a cachorra de Szerb Antal) são de grande valor literário, mesmo sem ser propriamente sociais ou propriamente "húngaros" (no sentido nacionalista). O criminoso recebe destaque devido ao trabalho metalinguístico e bom aproveitamento dos clichés da literatura policial, e como paródia do gênero é a mais bem realizada que conheço.
Por fim, o que posso dizer sobre a edição? 3 dos maiores nomes das letras nacionais assinam esse livro: Paulo Ronai (organização, estudo, tradução e notas), Guimarães Rosa (introdução) e Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira (revisão); ou seja, não se pode reclamar de nada. É um trabalho feito com amor, e a capa, apesar de simples, exemplifica muito bem a "alma" do livro. Os problemas do livro são só os que são comuns à toda antologia e à todo livro de uma língua muito diferente da nossa: a diferença da qualidade dos textos, a apresentação do escritor por "amostragem", na maioria das vezes imprecisa, a vontade de querer ler mais do mesmo autor e saber que não possui nada ou dele publicado (dos escritores aqui presentes só sei do livro Os Meninos da Rua Paulo de Molnár e O Homem Invisível de Gárdonyi publicados no Brasil), e, por fim, a dificuldade de pronunciar, e por conseguinte memorizar, a maioria dos nomes próprios.
Recomendadíssimo, apesar de difícil de achar, é um livro indispensável para se ter em casa.
Nota do Elaphar: 9,8
Edição Lida: RÓNAI, Paulo (org). Antologia do Conto Húngaro. tradução e notas de Paulo Ronái. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1958.
Blog criado para divulgação e resenha de livros, tanto clássicos quanto contemporâneos, tanto de literatura vernácula quanto de literatura estrangeira, tanto de literatura canônica quanto de literaturas não canônicas.
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domingo, 8 de abril de 2012
terça-feira, 3 de abril de 2012
Diário de Prisão - Ho Chi Minh
O tema do Desafio Literário do mês de Abril é Escritores Orientais. Oa que parece, os escritores orientais seriam, ao ver da equipe do DL apenas os escritores do Extremo Oriente e Sul da Asia. No momento vou usar um autor menos polêmico, que é Ho Chi Minh, do Vietnã, e um livro escrito em chinês. Existe alguns problemas gerais para se definir a "orientalidade" de certos escritores, entre eles a língua e a cultura, mas isso é ainda mais problemático. Apesar da equipe do DL restringir claramente os textos de povos do Oriente Médio, vou recusar a seguir essa exclusão devido critérios que falarei mais adiante. No entanto, o momento agora é de falar desse vietnamita que escreveu em chinês.
A própria história da gênese desse livro é interessantíssima. Ho Chi Minh era um revolucionário do Vietnã e um dos maiores comunistas de seu tempo, e foi preso na China durante um tempo por querer falar com o Mandarin. Durante sua estada na prisão escreveu em Chinês, já que se escrevesse em sua língua chamaria atenção dos guardas, um diário contando o que via e o que passava na prisão. O interessante desse diário é que é escrito em versos, num tradicional verso chinês, que perdeu, lastimavelmente, toda a sua forma e graça na tradução. A tradução é, além de fraca, de segunda mão, ou seja, traduzido do inglês, provavelmente de uma tradução tão fraca quanto.
Os versos são de vários tipos: alguns são confessionais, outros filosóficos, outros líricos e paisagísticos, outros pequenos quadros do quotidiano da prisão. Mas todos mostram uma vida desumana e monstruosa privada da liberdade, além do temperamento do poeta, que é calmo e de mente equilibrada. Um desses poemas tem muito destaque (Jogo de Palavras), pelo trabalho com a própria linguagem e ideologia que é feito, que foi perdido totalmente na tradução, e o que resta é apenas uma explicação do poema.
Esse é um livro que me faz ter vontade de aprender Chinês para poder lê-lo e quem sabe traduzí-lo. A tradução não é boa, mas o livro sim, apesar de perder sua poeticidade, ainda mantém parte de sua substância, a descritiva e ideológica. Pouco se pode falar sobre esses versos. O que me resta é mostrar algumas poesias desse livro.
Edição Lida: Diário de Prisão de Ho Chi Minh. Introdução de Harrisson E. Salisbury. Prefácio de Phan Nhuan. Rio de Janeiro: Difel, s/d.
A própria história da gênese desse livro é interessantíssima. Ho Chi Minh era um revolucionário do Vietnã e um dos maiores comunistas de seu tempo, e foi preso na China durante um tempo por querer falar com o Mandarin. Durante sua estada na prisão escreveu em Chinês, já que se escrevesse em sua língua chamaria atenção dos guardas, um diário contando o que via e o que passava na prisão. O interessante desse diário é que é escrito em versos, num tradicional verso chinês, que perdeu, lastimavelmente, toda a sua forma e graça na tradução. A tradução é, além de fraca, de segunda mão, ou seja, traduzido do inglês, provavelmente de uma tradução tão fraca quanto.
Os versos são de vários tipos: alguns são confessionais, outros filosóficos, outros líricos e paisagísticos, outros pequenos quadros do quotidiano da prisão. Mas todos mostram uma vida desumana e monstruosa privada da liberdade, além do temperamento do poeta, que é calmo e de mente equilibrada. Um desses poemas tem muito destaque (Jogo de Palavras), pelo trabalho com a própria linguagem e ideologia que é feito, que foi perdido totalmente na tradução, e o que resta é apenas uma explicação do poema.
Esse é um livro que me faz ter vontade de aprender Chinês para poder lê-lo e quem sabe traduzí-lo. A tradução não é boa, mas o livro sim, apesar de perder sua poeticidade, ainda mantém parte de sua substância, a descritiva e ideológica. Pouco se pode falar sobre esses versos. O que me resta é mostrar algumas poesias desse livro.
A RAÇÃO DE ÁGUA
Cada um de nós tem como ração meio jarro de água
Para o banho ou para ferver o chá, conforme o gosto:
Se você quer lavar o rosto, não terá como preparar o chá:
Se quer tomar seu chá não poderá lavar o rosto.
JOGO
Lá fora, as pessoas que jogam são presas,
Mas uma vez na prisão, podem jogar o quanto quiseres;
Assim, é claro, os presos sempre lamentam:
"Por que não pensei antes em vir para cá?"
MORTE DE UM HOMEM PRESO COMO JOGADOR
Nada mais restou dele senão ´pele e osso.
Miséria, frio e fome foram seu fim.
Na última noite ele dormiu perto de mim,
E hoje de m,anhã partiu para o país das Nove Primaveras.
NOITES INSONESNota do Elaphar: 8,2
Através de infindas noites, quando o sono se recusa a vir,
Escrevo mais de cem poemas sobre a vida na prisão.
Ao final de cada quadra, deixo de lado meu pincel,
E através das grades olho para o alto, para o céu livre.
Edição Lida: Diário de Prisão de Ho Chi Minh. Introdução de Harrisson E. Salisbury. Prefácio de Phan Nhuan. Rio de Janeiro: Difel, s/d.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Assassinatos na Academia Brasileira de Letras - Jô Soares
Jô Soares é um humorista respeitadíssimo, além de escritor famoso. Independente da qualidade de seus livros, eles vendem muito.
Essa narrativa conta de forma bem humorada, algumas vezes não tão bem assim, um caso improvável de um serial killer que mata acadêmicos da ABL com um veneno letal, ao passo que o primeiro acadêmico morto, Belizário Bezerra, escreve um livro justamente contando a história de um assassino de acadêmicos, intitulado Assassinatos na Academia Btasileira de Letras. Percebe-se de cara a metalinguagem, que será muito presente no decorrer da obra.
Além da já dita metalinguagem, outro recurso que é muito usado pelo autor é o de citação. O nome do detetive é Machado Machado (em homenagem a Machado de Assis no prenome e o sobrenome Machado), além desse detetive ter a mania de citar Machado (o de Assis). Outras intertextualidades também surgem na narrativa.
Porém há uma série de problemas no livro. O primeiro é a falta de graça na maior parte do livro, que na maioria das vezes só é engraçado na coda de alguns capítulos. Outro é que a característica geralmente mais elogiada do livro, a pesquisa histórica, é falha e fantasiosa, numa mistura incongruente de realidade, não-realidade, ficção e erro. Essa "pesquisa histórica" deveria também ser acompanhada de uma pesquisa filológica. Sério, na maioria das resenhas que vejo sobre esse livro o único elogio que as pessoas costumam fazer é sobre as páginas do jornal "O Paiz" que aparecem com uma suposta "grafia original" da época, que não passa de uma linguagem moderna com algumas marcas arcaizantes. Algumas palavras no jornal aparecem com grafia atualizada e fora da grafia da época, o que é uma pena. Não sei se corrigiram em edições subsequentes.
A história do serial killer começa a tomar folego com os últimos assassinatos (depois da metade do livro), e o autor passa a maior parte do tempo em rodeios e investigações infrutíferas. Os personagens são todos previsíveis, e incrivelmente quase todos possuem sérios disturbios sociais ou mentais. E para variar o detetive Machado Machado pega todas as mulheres do livro, ou pelo menos as mulheres bonitas.
Quando comecei a ler o livro estava doido para dar uma spoilada aqui (faz tempos que não faço isso), mas o livro, apesar de algum humor - como na passagem onde Machado Machado até pensa em parar de fumar, e o motivo, ou quando o carro fica sem gasolina - não me deu a menor vontade de estragar a vontade de vocês lerem o livro, que pode até ser nula. Não me entendam mal, o livro é até legível, mas não é bom. Dá para ler sem morrer de tédio, devido a algumas passagens de humor bem ou mal colocadas, mas no final a sensação que dá é que foram algumas horas perdidas. Por fim o livro é curto, páginas grossas para parecer volumoso e um bom papel para a leitura.
Esse livro foi lido para o desafio literário 2012.
Essa narrativa conta de forma bem humorada, algumas vezes não tão bem assim, um caso improvável de um serial killer que mata acadêmicos da ABL com um veneno letal, ao passo que o primeiro acadêmico morto, Belizário Bezerra, escreve um livro justamente contando a história de um assassino de acadêmicos, intitulado Assassinatos na Academia Btasileira de Letras. Percebe-se de cara a metalinguagem, que será muito presente no decorrer da obra.
Além da já dita metalinguagem, outro recurso que é muito usado pelo autor é o de citação. O nome do detetive é Machado Machado (em homenagem a Machado de Assis no prenome e o sobrenome Machado), além desse detetive ter a mania de citar Machado (o de Assis). Outras intertextualidades também surgem na narrativa.
Porém há uma série de problemas no livro. O primeiro é a falta de graça na maior parte do livro, que na maioria das vezes só é engraçado na coda de alguns capítulos. Outro é que a característica geralmente mais elogiada do livro, a pesquisa histórica, é falha e fantasiosa, numa mistura incongruente de realidade, não-realidade, ficção e erro. Essa "pesquisa histórica" deveria também ser acompanhada de uma pesquisa filológica. Sério, na maioria das resenhas que vejo sobre esse livro o único elogio que as pessoas costumam fazer é sobre as páginas do jornal "O Paiz" que aparecem com uma suposta "grafia original" da época, que não passa de uma linguagem moderna com algumas marcas arcaizantes. Algumas palavras no jornal aparecem com grafia atualizada e fora da grafia da época, o que é uma pena. Não sei se corrigiram em edições subsequentes.
A história do serial killer começa a tomar folego com os últimos assassinatos (depois da metade do livro), e o autor passa a maior parte do tempo em rodeios e investigações infrutíferas. Os personagens são todos previsíveis, e incrivelmente quase todos possuem sérios disturbios sociais ou mentais. E para variar o detetive Machado Machado pega todas as mulheres do livro, ou pelo menos as mulheres bonitas.
Quando comecei a ler o livro estava doido para dar uma spoilada aqui (faz tempos que não faço isso), mas o livro, apesar de algum humor - como na passagem onde Machado Machado até pensa em parar de fumar, e o motivo, ou quando o carro fica sem gasolina - não me deu a menor vontade de estragar a vontade de vocês lerem o livro, que pode até ser nula. Não me entendam mal, o livro é até legível, mas não é bom. Dá para ler sem morrer de tédio, devido a algumas passagens de humor bem ou mal colocadas, mas no final a sensação que dá é que foram algumas horas perdidas. Por fim o livro é curto, páginas grossas para parecer volumoso e um bom papel para a leitura.
Esse livro foi lido para o desafio literário 2012.
terça-feira, 20 de março de 2012
Les Mains D'Orlac (Première Partie) - Maurice Renard
Não consigo compreender como condenaram, no Brasil, a obra de Maurice Renard ao esquecimento. Não há um único livro desse autor publicado no Brasil, e além da obra dele estar em domínio público é uma obra que povoa o pensamento popular, mesmo que indiretamente. Não há razão, já que se for considerar a obra desse escritor como medíocre e/ou sem grande público consumidor, o mesmo poderia ser dito de Maurice Leblanc, que enche as prateleiras de nossas livrarias.
Maurice Renard foi um escritor de histórias fantásticas e de ficção científica do final do século passado e início do presente. Podem não conhecer seu nome, mas suas criações são, direta ou indiretamente, repetidas na cultura popular, como máquinas de encolher ou transplante de mãos, que é o caso da presente narrativa. Les Mains D'Orlac é a história de um pianista que sofre um acidente ferroviário tem as mãos destroçadas, e após passar por um transplante de mãos coisas estranhas acontecem, já que mão era de um assassino. Todos conhecem alguma citação à essa história, mesmo que seja o célebre episódio do Chapolin colorado quando transplantam a mão de uma bailarina. Esse livro possui ao menos 4 adaptações cinematográficas, e já assisti o filme alemão.
Existe uma grande dificuldade para ler esse livro: o francês, dado a inexistência de versão brasileira. Para um estudante indisciplinado e autodidata da língua, é muito difícil ler um texto completo, apesar dos conhecimentos no idioma. O excesso abusivo da palavra "Mains" é um tanto irritante, e confunde um pouco a leitura.
Li só o primeiro lvro, contendo a história do acidente e da cirurgia, mas não conta a história dos acrimes e do desfecho. Acho que não vou ler ainda a segunda parte, então fica para a próxima.
A história e narrada por um jornalista investigativo, que deseja fazer um livro-reportagem sobre o acontecido, o que dá um quê de verossimilhança na narrativa. Não sei se é pelo meu desconhecimento no francês, mas acho que o narrador possui um interesse demasiado na esposa do personagem título. De qualquer modo, a história começa com um mal pressentimento de Rosine Orlac, e posteriormente com o acidente do marido.
Próximo da morte, Stéphen Orlac é levado para Cerval, o melhor cirurgião da frança, e é por intermédio desse cirurgião que Orlac é salvo e, posteriormente, faz o macabro transplante de mãos. Há outros personagens na narrativa, como o pai de Stéphen, que não vai ver o filho por preferir a sua reunião espírita.
A perte mais legal do livro, ou pelo menos a que mais gostei, foi quando chegam os seguradores do marido e Rosine percebe a importância das mãos para a vida de Stéphen, e fica atordoada e vai falar a Cerval:
Aí se pergunta, o que acontecerá? Cadê os homicídios em Série?– C’est moi, maître : Mme Orlac. J’ai oublié de vous dire… Les mains… Mon mari… C’est Stéphen Orlac, le pianiste. Alors, les mains, docteur, sauvez-les ! Il faut les sauver à tout prix, vous comprenez !… Comment va-t-il ?On répond très posément :– M. Orlac, petite madame, ne va ni mieux ni plus mal. Il a bien supporté la première intervention. Toujours sans connaissance. Ce qui domine notre affaire, c’est que le blessé puisse affronter l’opération de demain. Pour le moment, il est, si j’ose dire, imprégné de sérums. C’est une fleur coupée dans un vase plein d’eau. Une fleur qu’il s’agit de replanter. Nous en sommes là. La contusion au cerveau, voilà le hic. Le reste est secondaire, y compris les mains. Je ne puis vous assurer que d’une chose, c’est que tout sera fait de ce qui est faisable, et que j’emploierai tout mon pouvoir à sauver l’artiste avec l’homme.
Isso só no segundo livro, que vai narrar os acontecimentos pós cirurgia, as mudanças e pesadelos em Orlac e os crimes que seguem a mão misteriosa. Não sei se por influênciaa do filme, mas acho que Orlac não se torna assassino, e sim outra pessoa aproveita os acontecimentos para cometer uma série de assassinatos e culpar as mãos. É uma pista que nos dá, levando em consideração que o capítulo de número 11 da segunda parte se chama "Confession" e o 13 se chama "Souricière". De quaquer modo só dá para saber lendo o segundo livro.
É difícil avaliar a linguagem do livro, por estar escrito em outra língua. O que pude perceber é o clima sombrio estilo noir, um tanto cliché, mas já deu origem à bons livros, particularmente de literatura policial e ficção científica, e nesse caso em particular, dos dois juntos. O filme e o texto são muito diferentes, de história e de nome dos personagens, além de ser um crime só no filme, e não vários.
Esse livro foi lido para o Desafio Literário de 2012. Apesar do tema ser Serial Killer, esse livro só narra o início da vida do suposto serial killer, de como sofreu o acidente e da cirurgia que dá origem (ou não) a uma série de crimes que acontecerá posteriormente. Não sei se vai dar tempo ainda de eu ler a segunda parte do livro para o desafio, mas faço um apelo para as editoras: traduzam e publiquem esse livro em português!!!
Nota do Elaphar: 7,9
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Pigmalião - George Bernard Shaw
Gosto muito de obras teatrais, particularmente Shakespeare. Só mesmo o Brasil ainda não possui um gênio indiscutível no Teatro. A Inglaterra tem Shakespeare, a frança tem Dumas, a Alemanha tem Hölderlin e Brecht, Portugal tem Gil Vicente. Nós temos Qorpo Santo e Antônio José (o Judeu), que são duas obras inacabadas, e alguns bons dramaturgos modernos, mas nos falta um "clássico genial" do gênero.
Divaguei e não cheguei em Bernard Shaw, que é um grande dramaturgo irlandês, que nasceu em uma época em que os irlandeses escreviam melhor que os ingleses.
Esse livro possui duas coisas que admiro: a intertextualidade desde o título e um personagem inusitado. Pigmalião é uma figura mitológica que teria sido um artesão que, ao construir uma estátua tão perfeita, se apaixona pela própria obra. Mas a história contada no livro não é a de Pigmalião mas de Higgins, um professor de fonética extremamente descortês e hilário.
A comédia se passa quando Higgins aceita uma aposta de transformar uma florista, Eliza Dolittle, em uma dama da realeza mudando sua fala Cockney. O aprendizado, o pai de Eliza, o tratamento "VIP" dado por Higgins são alguns dos pontos de maior graça da peça que, apesar do humor, possui muito de crítica social. Shaw é assumidamente um autor didático, e sua obra possui sempre uma finalidade de modificação do pensamento social. Apesar de tudo, a obra é grandiosa (não literalmente, já que é um texto pequeno) e popularíssima.
A tradução de Millor Fernandes é um exemplo de tradução. Millor já havia mostrado suas qualidades ao verter para o português brilhantemente A Megera Domada de Shakespeare, e esse trabalho com o texto de Shaw, de muito maior dificuldade, mostrou-se incrível. É muito difícil uma tradução de comédia manter a graça do texto fonte, já que a maior parte do humor está no trabalho com a linguagem, e não na narrativa. O trabalho de tradução de Millor é esplêndido.
Minha parte favorita é quando Eliza disse que não gosta do modo como Higgins trata-a, e compara com o do Coronel Pickening, que trata uma florista como se fosse duquesa, e Higgins, para rebater, afirma que possui o mesmo comportamento, tratando uma duquesa como se fosse uma florista.
O filme possui uma famosa adaptação cinematográfica (com o título de My Fair Lady, que acho que não possui nome próprio no Brasil, se tiver deve ser Minha Bela Dama), que aparentemente é um bom filme (só assisti metade), e peca só em uma coisa: é um musical americano. Sério! por quê os EUA não contratam atores que, de fato, saibam cantar para atuar em seus musicais? De qualquer modo, parece valer a pena assistir.
Esse livro foi lido para o Desafio Literário de 2012. É um livro fácil de ser encontrado em qualquer livraria por fazer parte da coleção L&PM Pocket. Não sei se a tradução do Millor pode ser encontrada em outra coleção (de formato grande). Com louvor esse livro entra, junto com Lolita e A Volta do Parafuso, no hall dos livros que recebem a nota máxima por esse blog.
Nota do Elaphar: 10
Edição Lida: SHAW, George Bernard. Pigmalião. Trad: Millor Fernandes. Porto Alegre: L&PM Pocket.
Divaguei e não cheguei em Bernard Shaw, que é um grande dramaturgo irlandês, que nasceu em uma época em que os irlandeses escreviam melhor que os ingleses.
Esse livro possui duas coisas que admiro: a intertextualidade desde o título e um personagem inusitado. Pigmalião é uma figura mitológica que teria sido um artesão que, ao construir uma estátua tão perfeita, se apaixona pela própria obra. Mas a história contada no livro não é a de Pigmalião mas de Higgins, um professor de fonética extremamente descortês e hilário.
A comédia se passa quando Higgins aceita uma aposta de transformar uma florista, Eliza Dolittle, em uma dama da realeza mudando sua fala Cockney. O aprendizado, o pai de Eliza, o tratamento "VIP" dado por Higgins são alguns dos pontos de maior graça da peça que, apesar do humor, possui muito de crítica social. Shaw é assumidamente um autor didático, e sua obra possui sempre uma finalidade de modificação do pensamento social. Apesar de tudo, a obra é grandiosa (não literalmente, já que é um texto pequeno) e popularíssima.
A tradução de Millor Fernandes é um exemplo de tradução. Millor já havia mostrado suas qualidades ao verter para o português brilhantemente A Megera Domada de Shakespeare, e esse trabalho com o texto de Shaw, de muito maior dificuldade, mostrou-se incrível. É muito difícil uma tradução de comédia manter a graça do texto fonte, já que a maior parte do humor está no trabalho com a linguagem, e não na narrativa. O trabalho de tradução de Millor é esplêndido.
Minha parte favorita é quando Eliza disse que não gosta do modo como Higgins trata-a, e compara com o do Coronel Pickening, que trata uma florista como se fosse duquesa, e Higgins, para rebater, afirma que possui o mesmo comportamento, tratando uma duquesa como se fosse uma florista.
O filme possui uma famosa adaptação cinematográfica (com o título de My Fair Lady, que acho que não possui nome próprio no Brasil, se tiver deve ser Minha Bela Dama), que aparentemente é um bom filme (só assisti metade), e peca só em uma coisa: é um musical americano. Sério! por quê os EUA não contratam atores que, de fato, saibam cantar para atuar em seus musicais? De qualquer modo, parece valer a pena assistir.
Esse livro foi lido para o Desafio Literário de 2012. É um livro fácil de ser encontrado em qualquer livraria por fazer parte da coleção L&PM Pocket. Não sei se a tradução do Millor pode ser encontrada em outra coleção (de formato grande). Com louvor esse livro entra, junto com Lolita e A Volta do Parafuso, no hall dos livros que recebem a nota máxima por esse blog.
Nota do Elaphar: 10
Edição Lida: SHAW, George Bernard. Pigmalião. Trad: Millor Fernandes. Porto Alegre: L&PM Pocket.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Um Erro Emocional - Cristovão Tezza
Desculpem novamente a demora... os trabalhos da UFPA estão me tirando todo o tempo que tinha livre para falar de literatura à toa. Esse livro (que comprei no início do ano) me foi indicado por uma amiga que possui um gosto literário muito parecido com o meu (com algumas pequenas divergências), o que já era uma pre-disposição para eu gostar do livro.
Existe uma temática recorrente na literatura brasileira contemporânea, que é a problemática da vida atual em relação ao passado, as diferenças entre o cotidiano atual e as lembranças (nem sempre felizes) e traumas passados. Nessa temática inclui-se o livro Tempos Férteis de Beatriz Moreira Lima e também este, só que de formas bastante diferentes.
Cristovão Tezza é um dos escritores novos mais renomados da atualidade, com um sucesso incomum de venda e de crítica especializada (desconsidero a crítica jornalística e midiática por, na maioria das vezes, não valer nada). Seu livro "O Filho Eterno" ganhou uma série de prêmios importantes como o Jabuti, o Portugal Telecom e o da APCA. "Um Erro Emocional" é o livro mais recente do escritor.
Antes de falar do livro propriamente dito, me permitam mais uma divagação sobre a técnica do Fluxo de Consciência (técnica muito usada nesse livro). Muitos pensam que essa técnica é bem recente ou vanguardista, mas na verdade é um recurso estilístico bem velho (ao que me consta, usado pela primeira vez por Laurence Sterne). Acho particularmente interessante como um recurso que era considerado "Erudito" ou "Intrincado" passou a ser tão popular e apreciado por muitos leitores que não possuem a mínima proficiencia de leitura (compreensão e interpretação de um texto literário). Para confirmar basta ver o número de livros utilizando essa técnica atualmente, e a popularidade de escritores do cânone que usam e abusam desse recurso (como Clarice Lispector). Um Erro Emocional é basicamente composto sobre o fluxo de conciência dos personagens, mas há características marcantes que não o fazem um livro vulgar.
"Cometi um erro emocional", assim inicia-se o livro, em uma situação absurda e gratúita o protagonista do livro (um escritor chamado Paulo Donetti) entra na casa da protagonista (Beatriz, e fan nº1 do escritor) confessando o seu erro (emocional) e sua paixão pela personagem. A partir desse acontecimento, a narrativa se desenvolve entre um copo de vinho e outro (e eu um breve momento um chá).
Mais importante do que o que é dito e o que é feito, é o que não é dito, o que deveria ser feito, o que poderá vir a ser feito e o que aconteceu. A narrativa está incluinda em um processo temporal complexo, onde pretérito perfeito e presente ligam-se intimamente, além da presença do mais-que-perfeito e do futuro do pretérito. Definitivamente, esse não é um livro que se possa definir em algumas poucas palavras que cabem nessa resenha, portanto, acho que encerro aqui, recomendando seriamente a leitura desse livro, tanto por sua qualidade técnica, por sua profundidade psicológica e pela agradabilidade da leitura.
Esse livro é bônus do desafio literário do mês de Julho.
Nota do Elaphar: 9,2
Edição Lida:
TEZZA, Cristovão. Um Erro Emocional. Rio de Janeiro: Record, 2010, 191p.
Existe uma temática recorrente na literatura brasileira contemporânea, que é a problemática da vida atual em relação ao passado, as diferenças entre o cotidiano atual e as lembranças (nem sempre felizes) e traumas passados. Nessa temática inclui-se o livro Tempos Férteis de Beatriz Moreira Lima e também este, só que de formas bastante diferentes.
Cristovão Tezza é um dos escritores novos mais renomados da atualidade, com um sucesso incomum de venda e de crítica especializada (desconsidero a crítica jornalística e midiática por, na maioria das vezes, não valer nada). Seu livro "O Filho Eterno" ganhou uma série de prêmios importantes como o Jabuti, o Portugal Telecom e o da APCA. "Um Erro Emocional" é o livro mais recente do escritor.
Antes de falar do livro propriamente dito, me permitam mais uma divagação sobre a técnica do Fluxo de Consciência (técnica muito usada nesse livro). Muitos pensam que essa técnica é bem recente ou vanguardista, mas na verdade é um recurso estilístico bem velho (ao que me consta, usado pela primeira vez por Laurence Sterne). Acho particularmente interessante como um recurso que era considerado "Erudito" ou "Intrincado" passou a ser tão popular e apreciado por muitos leitores que não possuem a mínima proficiencia de leitura (compreensão e interpretação de um texto literário). Para confirmar basta ver o número de livros utilizando essa técnica atualmente, e a popularidade de escritores do cânone que usam e abusam desse recurso (como Clarice Lispector). Um Erro Emocional é basicamente composto sobre o fluxo de conciência dos personagens, mas há características marcantes que não o fazem um livro vulgar.
"Cometi um erro emocional", assim inicia-se o livro, em uma situação absurda e gratúita o protagonista do livro (um escritor chamado Paulo Donetti) entra na casa da protagonista (Beatriz, e fan nº1 do escritor) confessando o seu erro (emocional) e sua paixão pela personagem. A partir desse acontecimento, a narrativa se desenvolve entre um copo de vinho e outro (e eu um breve momento um chá).
Mais importante do que o que é dito e o que é feito, é o que não é dito, o que deveria ser feito, o que poderá vir a ser feito e o que aconteceu. A narrativa está incluinda em um processo temporal complexo, onde pretérito perfeito e presente ligam-se intimamente, além da presença do mais-que-perfeito e do futuro do pretérito. Definitivamente, esse não é um livro que se possa definir em algumas poucas palavras que cabem nessa resenha, portanto, acho que encerro aqui, recomendando seriamente a leitura desse livro, tanto por sua qualidade técnica, por sua profundidade psicológica e pela agradabilidade da leitura.
Esse livro é bônus do desafio literário do mês de Julho.
Nota do Elaphar: 9,2
Edição Lida:
TEZZA, Cristovão. Um Erro Emocional. Rio de Janeiro: Record, 2010, 191p.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Tempos Férteis - Beatriz Moreira Lima
O DL desse mês é sobre novos autores, e se há uma pequena lacuna na minha biblioteca, é justamente o de novos escritores nacionais... por sorte a maioria dos livros que tenho de novos autores não foi lida, o que me permitiu uma certa possibilidade de escolher (vou fazer uma leitura geral dessa estante). Li esse livro no primeiro dia do mês, mas como estava com muita preguiça e trabalhos para fazer nesses dias, só agora resenhei... e pretendo fazer uma resenha rápida.
Muito se diz a respeito de criticar obras de autores "amadores" e como essa critica deve ser diferente da de autores "clássicos". No fundo, não concordo que devemos avaliar diferentemente (nesse sentido), e que, se por um lado há escritores de evolução lenta (como o grande Machado), há também escritores precoces (como Álvares de Azevedo) e escritores que escreveram mal durante toda a vida (muitos por aí)...
É muito dificil criticar (no sentido de criar juizos críticos, e não falar mal simplesmente) uma obra que não se aprecia. Também não tenho o talento de José Veríssimo de simplesmente dizer que tal obra e tal escritor é tão ruim que não mereça ser estudado. Mas no fundo, não gostei do livro, e esses são os meus motivos:
- Personagens pobres (recortes de personalidades, visando um espelhamento ou aversão imediatas por parte do leitor)
- Quase auxência de tensão psicológica
- Episódios clichés
- Estrutura convencional
- Previsibilidade narrativa
- Falta de profundidade nos (diversos) temas abordados
- Normalização X Desregulação estilística das vozes
- etc...
Em compensação, alguns pontos positivos podem ser notados, como o fato de todos os personagens serem (diferentemente) preconceituosos, sem muitas vezes se dar conta disso.
A história é simples, pouco elaborada, e na maioria das vezes sem graça em todas as acepções da palavra. Conta a história de uma mulher separada, cheia de problemas dos mais variados tipos, desde financeiros, familiares (problemas com a mãe, que na maioria das vezes é um psicologismo raso), afetivos... a mulher trabalha como vendedora, mas tem outra formação e outro sonho. Vemos vários recortes em sua personalidade e comportamento, na maioria das vezes buscando um espelhamento. Os outros personagens são ainda menos interessantes (principalmente pela linguagem) e variados. Ao final da narrativa a protagonista consegue recuperar o seu verdadeiro amor (Otávio, o ex-marido) e consegue iniciar na realização de seu sonho proficional. Happy Ending.
É muito bizzarro o modo como são retratadas as mulheres no livro (e o livro foi escrito por uma). Os episódios muitas vezes desafiam o bom gosto, mas algumas pequenas coisas podem chamar atenção, como uma parte do "livro no livro", onde a personagem lê um livro raso tendo consciência da "rasidão" do livro e da leitura, reflexão bastante diferente (e não tão magnífica) quanto a propiciada em A Volta do Parafuso. Temos outras coisinhas legais no livro, mas em geral é um livro que não valeria a pena ser lido. Não valeria nem mesmo os 5 R$ que paguei por ele, num queimão de estoque da 7 Letras no JALLA 2010 em Niterói.
Esse livro faz parte do Desafio Literário do mês de Junho. Para conferir a lista do desafio clique aqui.
Nota do Elaphar: 7,0
Edição Lida:
LIMA, Beatriz Moreira. Tempos Férteis. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008, 234p.
Muito se diz a respeito de criticar obras de autores "amadores" e como essa critica deve ser diferente da de autores "clássicos". No fundo, não concordo que devemos avaliar diferentemente (nesse sentido), e que, se por um lado há escritores de evolução lenta (como o grande Machado), há também escritores precoces (como Álvares de Azevedo) e escritores que escreveram mal durante toda a vida (muitos por aí)...
É muito dificil criticar (no sentido de criar juizos críticos, e não falar mal simplesmente) uma obra que não se aprecia. Também não tenho o talento de José Veríssimo de simplesmente dizer que tal obra e tal escritor é tão ruim que não mereça ser estudado. Mas no fundo, não gostei do livro, e esses são os meus motivos:
- Personagens pobres (recortes de personalidades, visando um espelhamento ou aversão imediatas por parte do leitor)
- Quase auxência de tensão psicológica
- Episódios clichés
- Estrutura convencional
- Previsibilidade narrativa
- Falta de profundidade nos (diversos) temas abordados
- Normalização X Desregulação estilística das vozes
- etc...
Em compensação, alguns pontos positivos podem ser notados, como o fato de todos os personagens serem (diferentemente) preconceituosos, sem muitas vezes se dar conta disso.
A história é simples, pouco elaborada, e na maioria das vezes sem graça em todas as acepções da palavra. Conta a história de uma mulher separada, cheia de problemas dos mais variados tipos, desde financeiros, familiares (problemas com a mãe, que na maioria das vezes é um psicologismo raso), afetivos... a mulher trabalha como vendedora, mas tem outra formação e outro sonho. Vemos vários recortes em sua personalidade e comportamento, na maioria das vezes buscando um espelhamento. Os outros personagens são ainda menos interessantes (principalmente pela linguagem) e variados. Ao final da narrativa a protagonista consegue recuperar o seu verdadeiro amor (Otávio, o ex-marido) e consegue iniciar na realização de seu sonho proficional. Happy Ending.
É muito bizzarro o modo como são retratadas as mulheres no livro (e o livro foi escrito por uma). Os episódios muitas vezes desafiam o bom gosto, mas algumas pequenas coisas podem chamar atenção, como uma parte do "livro no livro", onde a personagem lê um livro raso tendo consciência da "rasidão" do livro e da leitura, reflexão bastante diferente (e não tão magnífica) quanto a propiciada em A Volta do Parafuso. Temos outras coisinhas legais no livro, mas em geral é um livro que não valeria a pena ser lido. Não valeria nem mesmo os 5 R$ que paguei por ele, num queimão de estoque da 7 Letras no JALLA 2010 em Niterói.
Esse livro faz parte do Desafio Literário do mês de Junho. Para conferir a lista do desafio clique aqui.
Nota do Elaphar: 7,0
Edição Lida:
LIMA, Beatriz Moreira. Tempos Férteis. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008, 234p.
domingo, 22 de maio de 2011
O Livreiro de Cabul - Åsne Seierstad
Mais um livro do desafio literário desse mês, e a resenha da vez é o grande Best Seller da escritora norueguesa Åsne Seierstad.
Segundo a autora, durante sua estadia no afeganistão (a escritora era correspondente de guerra em 2002, enquanto o afeganistão estava na moda) conheceu um livreiro (pseudônimo Sultan Khan) e decidiu escrever um livro sobre sua vida, então morou com a família dos Khan durante 3 meses.
Ao ler o livro, cheguei a conclusão de que metade do que foi escrito no livro é inferência da autora. Por quê? Åsne não compreendia bem o dialeto persa falado por metade da famíla, então só podia se comunicar com parte das pessoas, mas todas as personagens do livro tem sua psicologia (com medos, pensamentos, vontades e etc...) extremamente descrita. Outra coisa muito interessante, é que todas as mulheres do livro têm pensamentos ocidentalizados de sua própria cultura, o que me faz pensar que são pensamentos, na maior parte das vezes, da autora.
Outra coisa que me chamou muita atenção no livro é: "os membros da família Khan falaram o que não deveriam", o que provavelmente deveria causar problemas caso um membro da família ou conhecido lesse o livro, e que coincidência: o livro causou problemas. O livreiro Shah Muhammad Rais tentou processar a autora e escreveu um livro em resposta chamado "Eu Sou o Livreiro de Cabul" (publicado em nossas terras pela Bertrand Editora). De qualquer modo, a quantidade de ficção desses livros é tão grande que nenhum dos dois pode ser considerado a rigor um "retrato da vida afegã" (como é cafona essa frase).
Cabul não é tão diferente do Brasil como podemos pensar. Uma das maiores diferenças entre nosso país e o Afeganistão é a guerra que destruiu quase completamente o país. Muitos episódios do livro poderiam ter acontecido aqui (e acontecem), como o caso da mendiga menor de idade que é abusada por um livreiro amigo do filho de Sultan. A outra grande diferença é quanto ao tratamento às mulheres, que é justamente o que mais é retratado no livro.
Nota do Elaphar: 8,5
Segundo a autora, durante sua estadia no afeganistão (a escritora era correspondente de guerra em 2002, enquanto o afeganistão estava na moda) conheceu um livreiro (pseudônimo Sultan Khan) e decidiu escrever um livro sobre sua vida, então morou com a família dos Khan durante 3 meses.
Ao ler o livro, cheguei a conclusão de que metade do que foi escrito no livro é inferência da autora. Por quê? Åsne não compreendia bem o dialeto persa falado por metade da famíla, então só podia se comunicar com parte das pessoas, mas todas as personagens do livro tem sua psicologia (com medos, pensamentos, vontades e etc...) extremamente descrita. Outra coisa muito interessante, é que todas as mulheres do livro têm pensamentos ocidentalizados de sua própria cultura, o que me faz pensar que são pensamentos, na maior parte das vezes, da autora.
Outra coisa que me chamou muita atenção no livro é: "os membros da família Khan falaram o que não deveriam", o que provavelmente deveria causar problemas caso um membro da família ou conhecido lesse o livro, e que coincidência: o livro causou problemas. O livreiro Shah Muhammad Rais tentou processar a autora e escreveu um livro em resposta chamado "Eu Sou o Livreiro de Cabul" (publicado em nossas terras pela Bertrand Editora). De qualquer modo, a quantidade de ficção desses livros é tão grande que nenhum dos dois pode ser considerado a rigor um "retrato da vida afegã" (como é cafona essa frase).
Cabul não é tão diferente do Brasil como podemos pensar. Uma das maiores diferenças entre nosso país e o Afeganistão é a guerra que destruiu quase completamente o país. Muitos episódios do livro poderiam ter acontecido aqui (e acontecem), como o caso da mendiga menor de idade que é abusada por um livreiro amigo do filho de Sultan. A outra grande diferença é quanto ao tratamento às mulheres, que é justamente o que mais é retratado no livro.
Nota do Elaphar: 8,5
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Papéis - Sultana Levy
Sultana Levy foi uma escritora paraense que morreu nos Estados Unidos. Apesar de viver muitos anos no exterior, nunca abandonou a nacionalidade brasileira. Publicou muito em jornais e revistas literárias do brasil e seus livros são ambientados em seu país natal.
Papéis é um conjunto de crônicas literárias, biográficas, jornalísticas e palestras, se é que podemos chamar alguns de seus textos de crônica, já que alguns são muito grandes e mais parecem ensaios. As temáticas são muito variadas, então vou falar de cada uma individualmente.
O primeiro texto é uma crônica/ensaio biográfico de Antônio José da Silva, "O Judeu", um importante dramaturgo português (não interessa se ele nasceu ou não no Brasil. Era português e pronto!). Sultana conta a história da vida do escritor e acaba relacionando biografia com obra. O mesmo é feito no segundo texto, porem agora fala sobre Goya, biografia e obra.
O terceiro texto fala sobre a amizade de Cézanne e Zola, como um influenciou a obra do outro e o fim dessa amizade. O maior problema dessa crônica é o "aportuguesamento" dos nomes (Paul e Émile para Paulo e Emílio). Em seguida vem um interessante texto sobre Machado de Assis, embora sem profundidade.
Ainda sobre biografias, Sultana escreve sobre dois personagens da Inconfidência Mineira (Tiradentes e Gonzaga) nos dois textos a seguir. Não deve-se levar muito a sério os dois textos, e juntos formam os que menos gostei do livro, tanto por seu valor literário quanto histórico. A outra crônica é uma belíssima crônica literária, seguida de um ensaio artístico muito interessante sobre a questão da fé e da arte.
O 9º texto é a transcrição de uma palestra sobre a imigração judaica no Brasil; palestra também é o 11º, onde Sultana fala sobre grandes mulheres. O 10º e o Último texto também são cronicas literárias muito boas. o 12º fala sobre uma personalidade da guerra do Paraguai que foi retratada em A Retirada da Laguna.
Não posso fazer uma análise muito profunda sobre os textos de Levy por um motivo bem simples: os textos são rasos e sem profundidade. Apesar de haver muitas informações contidas neles, os textos carecem de credibilidade. Apenas 4 ou 5 textos são literariamente belos. Enfim, a escritora não ultiliza todo o seu potencial no gênero crõnica, apesar de escrever bons romances, pelo que pude conferir. Para piorar, a edição é ruim, sem arte de capa e sem nada na contracapa, sem orelhas, péssimo papel e diagramação, além de uma revisão ruim, cheia de erros em letras (c ou é no lugar de e, r no lugar de n entre outros).
Esse livro faz parte do desafio literário no mês de maio. Para conferir a lista do desafio clique aqui.
Nota do Elaphar: 7,9
Edição Lida:
LEVY, Sultana. Papéis. Belém: Grafisa, 1999, 221p.
Papéis é um conjunto de crônicas literárias, biográficas, jornalísticas e palestras, se é que podemos chamar alguns de seus textos de crônica, já que alguns são muito grandes e mais parecem ensaios. As temáticas são muito variadas, então vou falar de cada uma individualmente.
O primeiro texto é uma crônica/ensaio biográfico de Antônio José da Silva, "O Judeu", um importante dramaturgo português (não interessa se ele nasceu ou não no Brasil. Era português e pronto!). Sultana conta a história da vida do escritor e acaba relacionando biografia com obra. O mesmo é feito no segundo texto, porem agora fala sobre Goya, biografia e obra.
O terceiro texto fala sobre a amizade de Cézanne e Zola, como um influenciou a obra do outro e o fim dessa amizade. O maior problema dessa crônica é o "aportuguesamento" dos nomes (Paul e Émile para Paulo e Emílio). Em seguida vem um interessante texto sobre Machado de Assis, embora sem profundidade.
Ainda sobre biografias, Sultana escreve sobre dois personagens da Inconfidência Mineira (Tiradentes e Gonzaga) nos dois textos a seguir. Não deve-se levar muito a sério os dois textos, e juntos formam os que menos gostei do livro, tanto por seu valor literário quanto histórico. A outra crônica é uma belíssima crônica literária, seguida de um ensaio artístico muito interessante sobre a questão da fé e da arte.
O 9º texto é a transcrição de uma palestra sobre a imigração judaica no Brasil; palestra também é o 11º, onde Sultana fala sobre grandes mulheres. O 10º e o Último texto também são cronicas literárias muito boas. o 12º fala sobre uma personalidade da guerra do Paraguai que foi retratada em A Retirada da Laguna.
Não posso fazer uma análise muito profunda sobre os textos de Levy por um motivo bem simples: os textos são rasos e sem profundidade. Apesar de haver muitas informações contidas neles, os textos carecem de credibilidade. Apenas 4 ou 5 textos são literariamente belos. Enfim, a escritora não ultiliza todo o seu potencial no gênero crõnica, apesar de escrever bons romances, pelo que pude conferir. Para piorar, a edição é ruim, sem arte de capa e sem nada na contracapa, sem orelhas, péssimo papel e diagramação, além de uma revisão ruim, cheia de erros em letras (c ou é no lugar de e, r no lugar de n entre outros).
Esse livro faz parte do desafio literário no mês de maio. Para conferir a lista do desafio clique aqui.
Nota do Elaphar: 7,9
Edição Lida:
LEVY, Sultana. Papéis. Belém: Grafisa, 1999, 221p.
domingo, 24 de abril de 2011
O Fim da Eternidade - Isaac Asimov
Aproveitando o tema da viagem no tempo e seus paradoxos (que não era clichê na época que esse livro foi escrito) Isaac Asimov escreveu O Fim da Eternidade.
Influenciado fortemente por H.G.Wells e com um certo ar de romantismo tardiu, O Fim da Eternidade é uma história de amor em um cenário de ficção científica. Diferente de tudo o que foi escrito anteriormente (e diferente do que é escrito hoje), Asimov aborda com maestria os paradoxos da viagem no tempo:
A trama envolve uma organização (a Eternidade) que faz alterações no tempo a fim de garantir a integridade da raça humana (até um certo período, pois há alguns séculos que não estão ao alcance dos Eternos). Os Técnicos são os responsáveis por essas alterações "mínimas" qua alteram toda a história humana. Há um pouco da Teoria do Caos nessa obra, porém com o acréscimo da Inércia Newtoniana, criando uma espécie de Inércia das Alterações Temporais. Uma coisa a se acostumar na leitura desse livro é a mist5ura da escrita literária com a científica (apesar dos erros).
A viajem no tempo e o romance entre Andrew Harlan (Técnico da Eternidade) e Nöys Lambert (uma pessoa normal, denominada pelos Eternos de Tempista) são aparentemente os dois principais temas do livro, mas o tema principal é outro, sutilmente colocado na obra, que é o das viagens espaciais. Não concordo com Asimov quanto a importância das viagens espaciais, mas é muito legal como esse tema é trabalhado no livro, sem ser trabalhado exatamente, pois não há viagens espaciais no livro, e essa falta é responsável pelo fim da raça humana após as "décadas ocultas".
Lastimavelmente, a técnica narrativa de Asimov é péssima no quesito descrição. As descrições do autor não são nem um pouco interessantes, apesar de toda a narrativa o ser. Ao ler o livro cheguei a conclusão de que ele seria bem melhor se fosse um conto (pela estrutura, temática e técnica do autor), e descobri que de fato era, mas recebeu acrescimos posteriores pelo autor a fim de transformá-lo num romancel. O livro provaveolmente seria melhor sem esses acréscimos.
O final interessante, apesar de pouco criativo (e do spoiler desgraçado do título) e a temática muito original e bem desenvolvida. Produção gráfica de boa qualidade e tradução fluente. Essa resenha é um Bõnus do Desafio Literário. Para conferir a lista de Abril Clique aqui. O livro pode ser encontrado facilmente em qualquer livraria, pois a edição da Aleph é recente.
Nota do Elaphar: 9,1
Edição Lida:
ASIMOV, Isaac. O Fim da Eternidade. Trad: Susana Alexandria. São Paulo: Aleph, 2007, 255p.
Influenciado fortemente por H.G.Wells e com um certo ar de romantismo tardiu, O Fim da Eternidade é uma história de amor em um cenário de ficção científica. Diferente de tudo o que foi escrito anteriormente (e diferente do que é escrito hoje), Asimov aborda com maestria os paradoxos da viagem no tempo:
[...]- Vejamos um caso mais provável e mais fácil de analisar: um homem que, em suas viagens pelo Tempo, encontra a si mesmo...Esse é apenas um dos muitos paradoxos e ciclicidades da narrativa.
- Qual é o problema de um homem encontrar a si mesmo?- perguntou Harlan, abruptamente.
[...]
- E as quatro subdivisões nas quais tal ato pode cair. Chamemos de A o homem anterior no fisiotempo, e de B o outro, posterior. Subdivisão um: A e B talvez não se vejam, nem façam
nada que vá afetar um ou outro de maneira significativa. Nesse caso, eles não se encontraram realmente; então, podemos desprezar esse caso como trivial.
- Ou o B, o indivíduo posterior, pode ver o A, mas não ser visto por ele. Aqui, também, não há por que esperar sérias consequências. B, vendo A, o vê numa posição e ocupado em alguma
atividade que ele já conhece. Não há nada de novo envolvido.
- A terceira e a quarta possibilidades são A vê B, mas B não vê A; e A e B se vêem. Em cada possibilidade, a questão séria é que A viu B; o homem, num estágio anterior em sua existência
fisiológica se vê nurn estágio posterior. Observem que ele ficou sabendo que estará vivo na idade aparente de B. Ele sabe que viverá o bastante para praticar aquela ação que testemunhou. Urn homem que conhece seu próprio futuro, em qualquer mínimo detalhe, poderá agir corn base nesse conhecimento e, portan-to, mudar seu futuro. O resultado é que a Realidade deve ser mudada o suficiente para não permitir que A e B se encontrem ou, pelo menos, para evitar que A veja B. Então, como nada que se tornou não-Real numa Realidade pode ser detectado, A nunca encontrou B. Da mesma forma, em cada aparente paradoxo da viagem no Tempo, a Realidade sempre muda para evitar o paradoxo, e chegamos à conclusão de que não há paradoxos nas viagens no Tempo e não pode haver. (p.155-156)
A trama envolve uma organização (a Eternidade) que faz alterações no tempo a fim de garantir a integridade da raça humana (até um certo período, pois há alguns séculos que não estão ao alcance dos Eternos). Os Técnicos são os responsáveis por essas alterações "mínimas" qua alteram toda a história humana. Há um pouco da Teoria do Caos nessa obra, porém com o acréscimo da Inércia Newtoniana, criando uma espécie de Inércia das Alterações Temporais. Uma coisa a se acostumar na leitura desse livro é a mist5ura da escrita literária com a científica (apesar dos erros).
A viajem no tempo e o romance entre Andrew Harlan (Técnico da Eternidade) e Nöys Lambert (uma pessoa normal, denominada pelos Eternos de Tempista) são aparentemente os dois principais temas do livro, mas o tema principal é outro, sutilmente colocado na obra, que é o das viagens espaciais. Não concordo com Asimov quanto a importância das viagens espaciais, mas é muito legal como esse tema é trabalhado no livro, sem ser trabalhado exatamente, pois não há viagens espaciais no livro, e essa falta é responsável pelo fim da raça humana após as "décadas ocultas".
Lastimavelmente, a técnica narrativa de Asimov é péssima no quesito descrição. As descrições do autor não são nem um pouco interessantes, apesar de toda a narrativa o ser. Ao ler o livro cheguei a conclusão de que ele seria bem melhor se fosse um conto (pela estrutura, temática e técnica do autor), e descobri que de fato era, mas recebeu acrescimos posteriores pelo autor a fim de transformá-lo num romancel. O livro provaveolmente seria melhor sem esses acréscimos.
O final interessante, apesar de pouco criativo (e do spoiler desgraçado do título) e a temática muito original e bem desenvolvida. Produção gráfica de boa qualidade e tradução fluente. Essa resenha é um Bõnus do Desafio Literário. Para conferir a lista de Abril Clique aqui. O livro pode ser encontrado facilmente em qualquer livraria, pois a edição da Aleph é recente.
Nota do Elaphar: 9,1
Edição Lida:
ASIMOV, Isaac. O Fim da Eternidade. Trad: Susana Alexandria. São Paulo: Aleph, 2007, 255p.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
O Restaurante no fim do Universo - Douglas Adams
Continuando a trilogia de quatro (que por mero acaso são cinco) do Guia dos Mochileiros da Galáxia, o livro seguinte é O Restaurante no Fim do Universo.
Depois da fuga de Magrathea, os "heróis" são atacados e acabam passando por diversas situações "pouco prováveis", o que já é um grande chavão da série. O ápice da história é a chegada dos "heróis" até o Restaurante no Fim do Universo, um restaurante que fica no exato momento do fim de todo o universo, e parte onde contém a maior quantidade de iron ia por lauda. Outro ponto importante é a separação da equipe em duas (Arthur e Ford de um lado e Trillian e Zaphod de outro), onde a primeira equipe se encontra na terra primitiva e a segunda encontra-se com o homem que rege o universo.
Algumas considerações: o livro ainda mantém sua crítica social do primeiro da série, porém essa crítica fica menos frequente e menos violenta (em contrapartida, mais interessante), os personagens estão bem mais coerentes (exceto Ford) e o nonsense é usado com maior maestria nesse volume da série, além do livro está bem melhor escrito.
Logo ao abrir o livro vejo uma introdução bastante interessante:
Fora isso percebemos vários diálogos, geralmente irônicos, envolvendo os livros sagrados cristãos (e dogmas religiosos específicos) e uma parcela da produção editorial humana; acredito também que o autor leu Aristóteles, pois algumas construções argumentativas me lembram a lógica aristotélica. Como avisei anteriormente porém, as criticas agora não são mais ataques diretos, mas uma fina e humorada ironia.
Outra grande vantagem desse livro sobre o primeiro: O Restaurante no Fim do Universo é mais engraçado. Não é tão engraçado a ponto de me fazer gargalhar, mas supera e muito o anterior. A produção gráfica do livro mantém a qualidade padrão da Sextante, apesar da capa ser de péssimo gosto, o que no final das contas não distoa do livro. Por grande bom senso, a editora não mais deixou aquele horrível "15 milhões de cópias vendidas no mundo", que além de não significar nada não é nem um pouco impressionante em questão de números.
A tradução é um ponto importantíssimo (apesar de ter cotejado apenas 5 parágrafos como amostragem) e merece um destaque especial. O trabalho de Carlos Irineu Costa merece um grande destaque pela tradução, que não é tão fácil quanto pode parecer. Há muitas referências culturais (reas e fictícias), muito coloquialismo, mudanças de registro e construções esquisitas, que foram, pelo pouco que vi, muito bem realizadas em português pelo tradutor. O texto traduzido é ligeiramente mais coloquial do que o em inglês, mas isso não compromete a leitura.
Por fim, chego a conclusão de que houve na escrita de Douglas Adams um certo progresso em relação ao Guia do Mochileiro das Galáxias, o que PODE indicar que o próximo livro seja melhor (ou não). Apesar desses indícios, não vou continuar a série, pois meu interesse nela se findou. Essa resenha faz parte do Desafio Literário. Para conferir a minha lista do desafio clique aqui. Para conferir a lista de Abril Clique aqui. O livro pode ser encontrado facilmente em qualquer livraria, afinal, é um best Seller.
Nota do Elaphar: 8,4
Edição Lida:
ADAMS, Douglas. O Restaurante no Fim do Universo. Trad: Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Sextante, 2009, 229p. (O Guia do Mochileiro das Galáxias; v.2)
Depois da fuga de Magrathea, os "heróis" são atacados e acabam passando por diversas situações "pouco prováveis", o que já é um grande chavão da série. O ápice da história é a chegada dos "heróis" até o Restaurante no Fim do Universo, um restaurante que fica no exato momento do fim de todo o universo, e parte onde contém a maior quantidade de iron ia por lauda. Outro ponto importante é a separação da equipe em duas (Arthur e Ford de um lado e Trillian e Zaphod de outro), onde a primeira equipe se encontra na terra primitiva e a segunda encontra-se com o homem que rege o universo.
Algumas considerações: o livro ainda mantém sua crítica social do primeiro da série, porém essa crítica fica menos frequente e menos violenta (em contrapartida, mais interessante), os personagens estão bem mais coerentes (exceto Ford) e o nonsense é usado com maior maestria nesse volume da série, além do livro está bem melhor escrito.
Logo ao abrir o livro vejo uma introdução bastante interessante:
"Existe uma teoria que diz que, se um dia alguem descobrir exatamente para que serve o universo e porque ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável * Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu."Pode parecer trivial, mas percebemos que Adams começa a dialogar com a tradição filosófico-literária, o que aumenta ainda mais a minha ideia de que ele começou a aprender a escrever a partir desse livro. Essas duas teorias na verdade são uma recriação para o problema básico do surgimento do universo pré-big bang. Em uma primeira teoria o big-bang aconteceu e as moléculas se distanciarão até o infinito, onde será o fim. Uma segunda teoria representa uma ciclicidade infinita, e o big-bang já aconteceu infinitas vezes no tempo passado e infinitas no futuro. Juntando-se a isso uma perspectiva "teológica" desprovida de "deus" de finalidade e descoberta, temos uma paródia de ambas as crenças de forma umorada e filosófica. Para a melhor compreensão de que crença "teológica" me refiro, é muito interessante consultar Os Nove Trilhões de Nomes de Deus de Arthur Clarkel.
Fora isso percebemos vários diálogos, geralmente irônicos, envolvendo os livros sagrados cristãos (e dogmas religiosos específicos) e uma parcela da produção editorial humana; acredito também que o autor leu Aristóteles, pois algumas construções argumentativas me lembram a lógica aristotélica. Como avisei anteriormente porém, as criticas agora não são mais ataques diretos, mas uma fina e humorada ironia.
Outra grande vantagem desse livro sobre o primeiro: O Restaurante no Fim do Universo é mais engraçado. Não é tão engraçado a ponto de me fazer gargalhar, mas supera e muito o anterior. A produção gráfica do livro mantém a qualidade padrão da Sextante, apesar da capa ser de péssimo gosto, o que no final das contas não distoa do livro. Por grande bom senso, a editora não mais deixou aquele horrível "15 milhões de cópias vendidas no mundo", que além de não significar nada não é nem um pouco impressionante em questão de números.
A tradução é um ponto importantíssimo (apesar de ter cotejado apenas 5 parágrafos como amostragem) e merece um destaque especial. O trabalho de Carlos Irineu Costa merece um grande destaque pela tradução, que não é tão fácil quanto pode parecer. Há muitas referências culturais (reas e fictícias), muito coloquialismo, mudanças de registro e construções esquisitas, que foram, pelo pouco que vi, muito bem realizadas em português pelo tradutor. O texto traduzido é ligeiramente mais coloquial do que o em inglês, mas isso não compromete a leitura.
Por fim, chego a conclusão de que houve na escrita de Douglas Adams um certo progresso em relação ao Guia do Mochileiro das Galáxias, o que PODE indicar que o próximo livro seja melhor (ou não). Apesar desses indícios, não vou continuar a série, pois meu interesse nela se findou. Essa resenha faz parte do Desafio Literário. Para conferir a minha lista do desafio clique aqui. Para conferir a lista de Abril Clique aqui. O livro pode ser encontrado facilmente em qualquer livraria, afinal, é um best Seller.
Nota do Elaphar: 8,4
Edição Lida:
ADAMS, Douglas. O Restaurante no Fim do Universo. Trad: Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Sextante, 2009, 229p. (O Guia do Mochileiro das Galáxias; v.2)
sábado, 16 de abril de 2011
A Mulher Desiludida - Simone de Beauvoir
Estava devendo essa resenha desde o final de fevereiro, mas acabei não resenhando. Simone de Beauvoir é uma grande filósofa e escritora francesa, amiga de Sartre e Camus. Sua biografia é cheia de detalhes e anedotas peculiares, mas não vamos nos deter nelas. Sua obra mais conhecida é por certo "O Segundo Sexo", marco histórico do movimento feminista. Sua obra literária é predominantemente auto biográfica (Memórias de uma moça bem-comportada, A força das coisas, uma morte muito doce e Tudo é dito e feito, Balanço Final), e seus textos de não-ficção também são muito apreciados (como A Velhice e A Cerimônia de Adeus). Seus romances são considerados obras primas, em especial Os Mandarins. Simone é publicada no Brasil pela editora Nova Fronteira.
A Mulher Desiludida é um livro que contém 3 novelas curtas: A Idade da Discrição, Monólogo e A Mulher Desiludida. Todas as novelas são narradas em 1ª pessoa, sendo que A Idade da Discrição e A Mulher Desiludida são escritas sob a forma de um diário, enquanto Monólogo é um monólogo (como o próprio nome sugere).
É impressionante como Simone de Beauvoir nessas 3 narrativas consegue penetrar no psicológico de suas personagens-protagonistas. Além de Simone, só conheço um escritor que consegue compreender em profundidade todo o psicológico de um personagem tão distante do próprio autor (esse nome é Stefan Zweig, um dia resenho um livro dele).
As 3 novelas possuem muito em comum; todas são protagonizadas por mulheres, que são dependentes econômico-afetivamente dos homens e veem sua vida desmoronar. Monólogo distíngue-se dos outros por sua narrativa (sem pontuação, o que sugere uma explosão sentimental) e seu "tom". Há um pouco de comicidade em Monólogo, e a ambivalência da personagem gera uma ambivalência em como a analisamos (não sei se tenho compaixão, rio ou se digo "bem feito" de seu estado).
A Idade da Discrição mostra com muito mais força o Gênio de Beauvoir. É uma novela curta, monótona mas ainda assim magnífica. Beauvoir é um pouco cruel com o envelhecimento, e aqui o envelhecimento é tratado de forma confusa e polissignificativa. Não tem como não ficar cativado com sua protagonista, que pode se assemelhar a uma mulher comum.
Em A Mulher Desiludida, a problemática é ainda mais profunda, e a protagonista que possuia as filhas perfeitas (e felizes cada qual no seu modo de vida) e o casamento dos sonhos vê sua vida ruir. Seu marido arruma uma amante e ela se vê aceitando e se comportando diferentemente, ao nível que a amante conquista cada vez mais espaço de sua vida. Há uma guerra silenciosa contra o tempo de Maurice (marido). Aos poucos a protagonista vai se dando conta de que sua vida nunca foi o que ela pensava. Descobre também que, apesar de totalmente distintas, ambas as filhas não atingiram a felicidade em seu estilo de vida. Uma das filhas, espelhou-se na mãe e a outra negou o estilo de vida da mãe e da irmã completamente.
A Mulher Desiludida conta 3 tragédias familiares e pessoais distintas, mas possuem muito em comum entre elas e entre as tragédias familiares reais de muitas pessoas. A voz das personagens é brilhante, manejadas com maestria pela autora. O psicológico nas obras é tão bem construido que na maioria das vezes esquecemos que estamos lendo ficção e acreditamos estar dentro das mentes. As personagens de Beauvoir parecem mais reais do que as pessoas reais, parecem mais reais do que nós mesmos.
Por fim, a edição da Nova Fronteira é de ótima qualidade. Pepel pólem, capa muito bonita (apesar de não ter orelhas), diagramação excelente e grandes traduções de Helena Silveira (A Idade da Discrição e A Mulher Desiludida) e Maryan Barbosa (Monólogo). O texto é fluido e decerto esse é um dos melhores livros do ano. A Idade da Disrcição e A Mulher Desiludida são nota 10, enquanto Monólogo, ao meu ver, é ligeiramente inferior.
Nota do Elaphar: 9,8
Edição Lida:
BEAUVOIR, Simone [Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de]. A Mulher Desiludida. Trad: Helena Silveira e Maryan A. Bon Barbosa. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, 254p. (Coleção Fronteira)
A Mulher Desiludida é um livro que contém 3 novelas curtas: A Idade da Discrição, Monólogo e A Mulher Desiludida. Todas as novelas são narradas em 1ª pessoa, sendo que A Idade da Discrição e A Mulher Desiludida são escritas sob a forma de um diário, enquanto Monólogo é um monólogo (como o próprio nome sugere).
É impressionante como Simone de Beauvoir nessas 3 narrativas consegue penetrar no psicológico de suas personagens-protagonistas. Além de Simone, só conheço um escritor que consegue compreender em profundidade todo o psicológico de um personagem tão distante do próprio autor (esse nome é Stefan Zweig, um dia resenho um livro dele).
As 3 novelas possuem muito em comum; todas são protagonizadas por mulheres, que são dependentes econômico-afetivamente dos homens e veem sua vida desmoronar. Monólogo distíngue-se dos outros por sua narrativa (sem pontuação, o que sugere uma explosão sentimental) e seu "tom". Há um pouco de comicidade em Monólogo, e a ambivalência da personagem gera uma ambivalência em como a analisamos (não sei se tenho compaixão, rio ou se digo "bem feito" de seu estado).
A Idade da Discrição mostra com muito mais força o Gênio de Beauvoir. É uma novela curta, monótona mas ainda assim magnífica. Beauvoir é um pouco cruel com o envelhecimento, e aqui o envelhecimento é tratado de forma confusa e polissignificativa. Não tem como não ficar cativado com sua protagonista, que pode se assemelhar a uma mulher comum.
Em A Mulher Desiludida, a problemática é ainda mais profunda, e a protagonista que possuia as filhas perfeitas (e felizes cada qual no seu modo de vida) e o casamento dos sonhos vê sua vida ruir. Seu marido arruma uma amante e ela se vê aceitando e se comportando diferentemente, ao nível que a amante conquista cada vez mais espaço de sua vida. Há uma guerra silenciosa contra o tempo de Maurice (marido). Aos poucos a protagonista vai se dando conta de que sua vida nunca foi o que ela pensava. Descobre também que, apesar de totalmente distintas, ambas as filhas não atingiram a felicidade em seu estilo de vida. Uma das filhas, espelhou-se na mãe e a outra negou o estilo de vida da mãe e da irmã completamente.
A Mulher Desiludida conta 3 tragédias familiares e pessoais distintas, mas possuem muito em comum entre elas e entre as tragédias familiares reais de muitas pessoas. A voz das personagens é brilhante, manejadas com maestria pela autora. O psicológico nas obras é tão bem construido que na maioria das vezes esquecemos que estamos lendo ficção e acreditamos estar dentro das mentes. As personagens de Beauvoir parecem mais reais do que as pessoas reais, parecem mais reais do que nós mesmos.
Por fim, a edição da Nova Fronteira é de ótima qualidade. Pepel pólem, capa muito bonita (apesar de não ter orelhas), diagramação excelente e grandes traduções de Helena Silveira (A Idade da Discrição e A Mulher Desiludida) e Maryan Barbosa (Monólogo). O texto é fluido e decerto esse é um dos melhores livros do ano. A Idade da Disrcição e A Mulher Desiludida são nota 10, enquanto Monólogo, ao meu ver, é ligeiramente inferior.
Nota do Elaphar: 9,8
Edição Lida:
BEAUVOIR, Simone [Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de]. A Mulher Desiludida. Trad: Helena Silveira e Maryan A. Bon Barbosa. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, 254p. (Coleção Fronteira)
terça-feira, 12 de abril de 2011
O Homem Bicentenário - Isaac Asimov
Assimov é um escritor americano que simplesmente é considerado uma pequena divindade da Sci-fi, junto de Arthur Clark. Escreveu mais de 500 livros, dentre eles romances, contos, novelas, textos científicos e etc... O Homem Bicentenário é (provavelmente) sua obra mais conhecida, e que virou um filme bem famoso. Outras obras famosas do autor são: Eu Robô, Trilogia da Fundação, O Cair da Noite, Serie Robôs e O Fim da Eternidade.
Geralmente, quando falamos sobre um livro que virou filme espera-se uma comparação entre ambos. Procurarei evitar por dois motivos: 1º Minha sensibilidade cinematográfica não é muito boa, e 2º o filme possui pouquíssima relação com o livro. Ambos são boas obras, mas diferem-se bastante entre si.
O Homem Bicentenário foi escrito para figurar em uma antologia (referente ao bicentenário de independência dos EUA)k, mas duas coisas saíram erradas: o texto ficou duas vezes maior do que deveria e o projeto da antologia não avançou. Em contrapartida, ganhamos um dos melhores contos de Sci-fi.
Seguindo o mote das 3 leis robóticas (que não sei se surgiram em Círculo Vicioso ou Eu Robô) inicia-se o livro. Conhecemos então Andrew, um robô diferente. A família (os donos de Andrew) é composta pela mãe, o pai, e duas filhas (a mais nova o robô chama de filhinha até sua morte depois dos 80 anos). Todos gostam de Andrew, que é um verdadeiro artista e recebe bastante dinheiro, que usa para comprar sua alforria, o que deixa o pai furioso.
Após a morte do pai, Andrew passa a andar vestido, o que causa indignação geral. Acontece um terrível episódio, onde dois jovens exploram Andrew (lembre-se, as 3 leis), e faz o filho de "filhinha", que é advogado, iniciar uma movimentação judicial para proteger os robôs. Também inicia-se uma briga para que a fábrica de robôs opere modificações em Andrew, modificações essas que serão feitas por todo o livro.
Andrew escreve um BestSeller sobre robôs, e depois pesquisa ciência, criando próteses no sentido de ajudar a raça humana e se "humanizar". A luta final de Andrew é para ser oficialmente considerado "humano", que acaba conseguindo apenas com sua morte, pois a mortalidade era, em seu ponto de vista, a única diferença restante entre ele e os humanos.
O livro, apesar de seu tamanho curto é carregado de percepções sagazes do autor. O medo humano em relação aos robôs é bem colocado e explorado, além de algumas questões sociais, como do episódio dos vândalos ou a primeira aparição do advogado da família, mas principalmente nas modificações internas que ocorrem na fábrica de Robôs. Andrew não é humano, e isso é fácil de perceber no livro, pois sua personalidade não é humana, nem mesmo comparando-a com outra mais aparentada como a de Meursault (de O Estrangeiro), mas também não podemos classificar Andrew como um robô (segundo as propostas do livro). Andrew não possui o seu lugar, é um exilado, um estrangeiro.
Por fim, ao livro segue-se o conto Círculo Vicioso, que também é uma história sobre robôs (mais tradicionais), porém, Círculo Vicioso passa-se em uma exploração no planeta mercúrio. É uma excelente história, mas não é profunda psicologicamente e socialmente como O Homem Bicentenário, embora também seja escrita com maestria e coerentemente. Produção da L&PM como sempre de boa qualidade, mesmo para os livros pequenos e baratos (esse custava 5,50R$ na época). Tradução em bom vernáculo. Portanto, um excelente livro para comprar e iniciar a leitura no universo assimoveano.
Essa resenha faz parte do Desafio Literário. Para conferir a minha lista do desafio clique aqui. Para conferir a lista de Abril Clique aqui. O livro pode ser encontrado facilmente em qualquer livraria, afinal, é um best Seller.
Nota do Elaphar: 9,0
Edição Lida:
ASSIMOV, Isaac. O Homem Bicentenário. Trad: Milton Persson. Porto Alegre: L&PM, 1997, 120p. (Coleção L&PM Pocket; v.57)
Geralmente, quando falamos sobre um livro que virou filme espera-se uma comparação entre ambos. Procurarei evitar por dois motivos: 1º Minha sensibilidade cinematográfica não é muito boa, e 2º o filme possui pouquíssima relação com o livro. Ambos são boas obras, mas diferem-se bastante entre si.
O Homem Bicentenário foi escrito para figurar em uma antologia (referente ao bicentenário de independência dos EUA)k, mas duas coisas saíram erradas: o texto ficou duas vezes maior do que deveria e o projeto da antologia não avançou. Em contrapartida, ganhamos um dos melhores contos de Sci-fi.
Seguindo o mote das 3 leis robóticas (que não sei se surgiram em Círculo Vicioso ou Eu Robô) inicia-se o livro. Conhecemos então Andrew, um robô diferente. A família (os donos de Andrew) é composta pela mãe, o pai, e duas filhas (a mais nova o robô chama de filhinha até sua morte depois dos 80 anos). Todos gostam de Andrew, que é um verdadeiro artista e recebe bastante dinheiro, que usa para comprar sua alforria, o que deixa o pai furioso.
Após a morte do pai, Andrew passa a andar vestido, o que causa indignação geral. Acontece um terrível episódio, onde dois jovens exploram Andrew (lembre-se, as 3 leis), e faz o filho de "filhinha", que é advogado, iniciar uma movimentação judicial para proteger os robôs. Também inicia-se uma briga para que a fábrica de robôs opere modificações em Andrew, modificações essas que serão feitas por todo o livro.
Andrew escreve um BestSeller sobre robôs, e depois pesquisa ciência, criando próteses no sentido de ajudar a raça humana e se "humanizar". A luta final de Andrew é para ser oficialmente considerado "humano", que acaba conseguindo apenas com sua morte, pois a mortalidade era, em seu ponto de vista, a única diferença restante entre ele e os humanos.
O livro, apesar de seu tamanho curto é carregado de percepções sagazes do autor. O medo humano em relação aos robôs é bem colocado e explorado, além de algumas questões sociais, como do episódio dos vândalos ou a primeira aparição do advogado da família, mas principalmente nas modificações internas que ocorrem na fábrica de Robôs. Andrew não é humano, e isso é fácil de perceber no livro, pois sua personalidade não é humana, nem mesmo comparando-a com outra mais aparentada como a de Meursault (de O Estrangeiro), mas também não podemos classificar Andrew como um robô (segundo as propostas do livro). Andrew não possui o seu lugar, é um exilado, um estrangeiro.
Por fim, ao livro segue-se o conto Círculo Vicioso, que também é uma história sobre robôs (mais tradicionais), porém, Círculo Vicioso passa-se em uma exploração no planeta mercúrio. É uma excelente história, mas não é profunda psicologicamente e socialmente como O Homem Bicentenário, embora também seja escrita com maestria e coerentemente. Produção da L&PM como sempre de boa qualidade, mesmo para os livros pequenos e baratos (esse custava 5,50R$ na época). Tradução em bom vernáculo. Portanto, um excelente livro para comprar e iniciar a leitura no universo assimoveano.
Essa resenha faz parte do Desafio Literário. Para conferir a minha lista do desafio clique aqui. Para conferir a lista de Abril Clique aqui. O livro pode ser encontrado facilmente em qualquer livraria, afinal, é um best Seller.
Nota do Elaphar: 9,0
Edição Lida:
ASSIMOV, Isaac. O Homem Bicentenário. Trad: Milton Persson. Porto Alegre: L&PM, 1997, 120p. (Coleção L&PM Pocket; v.57)
sexta-feira, 8 de abril de 2011
O Guia do Mochileiro das Galáxias - Douglas Adams
Partindo do título do livro, a obra começa falando sobre o que é "O Guia do Mochileiro das Galáxias". No universo ficcional, o Guia é o maior Best Seller da galáxia, basicamente uma enciclopédia para poder viajar pelos quatro cantos da galáxia gastando pouco, isso supondo que a galáxia tenha cantos.
O livro conta a humorada história de Arthur Dent após a destruição do planeta terra. Arthur acompanha o alienígena Ford Perfect em uma jornada pelo espaço, e devido uma série de acontecimentos "muito improváveis" acabam se juntando ao presidente da galáxia, sua assistente e um robô maníaco-depressivo.
Primeiro vamos falar dos personages. Arthur é um personagem padrão, e se comporta de forma muito estranha, mas lembre-se que ele é um "estrangeiro", pois nunca viajou pelo universo. Ford Perfect é simplesmente um dos personagens mais mal escritos que já vi. O livro tenta nos mostrar um Ford Perfect estável, com um comportamento X, mas a narração mostra que o comportamento de FP não é X, mas uma mistura de Y e Z. Suas obsevações sobre os humanos são extremamente falhas, e não se aplicam aos alemães (tá legal, a piada foi péssima, admito). O padrão de comportamento que o livro tenta nos dá de Ford é falho, e mais falho é seu comportamento na diegese.
Entretanto, os outros personagens são bem melhor escritos. Zaphod Beeblebrox é um idiota, que de tão idiota e impulsivo chega a ser genial. Sua assistente é apagada, mas consistente. Marvin é um robô carismático entre os leitores (é o personagem favorito da maioria dos leitores, mas não meu), e possui uma inconstância constante, por isso também é um personagem bem escrito.
O Guia do Mochileiro das Galáxias não é um livro de humor tão idiota como pode parecer à primeira vista (mas também não é tão genial quanto nos sugere o prefácio). A obra é uma ácida critica contra a burocracia e a ordem social. Apesar da critica, o prefaciador empolgou-se demais ao afirmar a genialidade, filosofia e cientificidade da obra. Há uma série de falhas grotescas (desconsiderando o humor e fluência) no plano Científico, Linguístico e Filosófico. Acho um extremo exagero relacionar o "gerador de improbabilidade finita" com a "abordagem de caminho integral" de Feynman. Além disso aparentemente Douglas Adams tem um problema (bastante comum diga-se de passagem) absurdo com o conceito filosófico de Lógica. Apesar de tudo, a critica da obra é bastante inteligente, principalmente no que se refere à habitos desnecessários, a burocracia e as classes oprimidas.
O livro é bem humorado, produção gráfica de alta qualidade (miolo em pólem) e uma tradução escrita em bom vernáculo. Claro, possui um "15 milhões de exemplares vendidos no mundo" bem no topo da capa, o que pra mim não significa nada. Não sei da qualidade da tradução como "tradução", pois nada nem ninguem vai me obrigar a ler esse livro em inglês.
Essa resenha faz parte do Desafio Literário. Para conferir a minha lista do desafio clique aqui. Para conferir a lista de Abril Clique aqui. O livro pode ser encontrado facilmente em qualquer livraria, afinal, é um best Seller.
Nota do Elaphar: 8,3
Edição Lida:
ADAMS, Douglas. O Guia do Mochileiro das Galáxias. Trad: Paulo Fernando Henriques Britto & Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Sextante, 2009, 204p. (O Guia do Mochileiro das Galáxias; v.1)
O livro conta a humorada história de Arthur Dent após a destruição do planeta terra. Arthur acompanha o alienígena Ford Perfect em uma jornada pelo espaço, e devido uma série de acontecimentos "muito improváveis" acabam se juntando ao presidente da galáxia, sua assistente e um robô maníaco-depressivo.
Primeiro vamos falar dos personages. Arthur é um personagem padrão, e se comporta de forma muito estranha, mas lembre-se que ele é um "estrangeiro", pois nunca viajou pelo universo. Ford Perfect é simplesmente um dos personagens mais mal escritos que já vi. O livro tenta nos mostrar um Ford Perfect estável, com um comportamento X, mas a narração mostra que o comportamento de FP não é X, mas uma mistura de Y e Z. Suas obsevações sobre os humanos são extremamente falhas, e não se aplicam aos alemães (tá legal, a piada foi péssima, admito). O padrão de comportamento que o livro tenta nos dá de Ford é falho, e mais falho é seu comportamento na diegese.
Entretanto, os outros personagens são bem melhor escritos. Zaphod Beeblebrox é um idiota, que de tão idiota e impulsivo chega a ser genial. Sua assistente é apagada, mas consistente. Marvin é um robô carismático entre os leitores (é o personagem favorito da maioria dos leitores, mas não meu), e possui uma inconstância constante, por isso também é um personagem bem escrito.
O Guia do Mochileiro das Galáxias não é um livro de humor tão idiota como pode parecer à primeira vista (mas também não é tão genial quanto nos sugere o prefácio). A obra é uma ácida critica contra a burocracia e a ordem social. Apesar da critica, o prefaciador empolgou-se demais ao afirmar a genialidade, filosofia e cientificidade da obra. Há uma série de falhas grotescas (desconsiderando o humor e fluência) no plano Científico, Linguístico e Filosófico. Acho um extremo exagero relacionar o "gerador de improbabilidade finita" com a "abordagem de caminho integral" de Feynman. Além disso aparentemente Douglas Adams tem um problema (bastante comum diga-se de passagem) absurdo com o conceito filosófico de Lógica. Apesar de tudo, a critica da obra é bastante inteligente, principalmente no que se refere à habitos desnecessários, a burocracia e as classes oprimidas.
O livro é bem humorado, produção gráfica de alta qualidade (miolo em pólem) e uma tradução escrita em bom vernáculo. Claro, possui um "15 milhões de exemplares vendidos no mundo" bem no topo da capa, o que pra mim não significa nada. Não sei da qualidade da tradução como "tradução", pois nada nem ninguem vai me obrigar a ler esse livro em inglês.
Essa resenha faz parte do Desafio Literário. Para conferir a minha lista do desafio clique aqui. Para conferir a lista de Abril Clique aqui. O livro pode ser encontrado facilmente em qualquer livraria, afinal, é um best Seller.
Nota do Elaphar: 8,3
Edição Lida:
ADAMS, Douglas. O Guia do Mochileiro das Galáxias. Trad: Paulo Fernando Henriques Britto & Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Sextante, 2009, 204p. (O Guia do Mochileiro das Galáxias; v.1)
domingo, 3 de abril de 2011
Do Jeito Delas: vozes femininas de língua inglesa - Trad: Jorge Wanderley
Essa antologia foi fundada a partir de três afinidades: as escritoras são mulheres, de língua inglesa e foram traduzidas por Jorge Wanderley. Para quem não conhece, Jorge Wanderley foi um grande tradutor brasileiro (falecido em 1999), que traduziu os 154 Sonetos de Shakespeare, o Inferno de Dante, o Corvo de Poe e várias antologias de poetas anglófonos, além de sua obra como poeta. Em suas antologias, não costumava diferenciar homens e mulheres, entretanto, esta antologia póstuma contém apenas mulheres.
Mais do que simples questões de gênero puramente ditas, há um fio que conduz a poesia dessas mulheres, que é o que o grande Camus chamaria de Absurdo; essas mulheres são extremamente consientes do absurdo da existência.
O que me chamou a atenção nesse volume foi a quantidade de nomes desconhecidos. Exceto Plath, Sexton e Dickson (além de já ter ouvido Bishop, sem nunca ler nada de sua obra), nenhum outro nome me soava meramente familiar. São ao todo 12 poetas (18 poesias), com suas poesias muito bem traduzidas e 3 excelentes ensaios sobre a biografia e poética das escritoras. Apesar de poucas poesias, os maravilhosos ensaios valem a pena.
Falando das poesias: a maioria delas possui um nível de obscuridade que as torna impenetrável.
Sylvia Plath é de longe (junto de Dickinson) a mais conhecida, e sua poética é bastante peculiar. Colher Amoras [Blackberrying] e Outono de Rã [Frog Autumm] são poesias tão diferentes entre si que dariam todo um ensaio. Se você não conhece Plath, deve conhecê-la. Já Anne Sexton, que conhecia mas não apreciava, me surpreendeu com o A Mulher do Fazendeiro [The Farmer's Wife], que é simplesmente a melhor poesia do livro (apesar de ser também a tradução mais "fraca"). Vou passar a ler a poesia de Sexton.
Emiy Dickinson está em extrema moda nos últimos dias, possuindo fans incondicionais. Recentemente ganhou uma grande coleção traduzida por José Lira. Geralmente conhecida como "poeta para poetas", seu estilo é inovador em todos os sentidos. Seus poemas curtos e concisos ficam entre o compreensível e o incompreensível. Mas não se engane, traduzir Dickinson não é uma tarefa fácil.
Quanto às outras poetas, poucas chamam atenção, e entre elas inclui-se Marianne Moore (com Poesia e Que são os Anos), Louise Bogan (com fragmentos de Segundo o Persa) e Denise Levertov (com O Segredo). As outras traduções são boas, mas as poesias pouco me cativaram, exceto as já citadas.
Como falei, os ensaios são excelentes, nos mostrando o lado biográfico e a obra poetica de todas as escritoras. A produção gráfica da 7Letras é outra obra de arte a parte. Capa, orelha, lombada, tudo excelente, em ótimo papel pólem de 90g/m².
Mais do que simples questões de gênero puramente ditas, há um fio que conduz a poesia dessas mulheres, que é o que o grande Camus chamaria de Absurdo; essas mulheres são extremamente consientes do absurdo da existência.
O que me chamou a atenção nesse volume foi a quantidade de nomes desconhecidos. Exceto Plath, Sexton e Dickson (além de já ter ouvido Bishop, sem nunca ler nada de sua obra), nenhum outro nome me soava meramente familiar. São ao todo 12 poetas (18 poesias), com suas poesias muito bem traduzidas e 3 excelentes ensaios sobre a biografia e poética das escritoras. Apesar de poucas poesias, os maravilhosos ensaios valem a pena.
Falando das poesias: a maioria delas possui um nível de obscuridade que as torna impenetrável.
Sylvia Plath é de longe (junto de Dickinson) a mais conhecida, e sua poética é bastante peculiar. Colher Amoras [Blackberrying] e Outono de Rã [Frog Autumm] são poesias tão diferentes entre si que dariam todo um ensaio. Se você não conhece Plath, deve conhecê-la. Já Anne Sexton, que conhecia mas não apreciava, me surpreendeu com o A Mulher do Fazendeiro [The Farmer's Wife], que é simplesmente a melhor poesia do livro (apesar de ser também a tradução mais "fraca"). Vou passar a ler a poesia de Sexton.
Emiy Dickinson está em extrema moda nos últimos dias, possuindo fans incondicionais. Recentemente ganhou uma grande coleção traduzida por José Lira. Geralmente conhecida como "poeta para poetas", seu estilo é inovador em todos os sentidos. Seus poemas curtos e concisos ficam entre o compreensível e o incompreensível. Mas não se engane, traduzir Dickinson não é uma tarefa fácil.
Quanto às outras poetas, poucas chamam atenção, e entre elas inclui-se Marianne Moore (com Poesia e Que são os Anos), Louise Bogan (com fragmentos de Segundo o Persa) e Denise Levertov (com O Segredo). As outras traduções são boas, mas as poesias pouco me cativaram, exceto as já citadas.
Como falei, os ensaios são excelentes, nos mostrando o lado biográfico e a obra poetica de todas as escritoras. A produção gráfica da 7Letras é outra obra de arte a parte. Capa, orelha, lombada, tudo excelente, em ótimo papel pólem de 90g/m².
quarta-feira, 23 de março de 2011
O Juiz e seu Carrasco - Friedrich Dürrenmatt
No início do mês falei que março seria um mês Alemão, e agora vos apresento Dürrenmatt (que não é alemão e sim suíço, mas de língua alemã). Para quem não conhece, Friedrich Dürrenmatt é um escritor (principalmente de teatro) contemporâneo bastante famoso nos países germanófonos, mas aqui no Brasil bem pouco lido. Ao que me consta, em língua portugesa temos apenas O Juiz e Seu Carrasco e 3 contos (A Pane, O Túnel e O Cão) reunidos em um lívro e em duas antologias, além de um texto teórico sobre o teatro (Problemas do Teatro) que não nos interessa no presente momento.
O Juiz e seu Carrasco é uma novela policial, uma das especialidades do autor, que conta a história de um polícial que foi assassinado sob circunstâncias misteriosas. O comissário Bärlach decide investigar essa morte, e devido à pressões internas, acaba tendo de aceitar por companheiro Tschanz, policial criminalisticamente exemplar. Somam-se aos personagens a família de Schmied, o policial Clenin (que descobre o corpo de Schmied) e outras figuras. Além disso, cada personagem possui uma história obscura, principalmente Bärlach, que possui uma competição antiga, que se resolve nesse livro.
O livro é profundo no psicológico das personagens e complexo em suas ligações. Há no livro a presença de vários conflitos, entre eles a luta contra a morte (Bärlach está muito doente, quase morto), contra as intrigas policiais, contra o passado, contra a dicotomia justiça-crime.
Vou ser bastante franco, como é de meu feitiu. Minha primeira impressão do livro não foi boa, a história parecia banal, os personagens me pareceram (à primeira vista) artificiais e a linguagem sem nada de especial. Entretanto, uma coisa é fato, nunca um romance policial havia me surpreendido em seu desfecho (exceto os dois primeiros que li, a saber: As Aventuras de Sherlock Holms e Um Estudo em Vermelho de Doyle). Nem Simenon, nem Piglia, nem Doyle, nem Greene, nem Dan Brown nem nenhum outro escritor ou história policial me foram surpreendentes nesses 5 anos e meio de leitura. Dan Brown nos dá em seus livros (exceto Ponto de Impacto, que não posso julgar pois não li) o desfecho e o criminoso no meio do livro; em Fortaleza Digital sabemos desde o 10º capítulo quem manda o assassino e porque assim como é óbvio que a senha do vírus é 3 (a partir da dica absurda dada), e não consigo entender como os personagens são idiotas a ponto de não perceberem isso. Em O Terceiro Homem de Greene, podemos deduzir que lime está vivo desde a descoberta de um "terceiro homem". O mesmo acontece em Simenon, Doyle, Píglia e diversos autores nacionais.
Não me entendam mal, sou fã de romances policiais e criminais, eles só nunca conseguem me surpreender. O diferencial não está no desfecho surpreendente, mas na criatividade da história (e seus pormenores) e na linguagem. Em O Juiz e seu Carrasco os personagens e as intrigas são bem interessantes, mas o que me chocou foi o fato de não ter conseguido predizer os 2 ultimos capítulos do livro. Durante todo o desenrolar da história, fui chegando a conclusões cada vez mais concretas, e das duas possibilidades que cogitei uma vi concretizada no 19º capítulo... para no fim descobrir que estava errado. O ponto forte do escritor é não "inocentar" ou "descentralizar" o desfecho da narrativa, mas atravez da linguagem elaborada nos focalizar em partes específicas da narrativa, e assim as provas (que estão para um desfecho) são vistas sob outro ângulo.
Se o forte de uma narrativa policial deve ser a surpresa, essa é a melhor que já li até hoje. Mas (sempre tem um mas), ainda há uma coisa que falta nesse livro, pois não consegui gostar tanto dele ainda assim. A surpresa compensou minha leitura quase forçada, mas não a anulou. Se me perguntarem hoje para escolher entre O Juiz e seu Carrasco de Friedrich Dürrenmatt e O Terceiro Homem de Grahan Greene, optarei por ambos. O primeiro ganha pela surpresa, a profundidade psicológica e os conflitos, o segundo pela criatividade da história, por como ela é desenrolada e o carisma dos personagens. Ambas as histórias são sombrias e cômicas ao mesmo tempo.
Avaliação final: Não é perda de tempo ler esse livro, pois é uma esperiência nova, além de que o livro é barato (8 R$) e curto (112pgs em formaton de bolso). A edição da L&PM como sempre, a melhor da categoria.
Nota do Elaphar: 8,6
Edição Lida:
DÜRRENMATT, Friedrich. O Juiz e seu Carrasco. Trad: Kurt Jahn. Porto Alegre: L&PM, 2008, 112p. (L&PM Pocket Plus, 681)
O Juiz e seu Carrasco é uma novela policial, uma das especialidades do autor, que conta a história de um polícial que foi assassinado sob circunstâncias misteriosas. O comissário Bärlach decide investigar essa morte, e devido à pressões internas, acaba tendo de aceitar por companheiro Tschanz, policial criminalisticamente exemplar. Somam-se aos personagens a família de Schmied, o policial Clenin (que descobre o corpo de Schmied) e outras figuras. Além disso, cada personagem possui uma história obscura, principalmente Bärlach, que possui uma competição antiga, que se resolve nesse livro.
O livro é profundo no psicológico das personagens e complexo em suas ligações. Há no livro a presença de vários conflitos, entre eles a luta contra a morte (Bärlach está muito doente, quase morto), contra as intrigas policiais, contra o passado, contra a dicotomia justiça-crime.
Vou ser bastante franco, como é de meu feitiu. Minha primeira impressão do livro não foi boa, a história parecia banal, os personagens me pareceram (à primeira vista) artificiais e a linguagem sem nada de especial. Entretanto, uma coisa é fato, nunca um romance policial havia me surpreendido em seu desfecho (exceto os dois primeiros que li, a saber: As Aventuras de Sherlock Holms e Um Estudo em Vermelho de Doyle). Nem Simenon, nem Piglia, nem Doyle, nem Greene, nem Dan Brown nem nenhum outro escritor ou história policial me foram surpreendentes nesses 5 anos e meio de leitura. Dan Brown nos dá em seus livros (exceto Ponto de Impacto, que não posso julgar pois não li) o desfecho e o criminoso no meio do livro; em Fortaleza Digital sabemos desde o 10º capítulo quem manda o assassino e porque assim como é óbvio que a senha do vírus é 3 (a partir da dica absurda dada), e não consigo entender como os personagens são idiotas a ponto de não perceberem isso. Em O Terceiro Homem de Greene, podemos deduzir que lime está vivo desde a descoberta de um "terceiro homem". O mesmo acontece em Simenon, Doyle, Píglia e diversos autores nacionais.
Não me entendam mal, sou fã de romances policiais e criminais, eles só nunca conseguem me surpreender. O diferencial não está no desfecho surpreendente, mas na criatividade da história (e seus pormenores) e na linguagem. Em O Juiz e seu Carrasco os personagens e as intrigas são bem interessantes, mas o que me chocou foi o fato de não ter conseguido predizer os 2 ultimos capítulos do livro. Durante todo o desenrolar da história, fui chegando a conclusões cada vez mais concretas, e das duas possibilidades que cogitei uma vi concretizada no 19º capítulo... para no fim descobrir que estava errado. O ponto forte do escritor é não "inocentar" ou "descentralizar" o desfecho da narrativa, mas atravez da linguagem elaborada nos focalizar em partes específicas da narrativa, e assim as provas (que estão para um desfecho) são vistas sob outro ângulo.
Se o forte de uma narrativa policial deve ser a surpresa, essa é a melhor que já li até hoje. Mas (sempre tem um mas), ainda há uma coisa que falta nesse livro, pois não consegui gostar tanto dele ainda assim. A surpresa compensou minha leitura quase forçada, mas não a anulou. Se me perguntarem hoje para escolher entre O Juiz e seu Carrasco de Friedrich Dürrenmatt e O Terceiro Homem de Grahan Greene, optarei por ambos. O primeiro ganha pela surpresa, a profundidade psicológica e os conflitos, o segundo pela criatividade da história, por como ela é desenrolada e o carisma dos personagens. Ambas as histórias são sombrias e cômicas ao mesmo tempo.
Avaliação final: Não é perda de tempo ler esse livro, pois é uma esperiência nova, além de que o livro é barato (8 R$) e curto (112pgs em formaton de bolso). A edição da L&PM como sempre, a melhor da categoria.
Nota do Elaphar: 8,6
Edição Lida:
DÜRRENMATT, Friedrich. O Juiz e seu Carrasco. Trad: Kurt Jahn. Porto Alegre: L&PM, 2008, 112p. (L&PM Pocket Plus, 681)
segunda-feira, 21 de março de 2011
Fernão Capelo Gaivota (Jonathan Livingston Seagull) - Richard Bach
Fernão Capelo Gaivota (Jonathan Livingston Seagull) é um BestSeller americano escrito pelo piloto/escritor Richard Bach. Todos os livros de Bach envolvem (direta ou indiretamente) o voo, e Fernão Capelo Gaivota não é diferente. Vendeu milhares de cópias, foi publicado em diversos países, ganhando inumeras traduções; sorte que os outros livros do autor não tiveram. O Brasil traduziu mais da metade das obras do escritor, mas ainda há livros inéditos. Alguns devem se perguntar porque coloquei o título em português e inglês, se não tenho o hábito de fazê-lo. Irei responder em breve.
A primeira impressão que tive ao ler esse livro foi: Tem alguma coisa errada com essa tradução! Como estava sem computador, continuei a leitura normalmente, mas hoje li parcialmente (mais da metade do livro) a versão britânica (da Element, daí o título nas duas línguas), e aí cheguei a uma nova conclusão: não havia nada de errado com a tradução! o livro é isso mesmo. Não consigo entender o porquê do sucesso do livro. Não há nada de mais nele.
A história é uma grande fábula, que conta a história de Fernão Capelo (ou Jonathan Livingston), que é uma gaivota ansiosa por "aprender" a voar, e é banida por suas atitudes. Minha primeira crítica contra essa obra é quanto a linguagem utilizada. Muito do que está escrito no livro é completamente inútil para a própria compreensão da obra, isto é, há muitas passagens que não são essenciais. Ainda tratando da linguagem, muitas imagens evocadas por Bach são ridículas, distoantes do contexto original, e muitas vezes ele cria aforismos de péssima qualidade.
Muitos consideram Fernão Capelo Gaivota (Jonathan Livingston Seagull) como obra filosófica e seu escritor como um grande filósofo, mas isso está muito longe de se aproximar da verdade. De fato, há filosofia presente em FCG (JLS), mas não a filosofia de Bach, mas sim um tipo de neoplatonismo "popular", no que se refere à ilusão do mundo sensível e às ideias geradoras. Provavelmente (esse é uma opinião minha), Richard Bach conheceu platão a partir da filosofia escolástica agostiniana, pois suas ideias estão repletas de Agostinho de Hipona, mas de uma forma ou de outra, Bach não dialoga com a filosofia, mas sim acrescenta-a ao seu livro de forma bastante vulgar (como é usada por Bach [ordinary], no sentido de comum). Jamais posso considerar Bach como filósofo, pois a filosofia presente no livro é reproduzida e não desenvolvida.
Ainda detonando o livro, além da linguagem, da acriatividade e da "filosofia" do livro, a história não me cativou nem um pouco. O espaço da narrativa é pobre até mesmo para a proposta do livro (de simplicidade e pouca descritividade), a narração é fraca e malfeita (em decorrencia da linguagem) e os personagens são péssimos estereótipos, retirados da bíblia cristã. Bach propõe um Fernão "quase-profeta", mas diferente dos livros sagrados, carece de uma boa psicologia em sua criação. Comparando a psicologia de Jonas, Daniel ou Paulo com Fernão vemos o quanto Bach foi infeliz em sua criação (isso considerando os Jonas, Daniel e Paulo como PERSONAGENS e seus textos como CRIAÇÃO LITERÁRIA). Creio que a pouca descritividade dos ambientes também decorra de influência do Tanakh, mas novamente foi infeliz. O que é descrito por Bach geralmente é desnecessário. E por fim, a tradução brasileira em alguns momentos gera passagens que parecem de um português alienígena.
Agor a, vou falar um pouco das coisas boas do livro. A linguagem (mesmo ruim) é simples, e permite uma leitura rápida e sem ter de repetir pontos do livro (como em uma leitura mais elaborada, como Ulysses). O livro é curtíssimo, pequeno, com margens e fonte grande e com páginas e páginas de fotos, o que permite que eu afirme que não perdi nem uma hora do meu tempo lendo esse livro. As fotos (para quem é fã da arte da fotografia) de Russell Munson são muito boas, e a tradução é competente (apesar de umas passagens ou outras serem esquisitas). É um livro que não possui nada de mais, e, entre esse e Ilusões (do mesmo autor), fico com o segundo. Em breve resenho Ilusões.
Essa resenha faz parte do Desafio Literário. Para conferir a minha lista do desafio clique aqui. Para conferir a lista de Março Clique aqui.
Nota do Elaphar: 7,3
Edições Lidas:
BACH, Richard. Fernão Capelo Gaivota. Fotografias de Russell Munson. Trad: Antônio Ramos Rosa e Madalena Rosález. Rio de Janeiro: Nórdica, [s/d], 152p.
BACH, Richard. Jonathan Livingston Seagull. Photography by Russell Munson. Hammersmith[London]: Element Press, 2003.
A primeira impressão que tive ao ler esse livro foi: Tem alguma coisa errada com essa tradução! Como estava sem computador, continuei a leitura normalmente, mas hoje li parcialmente (mais da metade do livro) a versão britânica (da Element, daí o título nas duas línguas), e aí cheguei a uma nova conclusão: não havia nada de errado com a tradução! o livro é isso mesmo. Não consigo entender o porquê do sucesso do livro. Não há nada de mais nele.
A história é uma grande fábula, que conta a história de Fernão Capelo (ou Jonathan Livingston), que é uma gaivota ansiosa por "aprender" a voar, e é banida por suas atitudes. Minha primeira crítica contra essa obra é quanto a linguagem utilizada. Muito do que está escrito no livro é completamente inútil para a própria compreensão da obra, isto é, há muitas passagens que não são essenciais. Ainda tratando da linguagem, muitas imagens evocadas por Bach são ridículas, distoantes do contexto original, e muitas vezes ele cria aforismos de péssima qualidade.
A mile from shore a fishing boat chummed the water, and the word for Breakfast Flock flashed through the air, till a crowd of a thousand seagulls came to dodge and fight for bits of food. It was another busy day beginning.A história não é original, mas não é de todo ruim. É uma fábula (com acréscimos desnecessários, mais ainda assim fábula) como outra qualquer, incluindo a questão moralizante. Não sou fã de literatura com finalidade moralizante, mas também não tenho nada contra elas.
Muitos consideram Fernão Capelo Gaivota (Jonathan Livingston Seagull) como obra filosófica e seu escritor como um grande filósofo, mas isso está muito longe de se aproximar da verdade. De fato, há filosofia presente em FCG (JLS), mas não a filosofia de Bach, mas sim um tipo de neoplatonismo "popular", no que se refere à ilusão do mundo sensível e às ideias geradoras. Provavelmente (esse é uma opinião minha), Richard Bach conheceu platão a partir da filosofia escolástica agostiniana, pois suas ideias estão repletas de Agostinho de Hipona, mas de uma forma ou de outra, Bach não dialoga com a filosofia, mas sim acrescenta-a ao seu livro de forma bastante vulgar (como é usada por Bach [ordinary], no sentido de comum). Jamais posso considerar Bach como filósofo, pois a filosofia presente no livro é reproduzida e não desenvolvida.
Ainda detonando o livro, além da linguagem, da acriatividade e da "filosofia" do livro, a história não me cativou nem um pouco. O espaço da narrativa é pobre até mesmo para a proposta do livro (de simplicidade e pouca descritividade), a narração é fraca e malfeita (em decorrencia da linguagem) e os personagens são péssimos estereótipos, retirados da bíblia cristã. Bach propõe um Fernão "quase-profeta", mas diferente dos livros sagrados, carece de uma boa psicologia em sua criação. Comparando a psicologia de Jonas, Daniel ou Paulo com Fernão vemos o quanto Bach foi infeliz em sua criação (isso considerando os Jonas, Daniel e Paulo como PERSONAGENS e seus textos como CRIAÇÃO LITERÁRIA). Creio que a pouca descritividade dos ambientes também decorra de influência do Tanakh, mas novamente foi infeliz. O que é descrito por Bach geralmente é desnecessário. E por fim, a tradução brasileira em alguns momentos gera passagens que parecem de um português alienígena.
Agor a, vou falar um pouco das coisas boas do livro. A linguagem (mesmo ruim) é simples, e permite uma leitura rápida e sem ter de repetir pontos do livro (como em uma leitura mais elaborada, como Ulysses). O livro é curtíssimo, pequeno, com margens e fonte grande e com páginas e páginas de fotos, o que permite que eu afirme que não perdi nem uma hora do meu tempo lendo esse livro. As fotos (para quem é fã da arte da fotografia) de Russell Munson são muito boas, e a tradução é competente (apesar de umas passagens ou outras serem esquisitas). É um livro que não possui nada de mais, e, entre esse e Ilusões (do mesmo autor), fico com o segundo. Em breve resenho Ilusões.
Essa resenha faz parte do Desafio Literário. Para conferir a minha lista do desafio clique aqui. Para conferir a lista de Março Clique aqui.
Nota do Elaphar: 7,3
Edições Lidas:
BACH, Richard. Fernão Capelo Gaivota. Fotografias de Russell Munson. Trad: Antônio Ramos Rosa e Madalena Rosález. Rio de Janeiro: Nórdica, [s/d], 152p.
BACH, Richard. Jonathan Livingston Seagull. Photography by Russell Munson. Hammersmith[London]: Element Press, 2003.
domingo, 6 de março de 2011
A Morte em Veneza - Thomas Mann
Demorei para postar essa resenha por apenas um motivo: não queria ser o primeiro do DL a postar... Acho que já falei o suficiente de Thomas Mann no post anterior, então, acho que posso me ater ao livro somente.
Morte em Veneza é considerada uma das obras primas de Mann, e alguns consideram o melhor livro escrito em alemão. É fácil dizer o motivo: o livro é impressionante. Mann descreve as emoções e sentimentos dos personagens de uma forma única. A história do livro, apesar de aparentemente simples, revela-se sublime. Há no livro uma infinidade de detalhes, entretanto, nenhum deles pode ser retirado da narrativa. Tudo na obra é essencial.
O livro conta a história do artista Gustav Aschenbach (ou Von Aschenbach), que decide tirar férias em Veneza, onde encontra um jovem polonês (Tadzio, diminutivo de Tadeus) belo, por quem se apaixona. Ao final do livro (como o próprio nome sugere), Aschenbach encontra sua morte. A Morte em Veneza é, sobretudo, um protesto em favor da beleza, do amor à beleza. Thomas Mann faz em seu livro, assim como muitos escritores de língua alemã (como Rilke, Goethe, Schiller e Hölderlin), um tratado sobre a filosofia da arte, assim como sobre a natureza do belo.
A caracteristica mais marcante do livro é a sinestesia. Os sentidos estão todos jogados no livro, correspondem, brigam, matizam-se. A obra, alem de textual, é extremamente visual, nos permitindo VER o que acontece de forma singular, além de ser uma obra muito musical, nos fazendo OUVIR o que se passa, as vozes, o movimento do mar. Os sabores e os cheiros também são fortíssimos na obra, mas não superam a musicalidade e visualidade.
Muito interessante como o desfecho da obra é formulado. A narrativa termina quando Aschenbach e Tadzio estão prestes a se separar. A morte é apenas um prolongamento de um único período (o último do livro): "E, ainda no mesmo dia, um mundo respeitosamente comovido recebeu a notícia de sua morte". A morte surge em A Morte em Veneza como resolução de todos os conflitos internos e obstáculos de sua pequena epopeia, como a salvação para o dilema do amor ao belo e da separação. Lembra-me Aquiles, para o qual a morte significou a imortalidade. Aschenbach morreu amando o belo, sendo um homem moral, e sem separar-se de seu afeto. É o fim de sua descoberta identitária e de tudo o que o afligia.
Por fim, segue uma passagem do livro, profunda em sua simplicidade, que gostei muito e desejo compartilhar.
Nota do Elaphar: 9,8
Edição Lida:
MANN, Thomas. Tônio Kroeger & A Morte em Veneza. Trad: Maria Deling. São Paulo: Abril Cultural, 1979, 170p
Morte em Veneza é considerada uma das obras primas de Mann, e alguns consideram o melhor livro escrito em alemão. É fácil dizer o motivo: o livro é impressionante. Mann descreve as emoções e sentimentos dos personagens de uma forma única. A história do livro, apesar de aparentemente simples, revela-se sublime. Há no livro uma infinidade de detalhes, entretanto, nenhum deles pode ser retirado da narrativa. Tudo na obra é essencial.
O livro conta a história do artista Gustav Aschenbach (ou Von Aschenbach), que decide tirar férias em Veneza, onde encontra um jovem polonês (Tadzio, diminutivo de Tadeus) belo, por quem se apaixona. Ao final do livro (como o próprio nome sugere), Aschenbach encontra sua morte. A Morte em Veneza é, sobretudo, um protesto em favor da beleza, do amor à beleza. Thomas Mann faz em seu livro, assim como muitos escritores de língua alemã (como Rilke, Goethe, Schiller e Hölderlin), um tratado sobre a filosofia da arte, assim como sobre a natureza do belo.
A caracteristica mais marcante do livro é a sinestesia. Os sentidos estão todos jogados no livro, correspondem, brigam, matizam-se. A obra, alem de textual, é extremamente visual, nos permitindo VER o que acontece de forma singular, além de ser uma obra muito musical, nos fazendo OUVIR o que se passa, as vozes, o movimento do mar. Os sabores e os cheiros também são fortíssimos na obra, mas não superam a musicalidade e visualidade.
O sol queimava-lhe o rosto e as mãos, o ar salino fortalecia-lhe o sentimento; e, assim como antes aplicava de imediato numa obra todo o descanso que lhe proporcionava o sono, a alimentação ou a natureza, assim deixou agora tudo o que o sol, a ociosidade e o ar marinho lhe davam em cotidiano fortalecimento consumir-se, magnânimo e desgovernado, em êxtase e sentimento. [...] O maravilhoso acontecimento [o primeiro clarão do dia] enchia de veneração sua alma enlevada pelo sono. Ainda o céu, a terra e o mar estavam envolvidos na fantástica, vítrea palidez da madrugada; ainda pairava uma estrela apagada no espaço. Mas vinha um sopro, uma notícia alada de residências inatingíveis, de que Eros se erguia do lado de seu esposo, e então aparecia aquele primeiro doce enrubrescer da faixa mais distante do céu e do mar, anunciando o sensualizar da criação. (p.139)Além da sinestesia da obra, A Morte em Veneza é cheia de pequenos detalhes e reflexões que são importantíssimas, que misteriosamente criam um livro complexo e denso, porém, divertido de se ler. É importante notar na obra a relevância que o ambiente (cenário) tem para o sentido do texto. Há também no livro uma incessante busca pela descoberta da auto-identidade do heroi, que é conflitante. Por um lado, o heroi é moral, por outro ele ama o que é belo, que aparece na figura de um garoto polonês (lembre-se que isso é Homossexualidade e Pedofilia, que eram inadmissíveis na decada de 20).
Muito interessante como o desfecho da obra é formulado. A narrativa termina quando Aschenbach e Tadzio estão prestes a se separar. A morte é apenas um prolongamento de um único período (o último do livro): "E, ainda no mesmo dia, um mundo respeitosamente comovido recebeu a notícia de sua morte". A morte surge em A Morte em Veneza como resolução de todos os conflitos internos e obstáculos de sua pequena epopeia, como a salvação para o dilema do amor ao belo e da separação. Lembra-me Aquiles, para o qual a morte significou a imortalidade. Aschenbach morreu amando o belo, sendo um homem moral, e sem separar-se de seu afeto. É o fim de sua descoberta identitária e de tudo o que o afligia.
Por fim, segue uma passagem do livro, profunda em sua simplicidade, que gostei muito e desejo compartilhar.
A felicidade do literato é o pensamento que é todo sentimento; é o sentimento que consegue tornar-se todo pensamento. Um pensamento palpitante como este, um sentimento tão exato, pertencia e obedecia ao solitário, naquela ocasião: isto é, que a natureza estremece de prazer quando o espírito se curva em adoração perante a beleza. Repentinamente desejou escrever. Na verdade, Eros ama a ociosidade, assim dizem, e só é criado para isto. [...] O assunto lhe era familiar, lhe era experiência; seu desejo de deixá-lo acender-se na luz de sua palavra tornou-se irresistível. E, na verdade, seu anseio era trabalhar na presença de Tadzio, e, escrevendo, adotar a figura do menino como modelo, deixar seu estilo seguir as linhas deste corpo que lhe parecia divino, levar sua beleza para o espiritual, como outrora a águia carregara o pastor troiano para o éter. Nunca sentira mais doce o prazer da palavra, nunca soubera que Eros estava assim na palavra, como nas horas perigosas e deliciosas, durante as quais, sentado em frente à rude mesa sobre o toldo, ne presença de seu ídolo e a música de sua voz nos ouvidos, formava uma pequena dissertação, de acordo com a beleza de Tadzio - aquela página e meia de escolhida prosa, cuja integridade, nobreza e ondulante tensão de sentimento dentro em pouco exaltaria a admiração de muitos. Por certo é bom que o mundo só conheça as belas obras sem conhecer suas origens e condições de formação, pois o conhecimento das fontes que serviram de inspiração ao artista muitas vezes o desconcertaria, desalentaria e assim anularia os efeitos do que é excelente. Estranhas horas! Estranha fadiga enervante! Estranha comunicação criadora do espírito com um corpo! Quando Aschenbach guardou seu trabalho e deixou a praia, sentiu-se esgotado, desconcertado mesmo, como se a sua consciência lhe fizesse queixas depois de uma digressão. (p.137)Essa resenha faz parte do Desafio Literário. Para conferir a minha lista do desafio clique aqui. Para conferir a lista de Março Clique aqui. Atualmente, Morte em Veneza é publicado pela Nova Fronteira, e é de fácil acesso em livrarias. A edição da Abril só é encontrada em sebos.
Nota do Elaphar: 9,8
Edição Lida:
MANN, Thomas. Tônio Kroeger & A Morte em Veneza. Trad: Maria Deling. São Paulo: Abril Cultural, 1979, 170p
quarta-feira, 2 de março de 2011
Tônio Kroeger - Thomas Mann
Agora que vim perceber que esse é o primeiro livro de Literatura Alemã que posto no Blog , e não consigo compreender como nunca resenhei um alemão. Thomas Mann é um dos maiores escritores do séc XX. Filho de um alemão com uma brasileira, teve como irmão o também escritor Heinrich Mann. Ganhou o Prêmio Nobel e foi cassado durante o período nazista. Criou o maior livro que tenho em minha biblioteca (A Montanha Mágica), com 1000 páginas em papel pólem.
Tônio Kroeger, ao meu ver, tem um certo ar de autobiografia de Mann. Kroeger (ou Kröger) é um burguês que sofre por ser fora do comum (escreve versos); sua mãe e seu nome são estrangeiros (assim como Mann). Há também uma tendência homossexual na infância de Kroeger para com seu amigo Hans (lembrando que Mann possuia tendências homossexuais que odiava).
Tônio Kroeger é um livro que mostra os complicados conflitos do ser humano, de sua infância, adolescência e fase adulta. Também é um tratado sobre arte, pois, as reflexões de Kroeger sobre a arte e a vida são profundíssimas, e só perdem para as de Rainer Maria Rilke (em breve resenharei algo sobre esse escritor, pois esse mês é alemão... Gott schütze Deutschland). Os detalhes e estados de espírito são mais importantes do que os acontecimentos em Tônio Kroeger.
Tônio Kroeger é um livro simples, porém profundo, escrito com maestria e possui uma temática interessante e criativa. O livro me cativou muito devido minha grande afinidade com o melancólico personagem principal (acho que sou algo entre Kroeger de Mann e Meursault de Camus). O livro é curto e pode ser lido e relido em pouco tempo.
Nota do Elaphar: 9,2
Edição Lida:
MANN, Thomas. Tônio Kroeger & A Morte em Veneza. Trad: Maria Deling. São Paulo: Abril Cultural, 1979, 170p
Tônio Kroeger, ao meu ver, tem um certo ar de autobiografia de Mann. Kroeger (ou Kröger) é um burguês que sofre por ser fora do comum (escreve versos); sua mãe e seu nome são estrangeiros (assim como Mann). Há também uma tendência homossexual na infância de Kroeger para com seu amigo Hans (lembrando que Mann possuia tendências homossexuais que odiava).
Tônio Kroeger é um livro que mostra os complicados conflitos do ser humano, de sua infância, adolescência e fase adulta. Também é um tratado sobre arte, pois, as reflexões de Kroeger sobre a arte e a vida são profundíssimas, e só perdem para as de Rainer Maria Rilke (em breve resenharei algo sobre esse escritor, pois esse mês é alemão... Gott schütze Deutschland). Os detalhes e estados de espírito são mais importantes do que os acontecimentos em Tônio Kroeger.
Tônio Kroeger é um livro simples, porém profundo, escrito com maestria e possui uma temática interessante e criativa. O livro me cativou muito devido minha grande afinidade com o melancólico personagem principal (acho que sou algo entre Kroeger de Mann e Meursault de Camus). O livro é curto e pode ser lido e relido em pouco tempo.
Nota do Elaphar: 9,2
Edição Lida:
MANN, Thomas. Tônio Kroeger & A Morte em Veneza. Trad: Maria Deling. São Paulo: Abril Cultural, 1979, 170p
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
O Estrangeiro - Albert Camus
Mais uma vez Camus, filósofo e escritor existencialista, amigo (e posteriormente ex-amigo) de Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir. O Estrangeiro é a obra mais conhecida do escritor (e recordista de vendas em versão de bolso na França), entretanto, diferentemente de A Queda, esse livro não se trata de um livro filosófico.
O livro narra a história de um argelino chamado Meursault, e é narrado pelo próprio personagem. O tempo da narrativa é posterior a diegese, entretanto, a distância temporal narrativa-diegese não é muito grande, e ambos os tempos são mutáveis. A história se inicia com a morte da mãe, e, sem demonstrar nenhuma reação exasperada, Meursault vai até o asilo, onde a vela e a enterra. No outro dia, Meursault começa um relacionamento com uma moça atraente chamada Marie. Depois vai trabalhar. Até esse ponto, percebemos que a morte da mãe não mudou em nada a vida do protagonista.
Os acontecimentos que se seguem envolvem os visinhos, e dentre eles Raymond, um proxeneta e afirma ser negociante, e Meursault é envolvido por uma série de situações que lhe são alheias, mas que devido à organização delas, acaba matando um árabe. A segunda parte se passa após o assassinato, onde o personagem está na cadeia, e há os inqueritos, defesa, julgamento e posteriormente a condenação à morte.
Muita coisa do perfil de Meursault chama a atenção, entre elas as suas respostas para tudo (que é basicamente um "Tanto faz" ou um "não sei"). O comportamento do protagonista é interpretado pela crítica como o de alguem completamente alheio a tudo o que narra e um ser desprovido de sentimentos. Eu, pessoalmente, discordo da opinião crítica.
Acho Meursault um ser humano pleno, e não acho que ele está completamente alheio ao que narra. Muito pelo contrário, acho que ele está sempre incluso dentro do que narra (embora muitas vezes deslocado, como um estrangeiro), porém de uma forma especial. A narração de Meursault não é completamente desprovida de sentimentos e impressões pessoais, apenas alguns sentimentos e impressões não se fazem presentes, e essa falta ínfima nos dá a impressão de que todos os outros faltam. O livro não é absurdo, mas sim muito natural, e por toda essa naturalidade, acaba aparentando-se absurdo. É um paradoxo que é muito bem aproveitado pelo escritor.
O último capítulo da 2ª parte é um caso bem especial. Esse capítulo é simplesmente fantástico e diferente de todos os outros capítulos do livro. Não me sinto apto, hoje, de comentar a grandeza dessas 10 páginas que estão dentro e fora do livro, pois tudo que disse antes (sobre Meursault e o natural-absurdo) não se aplicam nesse pedaço do livro. Fica a critério dos leitores se exprimirem à respeito.
Tentei primeiro ler esse livro em francês, mas não consegui, então apelei para uma tradução. A tradução de Rumjanek (Record-BestSeller-BestBolso) é muito bem escrita, e confio nela. Quanto à produção gráfica, gosto da edição da BestBolso, que é um exemplo de qualidade em livros de Bolso, exceto pela capa, que é muito fina. A produção gráfica da edição da Folio da Galimard é tão ruim que não vale nem a pena ser comentada, desde o papel, capa, fonte e tetc..
Nota do Elaphar: 9,5
Edição Lida:
CAMUS, Albert. O Estrangeiro. Trad: Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, 110p. (Edições BestBolso, 172)
O livro narra a história de um argelino chamado Meursault, e é narrado pelo próprio personagem. O tempo da narrativa é posterior a diegese, entretanto, a distância temporal narrativa-diegese não é muito grande, e ambos os tempos são mutáveis. A história se inicia com a morte da mãe, e, sem demonstrar nenhuma reação exasperada, Meursault vai até o asilo, onde a vela e a enterra. No outro dia, Meursault começa um relacionamento com uma moça atraente chamada Marie. Depois vai trabalhar. Até esse ponto, percebemos que a morte da mãe não mudou em nada a vida do protagonista.
Os acontecimentos que se seguem envolvem os visinhos, e dentre eles Raymond, um proxeneta e afirma ser negociante, e Meursault é envolvido por uma série de situações que lhe são alheias, mas que devido à organização delas, acaba matando um árabe. A segunda parte se passa após o assassinato, onde o personagem está na cadeia, e há os inqueritos, defesa, julgamento e posteriormente a condenação à morte.
Muita coisa do perfil de Meursault chama a atenção, entre elas as suas respostas para tudo (que é basicamente um "Tanto faz" ou um "não sei"). O comportamento do protagonista é interpretado pela crítica como o de alguem completamente alheio a tudo o que narra e um ser desprovido de sentimentos. Eu, pessoalmente, discordo da opinião crítica.
Acho Meursault um ser humano pleno, e não acho que ele está completamente alheio ao que narra. Muito pelo contrário, acho que ele está sempre incluso dentro do que narra (embora muitas vezes deslocado, como um estrangeiro), porém de uma forma especial. A narração de Meursault não é completamente desprovida de sentimentos e impressões pessoais, apenas alguns sentimentos e impressões não se fazem presentes, e essa falta ínfima nos dá a impressão de que todos os outros faltam. O livro não é absurdo, mas sim muito natural, e por toda essa naturalidade, acaba aparentando-se absurdo. É um paradoxo que é muito bem aproveitado pelo escritor.
O último capítulo da 2ª parte é um caso bem especial. Esse capítulo é simplesmente fantástico e diferente de todos os outros capítulos do livro. Não me sinto apto, hoje, de comentar a grandeza dessas 10 páginas que estão dentro e fora do livro, pois tudo que disse antes (sobre Meursault e o natural-absurdo) não se aplicam nesse pedaço do livro. Fica a critério dos leitores se exprimirem à respeito.
Tentei primeiro ler esse livro em francês, mas não consegui, então apelei para uma tradução. A tradução de Rumjanek (Record-BestSeller-BestBolso) é muito bem escrita, e confio nela. Quanto à produção gráfica, gosto da edição da BestBolso, que é um exemplo de qualidade em livros de Bolso, exceto pela capa, que é muito fina. A produção gráfica da edição da Folio da Galimard é tão ruim que não vale nem a pena ser comentada, desde o papel, capa, fonte e tetc..
Nota do Elaphar: 9,5
Edição Lida:
CAMUS, Albert. O Estrangeiro. Trad: Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, 110p. (Edições BestBolso, 172)
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