Mostrando postagens com marcador Literatura Clássica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura Clássica. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Lamentações de Jeremias - Anônimo

Mais um livro lido da Bíblia Cristã, dessa vez para o desafio Literário, em sequência à leitura do Livro de Jeremias, lido em Fevereiro. Esse é um dos menores livros da primeira parte, e não é própriamente histórico, mas construído em cima de um acontecimento histórico e catastrófico para o povo hebreu, que foi a destruição da nação de Israel e exílio na Babilônia. Já é um hábito, mas só para alertar vai o tão repetido aviso:
Alerta importante: Eu estou lendo os Lamentações de Jeremias como um texto LITERÁRIO, não RELIGIOSO. Qualquer personagem, acontecimentos e até mesmo Deus estão sendo vistos aqui como PERSONAGENS e TRAMAS literários puramente. Não está em cheque a religião, mas somente a literatura.
Não consigo compreender como nunca havia lido esse texto. É um dos menores da Bíblia, situado entre os livros proféticos, no entanto ficaria mais bem situado entre os poéticos, assim como os Salmos de Salomão. Sem dúvidas é o livro mais poético e mais assustador que já li dessa compilação.

O livro começa falando sobre a destruição da terra de Judá, assim como vai narrando com poeticidade e crueldade incomum toda a desolação, material e espiritual, do povo. O assassinato dos reis, dos velhos; a expulsão, o exílio babilônico, a escravidão e fome do povo, entre outras catástrofes, narradas de modo quase apocalíptico. A narração, a todo o momento, vem coberta de uma crítica agressiva contra Deus, que causou toda essa destruição, escravização e violência.

O livro é profundamente ambíguo. Por um lado o povo compreende sua culpa, mas critica Deus pela punição e por não lhes dar ouvidos. O povo compreende a piedade e miséricordia divina, mas Deus também possui ira tão infinita quanto misericórdia. O próprio conceito de misericórdia vem como ira impiedosa contra os inimigos.
Quem poderá falar e fazer acontecer, se o Senhor não o tiver decretado?
Não é da boca do Altíssimo que vêm tanto as desgraças como as bênçãos?
Como pode um homem reclamar quando é punido por seus pecados?
Examinemos e submetamos à prova os nossos caminhos, e depois voltemos ao Senhor.
Levantemos o coração e as mãos para Deus, que está nos céus, e digamos:
"Pecamos e nos rebelamos, e tu não nos perdoaste.
Tu te cobriste de ira e nos perseguiste, massacraste-nos sem piedade.
Tu te escondeste atrás de uma nuvem para que nenhuma oração chegasse a ti.
Tu nos tornaste escória e refugo entre as nações.
Todos os nossos inimigos escancaram a boca contra nós.
Sofremos terror e ciladas, ruína e destruição".
Lamentações 3:37-47 (Nova Versão Internacional)
 Ou então:
Olha para eles! Sentados ou em pé, zombam de mim com as suas canções.
Dá-lhes o que merecem, Senhor, conforme o que as suas mãos têm feito.
Coloca um véu sobre os seus corações e esteja a tua maldição sobre eles.
Persegue-os com fúria e elimina-os de debaixo dos teus céus, ó Senhor.
Lamentações 3:63-66 (Nova Versão Internacional)
 É um dos mais contundentes livros sobre a ira de Deus e a ira contra Deus. Muitas de suas passagens são assustadoramente belas, o que é muito comum na escrita de textos em tempos difíceis, como o Salmo 137, as poesias de Paul Celan ou os textos do nosso período ditatorial.

Há no mínimo algumas coisas interessantes que mostram, entre outras coisas, a diferença radical entre o pensamento judaico e o cristão. Pode-se perceber por exemplo que não se culpava algum Diabo todo o mal do mundo, principalmente porque aos judeus a ideia de Diabo era estranha, no entanto, todo o mal do mundo era causado pela ira divina. Deus continha todo o bem, tal qual continha todo o mal. O mal era muitas vezes até necessário, não só como punição, mas como disciplina. Percebe-se nas Lamentações essa dualidade do mal.

As lamentações diferem significativamente de capítulo a capítulo, e como as traduções da bíblia, tradicionalmente, buscam conservar prioritariamente o conteúdo "conceitual" e pouco buscam traduzir o estilo (só sei de um caso diferente, que é as transcriações bíblicas de Haroldo de Campos), pouco podemos prever do belíssimo estilo original que esses poemas contém. Uma verdadeira pena.

Sem dúvida é um exelente livro, que deveria ser lido por todos, independente da crença religiosa ou arreligiosa. É fácil de ser encontrado, pois se encontra em qualquer Bíblia Cristã ou Tanakh judaico. O número de traduções é tamanha, e as diferenças entre elas também.

domingo, 15 de abril de 2012

Clepsydra - Camilo Pessanha

Para o DL desse mês eu pretendia ler um autor de língua portuguêsa das colonias orientais (particularmente Macau e Timor-Leste), mas apesar da língua, simplesmente não consigo achar nenhum livro de escritores como José Silveira Machado e Venceslau de Morais (de Macau), ou Fernando Sylvan e Luís Cardoso de Noronha (do Timor-Leste). É incrível a incomunicabilidade entre os países lusófonos, apesar de falarem a mesma língua... é mais fácil ter acesso a um livro de um escritor sueco que de um escritor de Macau.

Acho que quase todos conhecem Camilo Pessanha, que é um dos mais representativos escritores de língua portuguesa. Era leitura obrigatória na época que fiz vestibular, mas como nunca leio o que sou obrigado a ler deixei de mão. Ainda bem, pois ele é um escritor incrível.

Nasceu em Portugal, mas trabalhou e morreu em Macau, de onde escreveu a maior parte de seus poemas. Sua verdadeira inspiração também adquiriu em Macau: o ópio. Camilo Pessanha é um caso particularmente interessante, seu livro (Clepsydra) foi lançado enquanto o poeta ainda vivia, e o título foi por ele escolhido, mas nunca chegou a ler seu livro e nem ao menos sabia que poesias havia nele. Foi organizado por outra pessoa, e como o poeta só escrevia drogado, nem sabia ao menos o que escrevia. Como poeta da escola simbolista, é muito prório escrever drogado...

A morte e a alucinação são temas super recorrentes no livro, desde seu primeiro poema (Inscripção), que é um ótimo exemplo da poética do autor:
INSCRPÇÃO
Eu vi a luz em um paiz perdido.
A minha alma é languida e inerme.
Oh! Quem podesse deslisar sem ruido!
No chão sumir-se, como faz um verme…
O livro é dividido em duas partes: Sonetos e Poesias. Nos Sonetos, Camilo mostra-se um grande sonetista da língua, como se observa nesses dois sonetos:
Esvelta surge! Vem das aguas, nua,
Timonando uma concha alvinitente!
Os rins flexiveis e o seio fremente…
Morre-me a bocca por beijar a tua.

Sem vil pudôr! Do que ha que ter vergonha?
Eis-me formoso, môço e casto, forte.
Tão branco o peito!—para o expôr á Morte…
Mas que ora—a infame!—não se te anteponha.

A hydra torpe!… Que a estrangulo… Esmago-a
De encontro á rocha onde a cabeça te ha-de,
Com os cabellos escorrendo agua,

Ir inclinar-se, desmaiar de amor,
Sob o fervor da minha virgindade
E o meu pulso de jovem gladiador.
Quem polluiu, quem rasgou os meus lençoes de linho,
Onde esperei morrer,—meus tão castos lençoes?
Do meu jardim exiguo os altos girasoes
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiêsco!)
A mesa de eu cear,—tabua tôsca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
—Da minha vinha o vinho acidulado e fresco…

Ó minha pobre mãe!… Não te ergas mais da cova,
Olha a noite, olha o vento. Em ruina a casa nova…
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais.
Alma da minha mãe… Não andes mais á neve,
De noite a mendigar ás portas dos casaes.
E em poesias se encontram algumas das mais famosas do poeta, como as belíssimas "Arcadas do Violoncelo"...

Para quem gosta dos poetas simbolistas, Camilo Pessanha fica entre os melhores, talvez melhor até que nosso Cruz e Sousa (alguns vão considerar isso uma blasfêmia). Sua poeticidade é vigorosa, seu estilo é bem definido, sua poética é formalmente rigorosa, com alguns tour de force que nos parecem bastante naturais. Enfim, um dos maiores poetas da língua portuguesa.

Nota do Elaphar: 9,6
Edição Lida: PESSANHA, Camilo. Clepsydra. Projeto Gutenberg, disponível em: http://www.gutenberg.org/cache/epub/3498/pg3498.html.

domingo, 8 de abril de 2012

Antologia do Conto Húngaro (Org. e Trad. Paulo Rónai)

Mais uma leitura para o Desafio Literário de 2012, e o tema desse mês é Escritor Oriental. ... Alguns devem estar se perguntando porque diabos escolhi uma antologia de contos húngaros como literatura Oriental se, como todos devem saber, a Hungria fica no centro da Europa,. ao lado da Áustria e outros países como a Romênia e Ucrânia. Lógico que não perguntei para a equipe do DL a validade de minha escolha (descaso esse que me faz pensar que um dia ainda vou ser expulso do desafio...), e agora vou explicá-la.

Questões como orientalidade vs ocidentalidade são muito defíceis de por um ponto final. Na resenha passada mostrei um desses problemas, mais próprio da poesia, que é a multiplicidade de vozes resultante de um processo tradutório. Outros problemas podem aparecer, no caso de um artista nascer em um lugar mas ser artisticamente de outro (como o caso do húngaro Lizst, que nem ao menos sabia falar a língua de seu país, ou no caso da nossa Clarice Lispector, ou no caso do poeta português Carlos de Oliveira, nascido em Belém), ou ainda mais grave é do autor possuir a influência de dois lugares distintos (como Nabokov, Beckett, ou Eliot)  ou até mesmo pertencer ora a um lugar, oura a outro (como o Vieira português e o Vieira brasileiro, ou o Stephan Zweig austríaco e o Zweig brasileiro, ou o Rilke alemão e o Rilke francês... etc...). O que tenho percebudo nas resenhas desse desafio é uma série de escritores nascidos em países do extremo oriente (principalmente Japão), mas que pertenceram de fato (socielmente, espiritualmente, linguísticamente e, por quê não, literariamente) a outro país, geralmente de lingua inglesa. Nacionalidade envolve muito mais que lugar de nascimento, não fosse assim não teríamos escritores alemães e austríacos nascidos em Praga ou na Romênia ou escritores brasileiros nascidos na Ucrânia.

Agora, o que tem a Hungria de oriental? Tudo e nada! Para que a escolha possa ser compreendida, deve-se tomar algumas lições de história, genética e linguísticas, e como estou meio sem tempo, vou resumir ao máximo. Todos devem conhecer as histórias dos Hunos, que foram um povo oriental (da região que corresponde a China e Mongólia) que fez o maior estrago no ocidente na Era Romana. Os magiares vieram junto com os hunos, e se estabeleceram no lugar (alguns Húngaros acreditam que os magiares são descendentes dos próprios hunos). Portanto, o povo magiar é um povo geneticamente oriental, e a língua húngara, apesar do alfabeto latino, é, como se é de esperar, também uma língua oriental, da família de línguas uralicas. Se considerarmos a teoria linguística das línguas uralo-altaicas, o húngaro é do mesmo tronco das línguas turca, japonesa, coreana e das diferentes línguas da mongólia (daí o fato de que em húnguaro o sobrenome é dito antes do prenome, no caso do tradutor seria Rónai Pál ['honai 'pa:l], abrasileirado para Paulo Rónai). Portanto, os Húngaros são etnicamente e linguísticamente provenientes da Asia, porém deslocados ao centro europeu onde possuem um sério conflito identitário entre oriente e ocidente. Por um lado tentam preservar a sua cultura, por outro a aspiração ocidental. Conhecer a cultura, a história e a literatura da Hungria é conhecer o cerne do problema Ocidente/Oriente.

E convenhamos, a história da Hungria é uma das mais poéticas do mundo: povo oriental vivendo em meio a uma cultura estranha, cristanizada à força, esmagada politicamente pela Áustria, posteriormente pela Alemanha e supostamente libertada pela URSS, o que fez uma série de chagas nesse povo. Diga-se de passagem, alguns dos melhores contos desse livro relatam direta ou indiretamente o conflito identitário entre ocidente e oriente, ou os conflitos políticos e incoerência social.

O número de contos nesse livro é bem grande (30), tanto quanto as variedades de temática e estilo, o que torna muito difícil falar sobre todos eles. Ainda assim vou tentar ao menos escrever uma linha sobre cada conto. Os autores estão em ordem cronológica de nascimento, e é curioso que os últimos escritores morreram praticamente todos no mesmo período (1944-1945), no final da ocupação nazista.


O primeiro escritor é um representante do romantismo literário, e seu conto (Divertimento Forçado) é interessante por mostrar a pretenção da nobreza húngara ao ocidentalismo, já que o barão (personagem principal) mistura locuções francesas e abusa de galicismos no seu discuraso, e apesar disso, acaba entrando em contato com um ambiênte completamente húngaro, diferentemente do ambiente nobre que era mais propriamente parisiense ou vienense. Provavelmente  o autor não tinha em mente esse conflito ocidente/oriente como ponto importante da sua obra, diferente de Ady Endre, que é bem posterior, que em seu conto intitulado Chabachef, O assassino relata um homem que é dois, um Ocidental parisiense e um Oriental tradicional, sendo que um desses homens faz coisas que o outro jamais sonharia; é uma narrativa que todos deveriam ler.

Os dois contos de Mikszáth Kálmán são de ordem cômica e irônica, mas demonstram um grande conhecimento do interior dos seres humanos. O primeiro conto é uma resposta à teoria literária (não sei por que quase todo escritor odeia os críticos literários), enquanto o segundo  é uma divertida história tragicômica de um médico tentando convencer um paciente a amputar seu braço para sobreviver; pode parecer frívolo, mas a narrativa é muito divertida, profunda e bem construída. Gárdonyi Géza aparece na antologia com dois contos bastante diferentes, um mais mítico-alegórico, o outrocom uma carga de significado maior, e ambos bem diferentes, aparentemente, do que seria o estilo normal do escritor em seus romances históricos O Homem Invisível e Estrelas de Eger. Szomory Desö é talvez o mais ocidental da coletânea, mas não o único, e é um tanto tagarela; seu conto definitivamente não me cativou.

Heltai Jenö é um escritor alegre e também um tanto sombrio, que viveu muitos anos. Apesar dos dois contos dele serem bons (particularmente o A Morte e o Médico), não chega a ser um escritor genial, além de sua personalidade ser fraca; é muito francês, e infelismente, inferior à muitos franceses também. Ady Endre é dos maiores escritores húngaros, e seu conto, como já foi dito, merece grande destaque por retratar com genialidade o conflito oriente/ocidente dentro da sociedade húngara. Krudy Gyula é uma grata surpresa nesse livro, seu conto Uma das Histórias do Soldado Raso Harras Rudolf é incrível, e um anacronismo moderno que deveria colocar esse entre as pérolas da contística mundial; é talvez o melhor conto da coletânea.

Os dois escritores que se seguem (Molnár Ferenc e Móricz Zsigmond) mostram mais profundamente o homem húngaro, particularmente o despossuído. Zsigmond é o melhor dos dois, e seus 3 contos são obras primas, de um naturalismo moderado e bem estruturado. Bárbaros figura entre os melhores contos do livro. Podemos compreender muito da cultura do país por estes contos, e essa cultura nos parece muito antiquada, ao nosso olhar ocidental, o que mostra um grande atraso da chegada do mundo "capitalista ocidental" em algumas regiões da hungria, que mais parecem feudos medievais, ao mesmo tempo que as grandes cidades parecem uma nova Viena.

Bíró Lajos é um escritor original e interessante, mas seu conto fica meio apagado em relação a outros do livro. Kaffka Margit é a única mulher do livro, e ainda por cima descendente de tchecos. Seu conto fala da pobresa melancólica, sem perspectivas, enquanto o humorista Kosztolányi Desö já é bem mais otimista, apesar de sarcástico e irônico, e aparece com cinco contos na antologia, todos eles aparentemente sem um foco na narrativa, mas na em uma ideia ou concelho, quase uma coda em seus contos. Destaque para Auréola Cinzenta e Aventura Búlgara.

Szép Ernö é dito como intraduzível, e o próprio tradutor diz que escolheu um conto que não é dos melhores de sua produção em respeito à "impossibilidade" de verter outros. Apesar de tudo, seu conto Murglics mostra-se de qualidade.

Karinthy Friges é escritor alegre, outro humorista, e até satirista, e seus três contos se mostram muito agradáveis de se ler. Molnár Ákos tem como biografia uma das histórias mais comoventes do livro, mas seu conto é um tanto alegre (apesar de que não deveriamos rir) e, junto de Pap Károly (também morto no ódio nazista) escrevem dois dos contos mais bem realizados do livro (Um Almoço e Música, respectivamente). Mais do que a qualidade literária, a temática dos interesses e opressão, além de exploração em diferentes esferas, são os temas dos dois contos, sendo o primeiro uma narrativa do chefe em relação aos empregados, que devido uma incompreensão é quase anedótico, e o segundo mostra a exploração familiar, que faz um pai querer, sem sucesso, vender o filho por álcool. Os dois contos através do riso da situação mostram graves incoerências e atrocidades da sociedade. Ambos figuram entre os melhores contos. Mesmo valor social possui o conto de Gelléri Andor Endre, que poderia muito bem ser escrito no Brasil sem problemas.


Os dois contistas e contos que faltam (O Criminoso de Márai Sándor e Madelon, a cachorra de Szerb Antal) são de grande valor literário, mesmo sem ser propriamente sociais ou propriamente "húngaros" (no sentido nacionalista). O criminoso recebe destaque devido ao trabalho metalinguístico e bom aproveitamento dos clichés da literatura policial, e como paródia do gênero é a mais bem realizada que conheço.

Por fim, o que posso dizer sobre a edição? 3 dos maiores nomes das letras nacionais assinam esse livro: Paulo Ronai (organização, estudo, tradução e notas), Guimarães Rosa (introdução) e Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira (revisão); ou seja, não se pode reclamar de nada. É um trabalho feito com amor, e a capa, apesar de simples, exemplifica muito bem a "alma" do livro. Os problemas do livro são só os que são comuns à toda antologia e à todo livro de uma língua muito diferente da nossa: a diferença da qualidade dos textos, a apresentação do escritor por "amostragem", na maioria das vezes imprecisa, a vontade de querer ler mais do mesmo autor e saber que não possui nada ou dele publicado (dos escritores aqui presentes só sei do livro Os Meninos da Rua Paulo de Molnár e O Homem Invisível de Gárdonyi publicados no Brasil), e, por fim, a dificuldade de pronunciar, e por conseguinte memorizar, a maioria dos nomes próprios.

Recomendadíssimo, apesar de difícil de achar, é um livro indispensável para se ter em casa.

Nota do Elaphar: 9,8
Edição Lida: RÓNAI, Paulo (org). Antologia do Conto Húngaro. tradução e notas de Paulo Ronái. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1958.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Songs of Li-Tai-Pé from the Cancioneiro Chinês of Antônio Castro Feijó - Trad:Herbert Stabler

Para o DL 2012 resolvi ler esse livro, que é no mínimo um caso bizarro, que põe em dúvida algumas questões de autoria ou orientalidade. A primeira coisa que chama atenção é que, se o tema do DL é escritor oriental, por quê o nome de Antônio Castro Feijó, notável parnasiano português,  está na frente, ao lado de Herbert Stabler, como autor do livro? O caso é um tento complicado, já que, na verdade, o livro contem uma tradução inglesa de poesias chinesas da disnastia Tang, mas não uma tradução direta, mas sim uma tradução e recriação portuguêsa de Feijó, que por sua vez leu as poesias chinesas através de Le Livre de Jade de Judith Warton, que traduziu com auxilio de um chinês poesias para o francês; ou seja, essa é uma tradução inglesa da tradução brasileira da tradução francesa de poesias chinesas.

A literatura chinesa é, provavelmente, a mais rica do oriente, e talvez a mais rica do mundo, ao menos em verso (em prosa os povos semíticos ganham em tradição e qualidade). A dinastia Tang é das mais ricas, e é engraçado que a china também possui uma das mais antigas tradições de poetisas (ou poetas mulheres, se preferir), possuindo um volume monumental de produção feminina em versos.

Quanto à tradução, há muito mais atás desse simples ciclo de traduções sucessivas. Primeiro deve-se ver a importância que teve o Livre de Jade de Judith Warton (que lerei em breve) ne história da poesia ocidental. Um dos ideais do parnasianismo era o exotismo, e uma das formas de tê-lo era aproveitando temáticas orientais. A poesia, arte e povo chinês foi estremamente sedutora aos poetas da época, e o Livre de Jade foi um dos grandes responsáveis pelo conhecimento ocidental da poesia chinesa. Para se ter uma idéia, no brasil muitos poetas e prosadores falaram sobre a china e/ou a citaram em seus escritos, dentre eles Bilac, Raimundo Correia e até Machado de Assis (que traduziu alguns poemas do Livre de Jade).

Aí chegamos em Feijó. Como bom parnasiano que era, também ficou tentado a usar a china em sua obra poética, e assim como Machado de Assis, traduziu uma série de poemas do Livro de Jade, mas ao invés de apenas colocar como uma parte de um livro, lançou um livro inteiro com essas recriações. É importante mencionar que a ideia de tradução para esses poetas é muito diferente da que muitas pessoas tem: a tradução é um processo criador, onde fidelidade textual e até formal pouco importa comparado à expressão poética. Tanto Machado de Assis como Castro Feijó fizeram dessa poesia oriental uma parte de sua própria obra poética e filosofia poética, e é muito difício dizer até que ponto essas poesias continuam "chinesas" ou passam a "portuguesas". Isso sem contar o fato de que essas poesias passaram por quatro mãos (o poeta chinês, Judith Gautier, Feijó e o tradutor inglês Stabler).

As diferenças entre os textos é tão gritante que, por exemplo, a poesia "The Mandarin's Wives" é composta de 3 estrofes, cada uma com a voz de uma esposa do mandarim, enquanto na versão francesa de Judith o poema é "Les Trois Femmes du Mandarin" e possui quatro parágrafos, os três primeiros com as vozes das três mulheres  (a esposa, a concubina e a criada, não mais 3 esposas) e no último a voz do próprio mandarim. Mais interessante é perceber a diferença entre as descrições, como se pode perceber no seguinte trecho:
Comes an Hour, half sad, half sacred,
The Humming Birds flutter by,
Giving the Lips of the Flowers,
A tender Caress as they fly.

In the distance, his Skiff not moving,
The Fisherman, sunbronzed and tall,
Breaks the lake's silver surface,
As he draws in his Net with is haul.
    Li-Tai-Pé - The Fisherman

C'est le moment où les papillons poudrés de soufre appuient leurs têtes veloutées sur le coeur des fleurs.
Le pêcheur, de son bateau immobile, jete ses filets qui brisent la surface de l'eau.
    Li-Tai-Pê - Le Pêcheur
Percebe-se claramente a diferença de tom, linguagem até mesmo de descrições (que são mais frequentes na tradução inglesa, por ser bem maior que a versão francesa) e até mesmo na imagem e significação.

Eis aí o maior problema deste livro. Entendo que foi escrito para possuir uma significação isolada dos textos que deram origem a essa versão, mas o problema é que esse livro é fraco. A versão de Judith aparentemente (não a li, mas sei que foi feita em prosa) perde em poeticidade, e essa, apesar de ser em verso, não a ganha. Os poemas "chineses" que aqui aparecem se parecem mais um arcadismo ralo, só que sem pastores e ovelhas (mas mantendo as flores e as flautas).

O livro é dividido em 4 partes: Primavera, Verão, Outono e Inverno. As duas primeiras são completamente maçantes, com aquele mal lirismo de nosso arcadismo. O outono e inverno são melhores, mostrando um pouco mais os elementos que já conhecia da poesia chinesa. Diferente do que o nome sugere, não contém apenas poemas de Li-Tai-Pé, mas de vários outros poetas da dinastia Tang, entre eles Tu-Fu, meu favorito. Enfim, é um livro curto (apenas 24 poemas e um longo prefácio, totalizando umas 70 páginas) mas que não vale tanto a pena ler. Talvez a versão em portugês seja melhor, mas duvido!

Acho desnecessário mostrar exemplos de poesias, já que estão em inglês e o livro está em domínio público, assim como acho inútil traduzir (ou melhor, retraduzir) já que o texto já é uma tradução do português, que não pude encontrar.

Nota do Elaphar: 7,2
Edição Lida: FEIJÓ, A.C; StTABLER, J.H; Songs of Li-Tai-Pé from Cancioneiro Chinês. An intrepretation of Portuguese by Jordan Herbert Stabler. New York: Madison Square Press, 1922.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Esaú e Jacob - Machado de Assis

A literatura, de um modo geral, gosta da figura dos gêmeos. Muitos escritores se dedicaram a escrever sobre personagens que eram gêmeos idênticos, e na maioria das vezes, esses personagens eram extremamente unidos e harmônicos, e quando a história era amorosa, se apaixonavam pela mesma pessoa. Porém no que talvez seja o maior patrimônio literário da cultura ocidental (Bíblia Sagrada Cristã) os gêmeos costumam ser descritos de forma um pouco mais agressiva, como competidores (como é o caso de Esaú e Jacó), e isso se estende aos outros personagens fraternos do livro (José e seus irmãos). Partindo da narrativa bíblica Machado de Assis cria o seu livro (que fica um pouco apagado em meio à Memórias Póstumas, Dom Casmurro, Histórias sem Data e Papéis Avulsos) que é a vida dos gêmeos Pedro e Paulo contada pelo conselheiro Ayres.

A obra faz par com Memorial de Ayres, mas distingue-se dela em narrativa, estilo e personagens. Pedro e Paulo são gêmeos que, à semelhança de Esaú e Jacó, brigaram dentro da barriga da mãe, e desde então não chegaram à um arranjo. A obra começa com a visita da mãe dos meninos a uma vidente, que, sibilina, prevê apenas "cousas futuras" e afirma que os filhos brigaram ainda no ventre. A mãe, impressionada dá uma grande esmola na rua, depois vão à um velório. Algo interessante na obra machadiana são as reviravoltas e simetrias da obra, já que a previsão é algo que acompanha todo o livro, a esmola aparece novamente ao final, assim como o enterro, ambas de formas surpreendentes.
O doutor foi à estante e tirou uma Bíblia, encadernada em couro, com grandes fechos de metal. Abriu a Epístola de São Paulo aos Gálatas, e leu a passagem do capítulo II, versículo 11, em que o apóstolo conta que, indo a Antioquia, onde estava São Pedro, "resistiu-lhe na cara".
Santos leu e teve uma idéia. As idéias querem-se festejadas, quando são belas, e examinadas, quando novas; a dele era a um tempo nova e bela. Deslumbrado, ergueu a mão e deu uma palmada na folha, bradando:
— Sem contar que este número onze do versículo, composto de dois algarismos iguais, 1 e 1, é um número gêmeo, não lhe parece?
— Justamente. E mais: o capítulo é o segundo, isto é, dois, que é o próprio número dos irmãos gêmeos.
Mistério engendra mistério. Havia mais de um elo íntimo, substancial, escondido, que ligava tudo. Briga, Pedro e Paulo, irmãos gêmeos, números gêmeos, tudo eram águas de mistério que eles agora rasgavam, nadando e bracejando com força. Santos foi mais ao fundo; não seriam os dois meninos os próprios espíritos de São Pedro e de São Paulo, que renasciam agora, e ele, pai dos dois apóstolos?... A fé transfigura; Santos tinha um ar quase divino, trepou em si mesmo, e os olhos, ordinariamente sem expressão, pareciam entornar a chama da vida. Pai de apóstolos! e que apóstolos! Plácido esteve quase, quase a crer também, achava-se dentro de um mar torvo, soturno, onde as vozes do infinito se perdiam, mas logo lhe acudia que os espíritos de São Pedro e São Paulo tinham chegado à perfeição; não tornariam cá. Não importa; seriam outros, grandes e nobres. Os seus destinos podiam ser brilhantes; tinha razão a cabocla, sem saber o que dizia.
— Deixe às senhoras as suas crenças da meninice, concluiu; se elas têm fé na tal mulher do Castelo, e acham que é um veículo de verdade, não as desminta por hora. Diga-lhes que eu estou de acordo com o seu oráculo. Teste David cum Sibylla.
— Digo, digo! escreva a frase.
Plácido foi à secretária, escreveu o verso, e deu-lhe o papel, mas já então Santos advertira que mostrá-lo à mulher era confessar a consulta espírita, e naturalmente o perjúrio. Referiu ao amigo os escrúpulos de Natividade e pediu que calassem tudo.
— Estando com ela, não lhe diga o que se passou entre nós.
Saiu logo depois, arrependido da indiscrição, mas deslumbrado da revelação. Ia cheio de números da Escritura, de Pedro e Paulo, de Esaú e Jacó. O ar da rua não espanou a poeira do mistério; ao contrário, o céu azul, a praia sossegada, os montes verdes como que o cercavam e cobriam de um véu mais transparente e infinito. A rixa dos meninos, fato raro ou único, era uma distinção divina. Contrariamente à esposa, que cuidava somente da grandeza futura dos filhos, Santos pensava no conflito passado.
 Os jovens crescem e a mãe possui problemas ao lidar com os filhos, que vivem brigando. É interessante que os irmãos Pedro e Paulo não são verdadeiramente diferentes em opinião e temperamento, antes iguais, só que ambos têm uma tendência muito forte de entrar em conflito com o outro, assim como o Pedro e o Paulo bíblicos. Machado maneja muito bem esses conflitos familiares internos e essas pseudo-diferenças.

Como o habitual do estilo do autor, a metalinguagem se faz muito presente, e enquanto o narrador tece a história, traça-se também uma íntima relação de produção de sentidos entre leitor-autor-texto-sociedade. A linguagem da obra é o que faz machado ficar extremamente vivo entre nós. Esaú e Jacob é uma obra grandiosa, e só não comento mais sobre o livro por conta dos Spoillers. Outros personagens que chamam atenção são Flora (que desconfio ser uma paixão, de certo modo pedófila, do Ayres), Ayres, Natividade, Custódio (da Tabuleta Velha, que é um episódio anedótico da obra) entre outros.

Esse livro foi lido para o Desafio Literário do mês de Fevereiro, e é facilmente encontrado em qualquer livraria, qualquer editora e em todos os formatos, e por estar em domínio público pode ser facilmente baixado legalmente da internet. Particularmente, acho um charme ler as edições mais antigas, que conservam a grafia original. Citação acima tirada do site do MEC.


Nota do Elaphar: 9,4

Edição Lida:
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Esaú e Jacob. São Paulo: W.M. Jackson Editores, 1950, 432p. (Obra Completa de Machado de Assis Vol.8)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Livro de Jeremias - Anônimo

É a segunda vez que leio um texto da grande compilação chamada de Tanakh pelos judeus e de Antigo Testamento pelos cristãos. E pela segunda vez coloco a autoria como anônima, apesar de que muitos religiosos consideram que esse livro teria sido escrito pelo profeta Jeremias ou ditado por este ao seu auxiliar Baruc (ou Baruque ou Baruch). Uma pena a coisa não ser tão simples assim. As redações sucessivas, partes históricas posteriores, fragmentaridade do discurso, as diferentes vozes discursivas, oposição de ideias e semelhanças com diversos outros textos anteriores e posteriores acabam indicando autoria múltipla, como a pós-exílica (nos dois capítulos finais) e da Obra Histórica Deuteronomista. Para agravar, há ao menos duas versões bem diferentes do livro que são aceitas e coexistem: o livro de Jeremias do texto massorético e da septuaginta.
Alerta importante: Eu estou lendo o Livro de Jeremias como um texto LITERÁRIO, não RELIGIOSO. Os profetas, reis, acontecimentos e até mesmo Deus estão sendo vistos aqui como PERSONAGENS e TRAMAS literários puramente. Não está em cheque a religião, mas somente a literatura.
Existem grandes dificuldades, para um cristão ou judeu, de se ler algum texto sagrado como literatura. A primeira delas é a leitura dogmática e muitas vezes forçada de certas passagens. Lembro de algumas leituras bizarras que alguns me tentaram passar goela abaixo. Outro problema é a questão da veracidade, onde as diversas leituras (muitas delas de natureza textual problemática) são vistas como verdade absoluta e acabam gerando conflitos interminaveis. Jeremias em especial fornece outra dificuldade: a montagem quase aleatória de muitos fragmentos, que não é nem cronológica nem temática, e acaba gerando algumas dificuldades de leitura no sentido de organizar a cronologia dos fatos.

Jeremias é de origem humilde, e foi profeta durante o reinado de 3 reis: Josias, Jeoaquim e Zedequias, sendo que esses nomes se alteram um pouco de versão para versão. Continua a história até depois do exílio na babilônia. As profecias de Jeremias são importantíssimas para a história bíblica, pois sua previsão de libertação é importante para a história de Daniel e ao profetizar um salvador da família de Davi acaba sendo pedra de toque para o início do livro de Mateus no Novo Testamento, que justifica genealogicamente o salvador como Cristo. Apesar de possuir os dois últimos capítulos sobre a libertação judaica e a queda babilônica, Jeremias não viveu para ver esses acontecimentos, e a flexão passada aponta uma inclusão em redação posterior.

Muito do que aparece no livro de Jeremias é recorrente na história dos judeus: idolatria provocando a ira de Deus, que entrega o seu povo na mão de invasores até o arrependimento. Apesar do tema recorrente, esse livro é especialíssimo, por isso, muito querido. Não há como se mapear a influência que esse livro teve no imaginário e na literatura universal.

Deus avisa Jeremias que o povo de Judá será destruído por outros povos, por ter pecado contra o Senhor:
Valeu-te este castigo tua malícia, e tuas infidelidades atraíram sobre ti a punição. Sabe, portanto, e vê quanto te foi funesto e amargo abandonar o Senhor teu Deus e não ter tido mais temor algum de mim - oráculo do Senhor JAVÉ dos exércitos.
Jeremias 2:19
[...]
Do seu covil parte um leão, e qual demolidor de nações se põe a caminho, saindo de seu refúgio para transformar em deserto a tua terra, e as cidades em desolação, onde ninguém mais habitará.
Revesti-vos, pois, de saco, chorai e gemei, pois que a tremenda cólera do Senhor não se afastou de nós.
Jeremias 4:7-8
Jeremias, por sua piedade pede a Deus várias vezes para que perdoe o povo:
Minhas entranhas! Minhas entranhas! Sofro! Oh! as fibras de meu coração! O coração me bate, não me posso calar! Ouço o som das trombetas e o fragor da batalha.
Anunciam-se desastres sobre desastres, todo o país foi devastado. Foram de repente destruídas minhas tendas; num instante, meus pavilhões.
Até quando verei o estandarte, e ouvirei o som da trombeta?
Está louco o meu povo; nem mais me conhece. São filhos insensatos, desprovidos de inteligência, hábeis em praticar o mal, incapazes do bem.
Olho para a terra: tudo é caótico e deserto; para o céu: dele desapareceu toda a luz.
Olho para as montanhas e as vejo vacilar; e as colinas todas estremecem.
Olho: já não há nenhum ser humano; todas as aves do céu fugiram.
Olho: tornaram-se desertos os campos; todas as cidades foram destruídas diante do Senhor, ante a fúria de sua cólera.
Porque toda a terra será devastada - oráculo do Senhor -, mas não a exterminarei completamente.
Eis a razão pela qual a terra cobriu-se de luto, e o céu, lá no alto, revestiu-se de negror. Pois que eu disse, e assim decretei: não voltarei atrás e não me retratarei.
Ao grito de: Cavaleiros! Arqueiros!, toda a terra desandou em fuga. Lançaram-se nos esconderijos e galgaram rochedos, as cidades foram abandonadas e os habitantes desapareceram.
E tu, devastada, para que revestir-te de púrpura, engalanar-te com ornamentos de ouro, e alongar-te os olhos com pinturas? Em vão tentas ser bela; desprezam-te os amantes. É tua vida que odeiam.
Ouço gritos como os da mulher ao dar à luz, gritos de angústia quais os do primeiro parto. São os clamores da filha de Sião; geme e ergue as mãos: Desgraçada de mim! Desfaleço ante os algozes.
Jeremias 4:19-31
Nesse início do livro, Deus se aparenta muito com o Javé do Gênesis, parecendo assustadoramente humano. É importante perceber que a piedade de Jeremias vai se esvaíndo quando seus irmãos conspiram contra ele.

O povo de Israel, como criança, faz o que é habitual: rejeita a palavra de Deus. É importante o fato da presença de falsos profetas profetizando em nome de Deus, dizendo que não virá praga e mal nenhum. Do meio para o final do livro há muitas reflexões sobre a profecia, algumas delas muito legais. Uma muito boa é quando Jeremias é condenado pelo povo (cap 26), e lembram-se os precedentes dos profetas que também anunciaram desgraças e foram condenados ou poupados, o que resulta na prisão de Jeremias mas salva sua vida. Há também uma mensagem específica contra esses profetas em 23:9-32. Outra passagem legal em relação à profetas é a seguinte:
[o]s profetas que nos precederam a mim e a ti anunciaram, contra numerosos países e reinos poderosos, guerra, fome e peste.
Quanto ao profeta que predisse a felicidade, somente quando seu oráculo se realizar, poder-se-á saber se ele é realmente um enviado do Senhor.
Jeremias 28:8-9
Esse livro possui uma série de metáforas como a do pode de barro (18:1-12) e a dos cestos de figo (cap 24). Muito interessante também é a influência que esse livro tem sobre outros textos, tanto bíblicos (como 23:5, que posteriormente será retomado em Mateus para justificar o "reinado" de Cristo), quanto literários (o famoso Bálsamo de Gileade de Poe) e músicais (se não ouviram ainda a Sinfonia No.1 "Jeremiah" de Bernstein não sabem o que é música).

Faltam ainda as outras coisas do livro: Jeremias fala sempre a palavra de Deus e nunca o ouvem (nem o povo, nem o rei; nem antes da dominação babilônica nem depois), os babilônicos dominam Judá e todas as suas cidades, depois o povo foge para o Egito mesmo com o alerta de Jeremias, e por fim o Egito cai. No fim do livro se fala da destruição da Babilônia, mas isso é posterior. Interessante notar a relação que há entre as odes finais do livro e o Salmo 137 (ambos sobre a destruição babilônica).

O livro é cheio de nuances que, se fosse tentar expicar todas, escreveria páginas e páginas e não terminaria. Há mais uma coisa que chama atenção é a referência aos escritos de Baruc que foram perdidos ou destruídos. Baruc era auxiliar de Jeremias e escrevia o que o profeta ditava (e não é necessariamente o que o livro contém), e há no livro um apelo para a escrita.

As traduções do texto são muitas e variadas. A Almeida e a NTLH são provavelmente as mais conhecidas, apesar de que a NTLH peca por ser escrita em péssimo português. Outras edições incluem a Traducção Brazileira, Ecumênica, Ave Maria, Pastoral e muitas outras. As citações acima são da versão Católica disponível em: http://www.bibliaonline.com.br/vc/jr/1, que não foi exatamente a versão lida.

Muitas outras coisas me chamaram atenção no livro, mas como não quero escrever um TCC (e a maioria dos leitores não querem ler um), dou minha resenha por encerrada e fica a dica da leitura do livro. Não é tão variado em histórias e dramas como outros livros históricos (como o Pentateuco, Juizes, Reis e Samuel por exemplo), mas é bem interessante também, apesar de que muitas repetições podem atrapalhar a leitura. Este livro foi lido para o Desafio Literário 2012.

Nota do Elaphar: 8,4

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Electra - Eurípides


Segundo livro de Eurípides lido, e muitas coisas novas podem ser ditas sobre este livro.

A primeira coisa legal é que Electra é um mito que parece ter sido um dos preferidos do dramaturgo, já que todos os grandes dramaturgos gregos escreveram uma Electra (Sófocles e Ésquilo por exemplo). Um possível motivo por essa preferência talvez seja o nível de violência da obra, além da não punição dos heróis.

Comparado a Alceste, Electra é um drama bem mais tradicional, apesar de que o desenvolvimento dos heróis não ruma à aniquilação, que é característica tradicional da tragédia. Uma típica obra ultra-violenta do teatro grego (que vai retornar em Shakespeare, por exemplo). Electra narra a história dos filhos de Agamemnon, que após a morte do pai (pelas mãos de sua esposa), acabam sendo perseguidos. Orestes, irmão de Electra, é exilado e perseguido, enquanto a Electra é forçada a casar com um pobre, tentativa de deixá-la "fora de circulação", e evitar que um possível herdeiro decida se vingar. Orestes volta e busca a vingança, e junto de Electra (a grande cabeça da história) armam um plano de assassinar o atual rei (Egisto, casado com Climnestra, ex esposa de Agamemnon) e sua mãe.

Agora o que é especial nesse nível é o grau de profundidade psicológica dos personagens, sendo o remorso e o medo bem desenvolvidos na trama. Outro ponto de destaque é a reflexão sobre a insanidade divina, pois Orestes muitas vezes pensa o quão insana foi a órdem de Apolo de assassinar sua mãe e o usurpador do trono. Por fim, a crueldade de Electra.

Coisas curiosas vieram com a leitura do livro. Uma delas foi a descoberta da história do Voto de Minerva, já que Orestes será julgado por seu crime e o juri se divide igualmente de um grupo a favor e outro contra, aí Minerva (ou Atenas) intervém e Oreste é julgado inocente. Também é dessa narrativa que surge o chamado Complexo de Electra, termo cunhado por Jung para descrever a forma feminina do Complexo de Édipo.

Enfim, uma grande obra que vale a pena ser lida. Não é tão especial como Alceste, porém é mais dinâmica. Essa leitura faz parte do Desafio Literário 2012. Aguardem a próxima leitura, que será uma grande surpresa (se agradável ou não não sei).

Nota do Elaphar: 8,8

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Alceste - Eurípides

Desculpem aos meus fãs, se é que possuo algum, pelo meu longo desaparecimento. Fiquei um pouco cansado de resenhar durante um tempo (na verdade, fiquei um pouco sem vontade de resenhar, e se não fossem alguns comentários animadores não voltaria). Apesar de sair no meio do desafio literário de 2011 (em parte, pois li os livros, só não os resenhei), decidi novamente tentar concluir o desafio, e fiquei surpreso ao saber que fui leitor Ouro ainda no desafio anterior. Enfim, vamos ao que interessa....

É incrível como, apesar de ser fã dos clássicos greco-latinos, nunca havia lido Eurípides... Já possuia esse livro há tempos, só que nunca o tinha colocado em minhas prioridades de leitura... grande erro!

Simples: Eurípides talvez seja o mais inovador do tradicional teatro grego... é difícil presumir a musicalidade de seus versos e seu peso em sua língua original, hoje morta, mas acredito no que dizia Aristóteles sobre o poeta: Talvez Eurípides seja o melhor e mais trágico dos poetas gregos, apesar de escrever pior.

Alceste é uma obra teatral sem par em sua época... é uma obra que Shakespeare poderia assinar em sua época sem sentir-se envergonhado, aliás, há muito mais entre Eurípides e Shakespeare do que sonha nossa vã crítica literária. Não me deterei em diferenças formais a respeito da história, mas algumas que são mais interessantes: a presença do amor como elemento importante descrito na obra, e não como acessório para a história; os diálogos quase sofistas, onde diferentes pontos de vista criam diferentes verdades retoricamente (diálogo de Admeto e Féres, ou Hércules e Admeto); a presença de elementos filosóficos pré-socráticos como de Anaximandro ou Protágoras ou Heráclito; e um desfecho que vai contra o fado, o que parece incompatível com a tragédia, que tem no fado o seu principal elemento condutor. Essas são algumas das coisas que nunca vi na literatura anterior a Dante, exceto (em parte) no Tanakh.

A história é das mais conhecidas: a hora da morte chegou para Admeto, rei de Féres, mas Apolo consegue convencer a morte a levar quem optar por morrer no lugar do rei. Apesar de inúmeros amigos e pais em idade avançada, ninguém aceita morrer no lugar do rei, apenas sua mulher Alceste. A morte é impiedosa e leva Alceste embora, aí a tragédia está consumada.

Mas esse livro não é uma tragédia comum, e a narrativa acaba por não se cumprir completamente. Por acaso, Hércules está passando pelo local e se hospeda na casa de Admeto, que não nega a hospitalidade, e é o mesmo Hércules que derrota a morte e traz Alceste novamente para seu marido. Sem dúvidas, um desfecho que não é habitual em tragédias.

O mais interessante nessa tragédia é a matéria humana da composição, até mesmo na parte divina, e a figura da mulher. Falta um pouco da habitual violência exacerbada presente na literatura grega, mas as presenças inovadoras suplantam essa "carência", e diminuem a monotonia da óbra, que é interessante e profunda sem ser tão dinâmica quanto as tragédias de Ésquilo. Livro mais que indicado.

A respeito da tradução de J. B. de Mello e Souza, acho que talvez seja problemática por vários fatores: mudanças absurdas de registro, confusão onomástica de nomes gregos e latinos, tradução não versificada, e para piorar é fácil de ser encontrada em edição espúria e plagiada pela Martin Claret, e por outro lado, sua edição digna é difícil de ser achada por ser antiga (Jackson editores).

Essa leitura faz parte do Desafio Literário do mês de Fevereiro.

Nota do Elaphar: 9,2

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Fausto - Goethe (Tradução de F. de Castilho)

Pintura de Eugène Delacroix
Estava quase pensando que já havia lido tudo o que havia de bom no genero teatral, mas sempre um texto novo pode nos trazer grandes surpresas. Goethe dispensa comentários: é o nome mais famoso da literatura alemã e um milagre na história da literatura, um dos poucos escritores que são geniais em todos os gêneros que escreve (no caso de Goethe os gêneros épico, lírico, dramático, novelístico, satírico, didático, epistolar e científico). A obra Fausto é de longe seu mais famoso trabalho, ao lado dos Sofrimentos do Jovem Werter, Wilhelm Meister e alguns poemas superfamosos como O Aprendiz de Feiticeiro (Der Zauberlehrling), O Erlkönig e a Dança Macabra (Totentanz).

O mito de Fausto é bastante recorrente na literatura (principalmente em língua alemã), e se baseia em uma figura histórica. Fausto era um sábio que pouco se sabe sobre sua vida, e mitologicamente crê-se que Fausto fizera um pacto com o demônio. Marlowe foi o primeiro a representa-lo em um texto de qualidade literária, mas no romantismo alemão centenas de escritores escreveram sua versão do mito. Mais recentemente temos a versão de Fernando Pessoa (Fausto, uma tragédia Subjetiva) e a versão de Thomas Mann (Doktor Faustus). Sem sombra de dúvidas, o Fausto goethiano é o mais famoso, e foi base para inúmeras adaptações (como a abertura de Wagner, a ópera francesa e o episódio do Chapolin Colorado).

Fausto é uma tragédia, contendo todos os elementos para ser considerada como tal, mas muito se critica quanto a obra Fausto ser ou não ser teatral. Em primeiro lugar há um "Prólogo do Autor", onde o autor fala sobre si e a obra, em seguida vem um "Prólogo no Palco" bastante metalinguístico, onde o Poeta, o Empresário e o "Gracioso" (Lustige Person, ou seja, bobo, palhaço) discutem sobre a criação e apresentação da peça. Além desses dois elementos fora do comum (que não são muito próprios do teatro), há um Intermezzo tão fragmentário e estranho (a lá Sousândrade) que sua encenabilidade é questionável. Desconsiderando esses elementos, a peça é absurdamente enorme para um texto teatral (a primeira parte da tragédia tem mais de 300 páginas), as instruções dramáticas parecem que foram escritas para ser lidas e não encenadas, e Fausto possui algumas cenas que fariam a cena da "Imolação dos Deuses" (de Götterdämmerung de Wagner) parecer uma peça escolar. Soma-se a tudo isso a dificuldade de compreender o texto, mas vamos por partes...

O livro começa com um soberbo prefácio de Otto Maria Carpeaux (a minha edição da Jackson Editores), que ajuda a esclarecer muitos pontos da obra que podem parecer obscuros, além de mostrar as absurdas diferenças entre "Fausto", uma tragédia" e "Fausto, segunda parte da tragédia". Lastimavelmente o livro não contém a "segunda parte" (que é uma obra autônoma), já que Castilho não a empreendeu traduzi-la. A esplicação de Castilho é simples: "extravagâncias absurdas [da segunda parte] são muito mais repugnantes ao bom senso". É importante notar que Castilho não entendia uma frase de alemão ao traduzir o Fausto, e portanto, traduziu por interposição, o que em poesia não é totalmente recriminável.

A obra começa no já citado "Prólogo no Palco", e segue para um "Prólogo no Céu" (que castilho considera já como início da peça [Quadro I]). Um coro de Anjos canta, quando o demônio (Mefistófeles) conversa com o Senhor, que lhe pede informações sobre o Fausto. Aí Mefistófeles resolve propor um desafio ao Senhor, que é prontamente aceito.
      MEFISTÓFELES
Quer Vossa Majestade uma apostinha?
Verá se também este se não perde,
uma vez que me deixe encaminhá-lo.
      O SENHOR
Deixo, enquanto for vivo. Onde há cobiças,
é natural o errar.
     MEFISTÓFELES
                              Muito obrigado.
Pois co’os vivos também é que me eu quero;
com defuntos embirro; o meu regalo
é tentar caras rechonchudas, frescas;
sou como o gato: de murganho morto
não faço caso; o meu divertimento
é correr e arpoar aos que me fogem.
     O SENHOR
Como queiras. Permito-te que o tentes.
Se lograres caçá-lo desbaptiza-o,
e inferna-o muito embora. Mas, corrido
fiques tu in æternum, se confessas
que o bom, dado que errar às vezes possa,
nunca nos sai da estrada, a recta, a nossa.
     MEFISTÓFELES
Bom. Não lhe há-de tardar o desengano,
Ganhei tão certo a aposta, como é certo
chamar-me eu Mefistófeles. Se eu vingo
na empresa, a palma do triunfo é minha.
Há-de se regalar de comer terra,
como a tia serpente.
 Depois parte para o inicio da tragédia propriamente dita, com um famoso monólogo de Fausto. Segundo Carpeaux, os jovens decoram passagens inteiras dos monólogos do Fausto na alemanha.
      FAUSTO (dessocegado, sentado numa poltrona de sola e pregaria de cobre, com a cabeça fincada nas mãos, e os cotovelos na mesa de estudo, na qual derrama luz frouxa um candeeiro aceso.)
Ao cabo de escrutar co’o mais ansioso estudo
filosofia, e foro, e medicina, e tudo
até a teologia... encontro-me qual dantes;
em nada me risquei do rol dos ignorantes.
Mestre em artes me chamo; inculco-me Doutor;
e em dez anos vai já que, intrépido impostor,
aí trago em roda viva um bando de crendeiros,
meus alunos... de nada, e ignaros verdadeiros.
O que só liquidei depois de tanta lida,
foi que a humana inciência é lei nunca infringida.
Que frenesi! Sei mais, sei mais, isso é verdade,
do que toda essa récua inchada de vaidade:
lentes e bachareis, padres e escrevedores.
Já me não fazem mossa escrúpulos, terrores
de diabos e inferno, atribulados sonhos
e martírio sem fim dos ânimos bisonhos.
[...]
Percebe-se que o Fausto de Goethe é inquieto, não quer saber muito, mas sim TUDO, missão fadada ao fracasso. Desde o início da narrativa me identifiquei muito com o personagem, entretanto, essa identificação vai se estinguindo no decorrer da narrativa (ainda bem). Segue-se uma bizarra cena onde Fausto conversa com um Espírito. Entra Wagner, sai o espírito. Wagner é um outro tipo de sábio, aquele que tanto Fausto quanto Goethe deploravam. Depois de mais um monólogo de Fausto, o protagonista tenta suicídio, mas ao ouvir sons da igreja ao lado (que não aparece no palco) desiste da ideia por conta dos sons lhe trazerem lembranças.

As próximas passagens são entre Fausto e Wagner numa rua (com um pequeno prólogo dos passantes), aí é que podemos compreender as diferenças de filosofia e objetivos dos dois personagens. Posteriormente, mais um monólogo de Fausto (é, ele fala mais sosinho que o Hamlet de Shakespeare), que está acompanhado de um cachorro. Nesse monólogo há a outra passagem famosa de Fausto, onde o personagem transforma o "No princípio era o verbo" ("Im Anfang war das Wort!") das escrituras em "No princípio era o Ato" ("Im Anfang war die Tat!", para Castilho Ação). O cachorro começa a metamorfosear-se (atrapalhando o monólogo) para enfim transformar-se em Mefistófeles. Segue-se o primeiro dos muitos diálogos entre Mefistófeles e Fausto.

É extremamente interessante a caracterização que Goethe dá ao diabo. Mefistófeles é bastante esperto, mas não aparenta. Mefistófeles é irônico, seco, até certo ponto cheio de graça. Depois de alguns diálogos, Mefistófeles fará uma proposta à Fausto: Fausto será jovem e o Mefistófeles o servirá na terra, porém, se Fausto ficar satisfeito Fausto deverá servir Mefistófeles no inferno.
    MEFISTÓFELES
                                        Então já pode
no pacto conchavar-se. O que eu lhe afirmo
é que estes dias que passarmos juntos
lhe hão-de por minhas artes dar tais gostos
quais os não teve alguém.
     FAUSTO
                                         Pobre diabo,
que hás-de tu dar-me? O espírito de um homem
como eu sou, foi jamais compreensível
aos da tua relé? Tens iguarias
que não matam a fome; oiro que fulge,
mas que igual ao mercúrio, escapa aos dedos;
jogo em que é certa a perda; uma beldade
que até nos braços meus soltando arrulhos,
já está piscando o olho ao meu vizinho;
pompas de glória, um fumo!
                                             O que eu preciso,
se o tens, são frutos a pender de copa
sempre frondosa, e que antes de apanhados
não tenham já por dentro o podre e os vermes.
      MEFISTÓFELES
Bem; tudo isso há-de ter; conte comigo
Desde agora, amiguinho, à rédea solta.
Folgar e mais folgar! Leva de escrúpulos!
Tudo quanto bem sabe, é permitido.
       FAUSTO
Se eu me acosto jamais em fofa cama,
contente e em paz, que nesse instante eu morra!
Se uma só vez com falsas louvaminhas
chegares por tal arte a alucinar-me
que eu me agrade a mim próprio; se valeres
a cativar-me com deleites frívolos,
súbito a luz da vida se me apague.
Vá! queres apostar?
      MEFISTÓFELES
                                   Se quero! Aposto.
       FAUSTO
Aperto mais: Se me chegar momento
a que eu diga: «Demora-te! És formoso»
então aos teus grilhões entrego os pulsos;
então a morte aceito; os sinos dobrem;
já livre estás de mim. Dessa hora avante,
quede o relógio! Caiam-lhe os ponteiros!
Acabou-se-me o tempo.
        MEFISTÓFELES
                                        Olhe o que afirma,
que entre nós outros nada esquece.
         FAUSTO
                                                         Embora!
Não me obriguei de leve. O que eu padeço
não é escravidão? Ser logo servo
de outro ou de ti, que monta?
      MEFISTÓFELES
                                                Às suas ordens,
desde já. Tem a nata dos serventes
para este bródio de barrete fora,
meu querido Doutor!
                                  Mais uma nica.
Há morrer e viver. É bom primeiro
pôr o preto no branco: um tudo-nada;
duas regritas só.
      FAUSTO
                            Que é! Papeladas
até no inferno, rábula! Bem mostras
entender pouco do que seja um homem.
[...]
Aqui surge a figura do pacto com o demônio assinado com sangue, tão copiado por muitos outros textos. Segue-se uma cena onde Mefistófeles fala a um rapazola que busca o conhecimento científico. É interessante o desprezo que Mefistófeles tem pelas ciências e pelo "progresso". Apenas agora começa a aventura de Fausto e Mefistófeles.

A primeira parada da dupla é em um bar de jovens. Fausto fica horrorizado com a "brutidade" dos jovens no bar e Mefistófeles prega uma peça nos jovens (não tão bizarra quanto as peças que o diabo de O Mestre e a Margarida prega nos habitantes de Moscou, mas ainda assim levemente divertida). Fico imaginando alguem representando essa cena, e como fazer a gota do líquido que os jovens bebem à voro transformar-se em chama do inferno e depois minguar. Claro, não é tão difícil de representar quanto a próxima cena, onde Fausto irá beber um líquido de onde sai labaredas.

A próxima cena é na casa de uma bruxa. Mefistófeles levará Fausto para beber uma poção, que fará o protagonista se apaixonar por Margarida (que aparecerá mais a frente). Essa cena é interessantíssima em cada parte e aspécto.
     FAUSTO
Mas porque há-de ser logo a preferida
a tal mondonga velha? Não podias
preparar-me tu próprio a beberagem?
     MEFISTÓFELES
Belo divertimento! Eu preferia
gastar o tempo em construir mil pontes.
Para arranjar os filtros desta casta
quer-se, além do saber, paciência e muita,
e atenção de anos largos; só co’o tempo
é que se alcança o fermentar completo
do líquido eficaz. Pois a quantia
d’ingredientes raríssimos! É certo
que o diabo é quem os sabe, e ensina tudo;
mas lá para os estar manipulando
é que não tem pachorra.
 Além dessa passagem, há muitas outras bem legais nessa mesma cena. A bruxa entra e não reconhece o diabo, que fica irado. Mefistófeles não quer ser chamado de Satanás pois esse nome "anda há já muito entre outros mil escritos/no volumoso ról das fábulas e mitos". A bruxa prepara a poção a fala expressões incompreensíveis (que lembra um pouco as Bruxas de Macbeth).
     A FEITICEIRA (empurra Fausto para dentro do círculo; e põe-se a ler no livro,
declamando com grande ênfase
)
Agora me explico,
Do um, dez fareis;
o dois deixareis;
o três uguareis;
e já sondes rico.
Lançar quatro fora.
Dos cinco e dos seis,
sete e oito fareis.
São estas as leis,
e andai-vos embora.
E os nove são um;
e os dez são nenhum.
E tenho acabada,
segundo cumpria,
toda a tabuada
da feitiçaria.
     FAUSTO (a Mefistófeles)
Ela estará com febre? A modo que extravaga.
     MEFISTÓFELES
Ai! de pouco se admira. Inda por ora a saga
do intróito não passou; e todo o calhamaço
vai no mesmo teor. [...]
     A FEITICEIRA (continuando)
A potência da ciência
que anda oculta em névoa escura,
só revela a sua essência
ao mortal que a não procura.
     FAUSTO
Que absurdo nos diz ela? A tantos disparates
já se me oira a cabeça; oitenta mil orates
não doidejavam mais.
 Depois de beber a poção (e um grito mudo de triunfo de Mefistófeles: "Que tal!/Coa dose que tomou, qualquer mulher que aviste/vai julgá-la outra Helena./ Ah sábio, alfim caiste!"), Fausto avista Margarida e por ela se apaixona. Fausto exige a Megistófeles a presença de Margarida e o demônio usa-se de retórica para fazer Fausto de bobo. Segue-se um quadro no quarto de Margarida, onde Mefistófeles esconde uma caixa de Jóias. Margarida chega no quarto e canta aquele que é um dos poemas mais famosos de Goethe em língua portuguesa, com 7 traduções diferentes até onde minhas pesquisas foram efetivas. A Canção do Rei de Tule, que também é uma ária da ópera francesa Fausto. Esse poema já havia sido publicado em outro livro de Goethe, e é republicado em Fausto. Isso também contribui para aumentar a aparência de que Fausto é um grande recorte e colagem da produção de Goethe em mais de 30 anos (que demorou compondo essa obra). Eis a canção na tradução de Castilho:
Reinava em Tule algum dia
um bom Rei tão fino amante,
que até morrer foi constante
à dama com quem vivia.

À hora do passamento
deixou-lhe ela um vaso d’oiro,
que foi do Real tesoiro
o mais falado ornamento.

Punham-lho sempre na mesa;
só por aquele bebia;
e o choro que então vertia
causava a todo tristeza.

Vendo o seu termo chegado,
repartiu pelos herdeiros
os bens, té aos derradeiros,
excepto o vaso adorado.

Foi isto em jantar de mágoas
que El-Rei deu à fidalguia,
em torre herdada que havia
ao rés das marinhas águas.

Como El-Rei houve bebido
o seu último conforto,
co’o braço já quase morto
levanta o vaso querido,

e por não deixá-lo ao mundo,
da janela ao mar o atira.
Ondeia o vaso, revira,
enche-se, e desce ao profundo.

No mesmo triste momento
em que o vaso se abismava,
o Rei seus olhos cerrava,
soltando o último alento.
 E aqui em uma versão um pouco mais decente, feita por Antero de Quental:
Era uma vez um bom rei
Em Tule, essa ilha distante,
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de oiro de lei.

Era um copo de oiro fino
Todo lavrado a primor;
Se fosse o cálix divino
Não lhe tinha mais amor.

Seus tristes olhos leais
Não tinham outra alegria:
E só por ele bebia
Nos seus banquetes reais.

Chegada a hora da morte
Põs-se o rei a meditar
Grandezas da sua sorte,
Seus reinos à beira-mar.

Deixava um rico tesoiro,
Palácios, vilas, cidades;
De nada tinha saudades,
A não ser do copo de oiro.

No castelo da devesa,
Naquelas salas sem fim,
Mandou armar uma mesa
Para o último festim.

Convidou sem mais tardar
Os seus fiéis cavaleiros,
Para os brindes derradeiros
No castelo à beira-mar.

Então, vazando-a de um trago,
E com entranhada mágoa,
Pôs nas ondas o olhar vago
E atirou a taça à água.

Viu-a boiar suspendida,
'Té que as ondas a levaram
Os olhos se lhe toldaram,
E não bebeu mais na vida!
E a minha tradução ruim para o primeiro verso (seguida do "original em parênteses"):
Em Tule vivia um rei (Es war ein König in Thule)
Que, fiel, a sua dama (Gar treu bis an das Grab)
Uma taça de ouro em lei (Dem sterbend seine Buhle)
Deixou-lhe na eterna cama. (Einen goldnen Becher gab.)
Tá legal, chega de poesia lírica. Me desculpem as divagações, é que sou tão fã de poesia que me deixei levar... Voltando ao drama...

Pulando uma série de episódios menos importantes (mas nunca sem importância, mas como isso é uma resenha não posso falar de todos os inúmeros episódios de Fausto), Mefistófeles arruma uma maneira de aproximar Margarida e Fausto, aproveitando a morte do marido de Marta (amiga de Margarida), pretendendo usar Fausto como testemunha da morte (apesar de nenhum dos dois terem estado no local da morte, não duvido de Mefistófeles, afinal, de morte ele entende). Há entre Fausto e Mefistófeles um diálogo que ainda está muito atual:
     FAUSTO
É previdente a mulherzinha;
mas então claro está que antes da coisa,
temos de ir ver em Pádua a sepultura.
     MEFISTÓFELES
Santa simplicidade! O que é preciso,
é jurar que se viu,
     FAUSTO
                                Se não me alvitras
coisa melhor, gorado está o ajuste.
    MEFISTÓFELES
Beatíssimo varão! Gosto do escrúpulo.
Pois nunca nunca, em toda a sua vida,
deu testemunho falso?
                                    Que de vezes
não haverá, com magistral entono,
coração firme e intrépido semblante,
declarado o que é Deus! aberto o arcano
do mundo e das míriades dos entes
que o povoam! do homem, co’o sem conto
de afectos, de paixões, de pensamentos,
que n’alma e coração lhe tumultuam!
Meta, bem dentro, a mão na consciência,
e diga-me se tinha dessas coisas.
mais noção que da morte do Espadinha?
     FAUSTO
És, foste, e hás-de ser sempre um mentiroso,
e um sofista de marca.
     MEFISTÓFELES
                                       É isso: ápodos,
porque antevejo o que o Doutor não pesca:
que amanhã, por exemplo, o escrupuloso
há-de enganar, jurando-lhe mil honras,
e amores mil, a pobre Margarida.
     FAUSTO
E a-la-fé que não minto em protestar-lhos.
[...]
Seque-se a conquista de Margarida. Mefistófeles também conquista Marta, o que não dá em nada e nem é falado na obra. Há um interessante diálogo sobre religiosidade, que, longe de ser puro apologismo ou sofisma é deveras interessante. Há um afastamente de algum tempo (o tempo da diegese da peça é algo muito dificil de se tira) entre Fausto e Margarida. É uma das partes de maior lirismo amoroso da obra. Os dois se reencontram e planejam cosumar o amor. Margarida conversa com outra amiga sobre isso, e a amiga repreende. Aí sai mais uma passagem que ainda se mantém bem atual e bem coerente com a cultura brasileira:
MARGARIDA, ()
(Tomando também da fonte o seu cântaro, e partindo-se com ele para casa, em direcção diversa da de Luisinha)
Também eu no meu tempo, em vendo moça errada,
logo a punha por monstro: a língua era uma espada,
e feita eu própria ré de atroz descaridade
benzia-me, e ficava impando de vaidade!...
E hoje... incursa no mesmo!!
(Após alguns momentos)
                                              Oh! Deus! mas quem podia
livrar-se de um prazer, que as pedras fundiria?
[...]
 Segue-se mais um poema de Goethe que não pertencia à fausto, e logo depois o monólogo de Valentim (irmão de Margarida, e não, não me esqueci de falar sobre ele, Valentim só aparece agora e só depois ele é apresentado como irmão de Margarida, sim, a leitura de Fausto é meio confusa), seguido do confronto entre Fausto (ajudado por Mefistófeles) e Valentim, que culmina na morte do segundo. A próxima cena é uma sombria cena naa Igreja, no funeral de Valentim, com a presença de espíritos.

As ultimas cenas são as mais estranhas da dramaturgia. Primeira é uma mistura caótica de personagens aparecendo e agindo como num baile. A outra cena é tão mais estranha está fora e dentro da peça (Áureas Núpcias de Oberon e Titânia - Intermezzo). E vocês pensavam que a poética ultrafragmentária surgiu apenas no modernismo? Essa passagem me lembra as decidas ao inferno do Guesa de Sousândrade.

E por fim, depois de um diálogo entre Fausto e Mefistófeles, Fausto entra na prisão para buscar a sua amada que foi presa por matar a mãe e o filho depois de enlouquecer (e não, também não esqueci de falar sobre isso). Essa cena é sombria e sublime. Termina com a dicotomia entre a condenação e a salvação. Termina a obra mas não a história de Fausto. O livro termina com um gostinho de quero-mais, entretanto, todos sabem que a "Segunda Parte da Tragédia" nada tem de ligação com a primeira, mas é uma série de mais outras passagens de incompreensível conexão definitiva para o nosso pensamento.

Fausto é uma Obra Prima e tem motivos para estar no cânone e influenciando o pensamento até os dias de hoje. Uma obra magnífica, embora difícil. A tradução de Castilho deixa muito a desejar no quesito "lirismo". O estilo de Castilho é falso, plástico, granítico. Há na tradução de Castilho algumas passagens magníficas, mas outras são tão de mal gosto que não merecem nem ao menos ser comentadas. Apesar de ser uma obra dramática, presta mais ao papel de ser "lida como teatro" do que "encenada como teatro". A nota do livro só é mais baixa pois analiso o livro como um todo (de produção gráfica, prefácio, conteúdo à tradução), e a tradução de Castilho deixou a desejar um pouco.

Esse livro é um livro bônus do Desafio Literário do mês de Junho. A tradução de Castilho pode ser adquirida gratúitamente no site do Domínio Público ou da Universidade de Aveiro. O livro pode ser achado facilmente em sebos e livrarias, em outras traduções. Há pelo menos 5 traduções integrais da primeira parte do Fausto em português (sem incluir uma do Fausto Zero [Urfaust] pela Christine Röhrig).

Nota do Elaphar: 9,6

Edição Lida:
GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto. Prefácio de Otto Maria Carpeaux. Trad: António Feliciano de Castilho. São Paulo: W. M. Jackson, 1960, 323p. XXXVp. (Clássicos Jackson, v.15)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Obras Literárias de Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha

Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha é considerado o primeiro poeta do norte do Brasil. Nascido no Pará (em uma região que hoje pertence ao estado do Amazonas), foi um poeta do Neoclassismo brasileiro (ou Arcadismo) que teve sua obra publicada apenas parcialmente e postumamente. Seu filho publicou o que sobrou da obra de Tenreiro Aranha (depois de uma série de acontecimentos que destruiu parte da obra do poeta) apenas bem depois da morte do escritor, e posteriormente, o estado do Pará republicou as Obras Literárias do escritor, onde encontra-se a poesia e teatro de Tenreiro Aranha.

Poesia de Tenreiro Aranha
A poesia de Tenreiro Aranha não é surpreendente, assim como não é surpreendente toda a poesia brasileira árcade. Tenreiro Aranha é um imitador dos clássicos, especialmente de Píndaro.

De píndaro Tenreiro tira a "forma" da maioria de suas odes (algumas intituladas "Ode Pindárica"), que são pindáricas de forma e conteúdo. Vê-se também a poesia laudatória de Píndaro também nos sonetos do poeta paraense, que na maioria das vezes são para louvar uma obra ou uma personalidade (política, militar ou religiosa). Seus melhores poemas são os sonetos, já que Tenreiro Aranha não tem muita habilidade com poemas muito longos (geralmente são cansativos em demasia).

Apesar de compor muitos poemas para "puxar o saco" de personalidades, alguns de seus versos possuem merecimento, assim como a maioria de seus poemas não laudatórios são belas poesias. Interessante é que, apesar de Árcade, em algumas ocasiões seu metro é um pouco irregular (principalmente nos acentos), mas essas irregularidades não são comuns. Eis dois poemas que exemplificam a poesia lírica de Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha:
Soneto
(Em louvor a Casa para depósito de pólvora construída em uma das margens do rio Aurá)
Do sacro Olímpo os deuses superiores,
Vendo já terminada a empresa clara
Que ao Aurá dá valor, e à nós ampara,
Lhe dão justos, magníficos louvores:

Juno louva a grandeza e seus primores,
Minerva admira a estrutura rara,
E Marte ali depósito prepara
De instrumento fatal de seus furores:

A mesma branda Vênus, e o Cupido
Se alegram (quem tal crera!) e para vê-la
Lindos ranchos já sei que vem trazido.

Só Jove não aplaude obra tão bela,
Por que já do seu raio retorcido
O Pará se não teme, depois dela.
Soneto
(A um passarinho, quando o Autor sofria vexações)
Passarinho, que logras docemente
Os prazeres da amável inocência,
Livre de que a culpada consciência
Te aflija, como aflige ao delinquente.

Fácil sustento, e sempre mui decente
Vestido te fornece a Providência;
Sem futuros prever, tua existência
É feliz, limitando-se ao presente.

Não assim, ai de mim! Porque sofrendo
A fome, a sede, o frio, a enfermidade,
Sinto também do crime um peso horrendo.

Dos homens me rodeia a iniquidade,
A calúnia me oprime; e, ao fim tremendo,
Me assusta uma espantosa eternidade.
Teatro de Tenreiro Aranha
O teatro de Tenreiro Aranha é, decerto, muito mais interessante que sua poesia (mas não "melhor" necessariamente).

É importante lembrar que o "Teatro Brasileiro" só irá surgir muitos anos após a morte de Tenreiro Aranha (em 25/09/1811), e ainda assim, as condições para a realização de uma apresentação teatral minimamente "aceitável" só irá aparecer no Auge da "Era da Borracha" (a belle époque amazônica). Apesar disso, várias apresentações teatrais "populares" (para não dizer de qualidade apresentativa duvidosa à la teatro elisabetano) aconteciam, seja no teatro municipal como nas ruas ou próximo aos rios.

Tenreiro Aranha (na verdade seu filho) foi o primeiro que publicou algumas dessas obras teatrais. O teatro de Tenreiro Aranha é bastante primitivo, usa de poucos recursos cênicos (nada de cenários elaborados ou grandes ações, é basicamente apenas declamação de poesia), e possui uma inconstância interessante: alguns momentos uma boa apresentação lírica, outras vezes cansativo, mas quase sempre ininteligível teatralmente.

Assim como sua poesia, seu teatro é basicamente laudatório. Um exemplo é essa cena da "peça" Os Pastores do Amazonas, que procura enaltecer o nascimento da neta do Rei do Brasil (assim como o aniversário do rei):
(Fragmento da 2ª Cena)
[...]
    ELISA
Salve Breno..
    BRENO
Adeus, prezada Elisa,
Dize-me, acaso foram tuas vozes
Sempre doces, mas hoje mais suaves,
As que, soando neste bosque umbroso,
Suspenderam os Zéfiros, e foram
Despertar meus sentidos, que em sossego
À sombra do arvoredo repousavam?
Dize, amável Serrana; e se tu foste,
Contínua a cantar, que dos raminhos
Já pendem para ouvir-te os passarinhos.
    ELISA
Não, Breno, eu não fui, nem sei quem fosse
D’entre nossos Serranos, que pudesse
Cantar tão digna e tão suavemente.
O mesmo assombro, que essa voz te causa,
Também sentido, venho diligente
A causa examinar. Em nossos campos,
Repara, meu Breno, neste dia,
É tal a amenidade, que parece
Que a mesma natureza alegre vejo.
Tudo prazer respira, os ares puros,
Os velhos troncos com viçosas flores,
Os doces passarinhos gorjeando,
Tudo, tudo denota neste dia
Não sei que novo gosto.
    BRENO
                  Sim, Elisa,
Os Deuses nos protegem certamente,
E nossos ledos e ditosos campos
Hoje parecem deles Habitados
    CORO (dentro)
Do largo Amazonas,
Felizes pastores,
Soltai doces vozes,
Ornai-vos de flores;

Fazei memorável
Tão ditoso dia,
Celebrando o Nome
Da Excelsa Maria

Nele dois presentes
O Céu nos envia;
Celebrai o Nome
Da Excelsa Maria
 Além d'Os Pastores do Amazonas, há outras duas peças dramáticas de Tenreiro Aranha no mesmo livro: "Drama Pela Fundação da Casa Para Depósito de Pólvora no Rio Aurá" e "A Felicidade do Brasil", ambos em um só ato.

O "Drama Pela Fundação da Casa Para Depósito de Pólvora no Rio Aurá" é uma peça de apenas três personagens praticamente sem ação cênica (apenas declamação), onde o Gênio Tutelar do Pará conversa com uma Ninfa do Amazonas e o Aurá. É um texto bastante simples com um ou outro verso de valor, mas a maior parte do texto é cansativo e repetitivo.

"A Felicidade do Brasil" é um drama bem interessante, com uma representação cênica bem mais elaborada, com atores indo e vindo de dentro e fora da platéia, terminando com os atores escrevendo mensagens em pilares que se erguem. A temática é ufanista. O motivo da composição foi o aniversário do Principe Regente do Brasil, e a peça foi encenada no dia 13 de Maio de 1808. É uma obra que possui algum valor, retirando-se os longos períodos de enaltecimento do Príncipe:
   GÊNIO DO BRASIL
                                   Ninfa bela,
Inda não sabes tudo; eu tenho ainda
A revelar-te novas, grandes coisas:
Saberás pois que neste mesmo Dia,
Dia brilhante memoravel, fausto,
Para bem do Brasil, e para glória
Dos humanos, do mundo inteiro digo,
Nesceu esse bom Príncipe adorado,
Que por Senhor, e Pai tu reconheces;
Hoje renova alegre o Sol luzente
O seu Aniversário majestoso;
 Apesar de todas as deficiências (e elas são muitas), a obra de Tenreiro Aranha possui alguns momentos de grande lirismo, seja na poesia lírica, seja na teatral. Podemos também justificar algumas deficiências devido o problema estrutural do teatro e da literatura brasileira da época.

Esse livro (ou parte dele) é um livro bônus do Desafio Literário do mês de Junho. Não é um livro fácil de ser encontrado (pois está esgotado a muito tempo). Pode ser conseguido com maior facilidade em sebos ou em alguma biblioteca.

Nota do Elaphar: 8,1

Edição Lida:
TENREIRO ARANHA, Bento de Figueiredo. Obras Literárias de Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha. Belém: SECULT; FCPTN, 1989, 171p. (Lendo o Pará, v.1)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Lição de Botânica - Machado de Assis

Quando escolhi minhas leituras para o Desafio Literário do mês de Junho, pensei primeiramente nas obras que ainda não li dos maiores autores "clássicos": Eurípedes, Shakespeare e Machado. Resolvi não ler Eurípedes por dois motivos: 1º não sei se tenho ainda "ouvido" para a tragédia grega, e 2º minha edição de Eurípedes é uma vergonha, e sua edição não devia nem ser comentada. Então ainda me resta Shakespeare, Machado e outros que me der vontade de ler no caminho.

Machado de Assis é sem sombra de dúvidas o maior nome de nossas letras, e, apesar de ter escrito em praticamente todos os gêneros literários conhecidos (do romance ao libreto de ópera, da crônica à tradução), é basicamente conhecido pela tríade Romance, Conto e Crônica. Se na resenha de Ocidentais tentei mostrar a poesia desse grande escritor, procuro agora mostrar outra parte de sua obra relegada ao esquecimento: o teatro.

Toda grande nação possui um grande escritor do gênero teatral, ou é isso que a história literária nos diz. A grécia possui Sófocles e Eurípedes, a Inglaterra possui seu Shakespeare, a Alemanha seu Hofmannsthal e seu Goethe (além dos libretistas, como Wagner), portugal seu Gil Vicente e seu Camões. Apesar de muitas vezes a arte dramatúrgica ser considerada de segunda importância (até pelos próprios escritores), o teatro é uma das mais magníficas formas da literatura. O Brasil, lastimavelmente, não possui uma tradição teatral histórica. O teatro brasileiro surge muito tardiamente, influenciado fortemente pelo teatro francês. Até mesmo o Shakespeare que era representado em nossa terra no século XIX era um Shakespeare afrancesado (baseado em imitações neoclássicas de Dulcis), e não o Shakespeare elisabetano.

Assim como em outros países, no Brasil grandes escritores escreveram também para teatro (como José de Alencar e Machado de Assis). A obra teatral do grande mestre Machado é julgada geralmente inferior ao restante de sua obra, e não posso dizer que isso não é verdade, mas também não é culpa unicamente do escritor: todos os dramaturgos brasileiros desse período sofriam do mesmo mal, ou a peça era ruim ou não era "encenável".

A obra teatral de Machado de Assis, como afirmou Quintino Bocaiuva, é mais para ser lida do que para ser encenada. Lição de Botânica não foge à essa máxima, apesar de ser, dentre as peças de Machado, a mais "encenável" (embora seria muito mais sem graça do que no papel). Lição de Botânica conta a história de três moças (Dona Leonor (irmã mais velha), Dona Helena (irmã mais moça, viúva) e Dona Cecília (sobrinha)), o Barão Segismundo de Kernoberg (sueco, botânico) e Henrique (sobrinho do Barão, não aparece na peça).

Cecília e Henrique possuem um "rolo" (se é que existia isso na época, mas é o que me parece), e o Barão, amante da ciência, quer que toda a família das moças se afaste, já que casamento não combina com a ciência. O Barão faz o pedido à D. Leonor (o pedido de afastamento), e acaba esquecendo um livro na casa das moças. Cecília fica triste, e Helena têm um plano para o Barão cancelar sua decisão. Ao buscar o livro Helena procura falar sobre seu interesse em botânica, e o Barão, interessado, lhe propõe dar algumas Lições de Botânica. Daí aparece o diálogo central e mais incisivo da narrativa:
D. HELENA - Só uma coisa lhe acho inaceitável.
BARÃO - Que é?
D. HELENA - A teoria de que o amor e a ciência são incompatíveis.
BARÃO - Oh! isso...
D. HELENA - Dá-se o espírito à ciência e o coração ao amor. São territórios diferentes, ainda que limítrofes.
BARÃO - Um acaba por anexar o outro.
D. HELENA - Não creio.
BARÃO - O casamento é uma bela coisa, mas o que faz bem a uns, pode fazer mal a outros. Sabe que Mafoma não permite o uso do vinho aos seus sectários. Que fazem os turcos? Extraem o suco de uma planta, da família das papaveráceas, bebem-no, e ficam alegres. Esse licor, se nós o bebêssemos, matar-nos-ia. O casamento, para nós, é o vinho turco.
D. HELENA (erguendo os ombros) -Comparação não é argumento. Demais, houve e há sábios casados.
BARÃO - Que seriam mais sábios se não fossem casados.
D. HELENA - Não fale assim. A esposa fortifica a alma do sábio. Deve ser um quadro delicioso para o homem que despende as suas horas na investigação da natureza, faze-lo ao lado da mulher que o ampara e anima, testemunha de seus esforços, sócia de suas alegrias, atenta, dedicada, amorosa. Será vaidade de sexo? Pode ser, mas eu creio que o melhor premio do mérito é o sorriso da mulher amada. O aplauso público é mais ruidoso, mas muito menos tocante que a aprovação doméstica.
BARÃO (depois de um instante de hesitação e luta) - Falemos da nossa lição.
D. HELENA - Amanhã, se minha tia consentir. (Levanta-se). Até amanhã, não?
BARÃO - Hoje mesmo, se o ordenar.
 Se você leu esse diálogo até o fim já sabe tudo o que vai acontecer. Helena aparece para a lição, o Barão fica confuso, cancela a lição, vai à casa de D. Leonor pedir a mão de Cecília para seu filho e a de Helena para si próprio. Previsível, chato e cliché. O livro termina com a fala de Helena (de gosto discutível): "Não se admire tanto, titia; tudo isto é botânica aplicada.".

A sensação que tive ao ler o livro: se eu tivesse lido só esse fragmento aí em cima saberia toda a história e não teria perdido nada (ou seja, li o livro inteiro em vão). Esse é o tipo de texto que só se mantém vivo por ser de um grande escritor (nesse caso: Machado de Assis), mas é uma obra que não vale a pena retirar do esquecimento, não acrescenta em nada a obra do grande mestre. Ah, e o livro têm umas duas referências diretas ao teatro francês (Musset) e uma certa semelhança com as primeiras comédias de Shakespeare. De resto, não recomendo nem um pouco, mas se tiveres vontade de ler, o livro é pequeno mesmo.

Esse livro faz parte do Desafio Literário do mês de Junho. Para conferir a lista do desafio clique aqui. O livro é fácil de ser encontrado, costando em qualquer edição da Obra Completa de Machado ou de Obras Teatrais. Também está disponível gratuitamente em uma infinidade de páginas na internet, já que o texto está em Domínio Público.

Nota do Elaphar: 7,8

Edição Lida:
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Lição de Botânica. in: Obra Completa. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Disponível em: http://machado.mec.gov.br/images/stories/html/teatro/matt10.htm .

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A Volta do Parafuso - Henry James

Henry James é considerado por muitos um dos maiores escritores norte-americanos, merecendo apreço de outros grandes escritores como Josef Conrad, e considera-se que suas obras estão carregadas de fundo psicológico. A Volta do Parafuso (ou Os Inocentes) é um de seus livros mais famosos, contando até com uma famosa adaptação cinematográfica.

O livro inicia-se com uma narração de história sombria numa velha casa no Natal, onde um dos amigos de Douglas (um dos narradores do livro) contou uma história onde uma aparição surgia para uma criança. Os que ouviram a história ficaram estarrecidos, mas Douglas lembrou de outra história "horrível demais". O nome do livro provém de uma expressão usual (Another turn of screw) que significa aumentar a tensão, sofrimento, dor e etc... Se uma história horrível é mais horrível ainda com a presença de uma criança, o que diria de duas? Esse é um ponto chave da narrativa: duas crianças, dois adultos, duas aparições e duas voltas.

Antes de falar um pouco mais do duplo, a narrativa possui 3 narradores, um que narra a noite de Natal e comportamento do amogo Douglas, depois o próprio Douglas narra o como ele conseguiu o manuscrito e dá um prólogo da narrativa, depois Douglas lê a narrativa de um manuscrito escrito pela protagonista da história, e terceira narradora. Além de não termos uma narração direta, a narrativa é complexa, profunda e que não se reduz à um único caminho, o que torna dificil (e praticamente impossível) "fechar" uma análise profunda da obra sem cometer o pecado da omissão, e, por outro lado, uma análise superficial demais é (além de impraticavel) um assassinato ao livro, que já ataca os leitores vulgares e superficiais no primeiro capítulo. Também vou tentar evitar spoilers o máximo possível, mas de qualquer modo, o desfecho da história não é mais importante (e interessante) que seu desenrolar.

A narração é magnificamente complexa e ao mesmo tempo saborosa de se ler. Apesar de, a princípio, achar-mos as crianças "plastificadas", percebemos a importância disso para o próprio desenrolar da obra. O clima sombrio que James constrói, além dos "labirintos" da narrativa nos guiam por diversos caminhos de leitura. Se você acha uma discussão inacabada o tradicional "Capitu traiu ou não traiu Bentinho?", o que dirá de uma narrativa onde tudo é dúvida? A visão é uma dúvida, as aparições, as crianças, a loucura, enfim... tudo.

Apesar de ser apenas um livro, em A Volta do Parafuso dois outros textos se fazem presente (e eu se fosse vocês procuraria lê-los o mais rápido possível): O Homem de Areia (Der Sandmann) de E.T.A.Hoffmann e o poema O Erlkönig (Der Erlkönig, também conhecido como Rei dos Elfos) de J.W. von Goethe. O Homem de Areia é um livro bem fácil de encontrar por ser um "clássico" do Romantismo Alemão, embora deve-se ter cuidado com as adaptações infanto-juvenis do livro, já que elas tiram todo o clima absurdo, sombrio e violento do livro. Para quem lê inglês ou francês, o Erlkönig é um dos poemas alemãos mais traduzidos. Para os monolíngues as únicas opções legíveis do Erlkönig são as traduções portuguesas (que podem incomodar os brasileiros devido aos "a ver", "rebento" e etc...) e a tradução anotada que fiz recentemente (e pode ser conferida clicando aqui), as outras traduções que podem ser achadas na internet não são minimamente legíveis.

Há relações óbvias com o enredo de O Erlkönig (a aparição à uma criança, o adulto tentando proteger, a morte e etc...), o que me leva a crer que a referência inicial à uma história horrorosa é uma referência ao Erlkönig. Para além das referências óbvias, ambos os textos são polissêmicos ao extremo: o que é realidade? o que é loucura? quem vê demais? quem não vê? seria doença?. A visão é outro ponto chave da narrativa, e me remete diretamente ao Homem de Areia, onde a narrativa se baseia na dúvida, no ver e não ver (no Homem de Areia o órgão da visão também é fundamental: o Homem de Areia joga areia nos olhos, a boneca robô têm seus olhos arrancados e etc..) e isso é chave importante nas três narrativas (isso considerando o poema de Goethe como narrativa).

Além da visão e dúvida (e por consequência a loucura), outro tema chave da narrativa é o duplo. Uma análise mais superficial nos dá uma rápida visão de que A Volta do Parafuso é um Erlkönig duplicado, mas não é somente isso, pois além de dois adultos, duas aparições e duas crianças, os fantasmas aparecem duas vezes em cada lugar (na torre, no lago, na escada e etc...), a preceptora vê seu patrão apenas duas vezes, o Peter Quint (uma das aparições) pode ser compreendido como uma duplicação da imagem do patrão, assim como a segunda aparição uma duplicação da imagem da preceptora (além do fato de haver duas preceptoras), e poderia ficar citando imagens duplicadas durante horas a fio. Essa duplicação também aparece de forma marcante no Homem de Areia na imagem (ou na possíbilidade) do ser duplo (der Doppelgänger). Seria Coppola um Doppelgänger de Coppelius? Da mesma forma que as aparições seriam duplicatas dos adultos?

As comparações que faço não são arbitrárias. A concepção dos três livros se assemelha, assim como seus temas e simbolos. Além disso, Goethe é uma influência incontestável (diretamente ou não, intencionalmente ou não) em praticamente tudo o que se fez depois dele, e Hoffmann é a base fundamental da narrativa sombria (em alemão Schauerliteratur), e influenciou diretamente um sem número de obras, particularmente em obras de língua inglesa. Apesar das obras anteriores nos ajudarem a compreender a gênese e significado de muitos símbolos e palavras-chave da narrativa de James, A Volta do Parafuso não se fecha apenas nisso, e a superficialidade (não intencional) de quem se aventura a escrever sobre esse romance é inevitável. Por conta de todo o jogo narrativo e interpretativo do texto, além do prazer que a leitura me ofereceu (crédito não só do autor, mas também da edição e tradução. Parabéns Hedra, Marcos Maffei e Marcelo Pen), esse livro merece (junto com Lolita de Nabokov) a nota máxima dada por esse humilde blog.

Nota do Elaphar: 10

Edição Lida:
JAMES, Henry. A Volta do Parafuso. Trad: Marcos Maffei. Introdução de Marcelo Pen. São Paulo: Hedra, 2010, 182p.
Related Posts with Thumbnails